sábado, 29 de março de 2008

Da série...Contos de ninar TroLha....

Aldirene...

Aldirene não teve muita escolha...Aos 07 anos viu seu pai ser esfaqueado dentro de casa...pelo amante de sua mãe...Eram todos vizinhos, e no seu imaginário de criança não havia muita noção moral nas visitas que "o tio" fazia a sua mãe, até porque sempre vinham balas e, alguns carinhos que, raramente ganhava de seu pai
Desde cedo aprendeu que homens, geralmente, exercem a conquista atrávés de mimos ou através da força...
Aliás, Antenor seu pai quase nunca podia ser visto...trabalhava dia e noite...e quando não trabalhava, afogava o cansaço e a rejeição de sua mãe na bebida...o balé da violência, com os movimentos bruscos, e certas vezes, preparados, era terrível...ali, debaixo da cama daquele barraco onde viviam ficava mais assustador...Tempos depois, quando ficou famosa com sua história e virou filme, descobriu o termo que os antigos "clientes" e agora sócios intelectuais e cineastas usavam...aquela visão da violência explícita embaixo da cama adestrou seu olhar, o enquadramento, a luz...É tudo uma questão de ponto de vista, referência...toda tragédia tem sua poesia....
Por isso nunca reclamou muito da violência dos "playboys" que eram seus "clientes"...
O sexo nunca teve muito significado para ela...afinal sua primeira vez destruiu seu "castelo"...
Tentava ser uma moça "decente"...como sua mãe, sua avó...deflorada no quartinho de empregada...grávida...aborto naquela clínica suja que o pouco dinheiro que recebeu quando foi demitida da casa da madame...
A diferença que sua mãe e sua avó não enxergaram a oportunidade...já que era para dar a buceta, e às vezes, fazer coisas mais nojentas, sem vontade, porque não descolar uma grana, beber do bom, passear em carrões...as "extravagâncais dos clientes fazia parte..."
Aldirene seguia o roteiro...não se queixava, e quando sua mãe reclamava podia esfregar na cara dela o dinheiro que a profissão de doméstica nunca trariam...
Pagou a faculdade dos irmãos, a cirurgia de catarata da avó, e seu enterro também...mesmo assim, era quase como se o dinheiro fosse maldito...
É triste, pensava Aldirene...um monte de miseráveis, comendo do pão que acreditavam amassado pelo diabo...
Sempre soube que era gostosa, desejada...afinal, Deus não dá asa a cobra, mas o diabo deu o veneno e o chocalho para encantar os trouxas...
Um dia desses conheceu um carinha...nunca tinha trepado por amor, mas sabia pelas "putas" velhas que era inevitável...se beijar fudeu, diziam elas...tudo lenda...mas e daí...? Para quem não teve papai noel, coelho da páscoa, festa de aniversário de 15 anos, sobrava acreditar no príncipe encantado...
E que encanto...Paulinho, filho de industrial da cidade sempre trazia o melhor pó, uísque do bom, balada mil fita....
A vida era roda gigante, e travada no ponto mais alto...
Nunca tinha amado, e sequer sentia posse sobre algo, pois jamais possuíra nada...tudo lhe fora tirado...Mas Paulinho era seu....
Estranho como a mente funciona...não tivera nada até então, e jurava que quando tivesse algo
agiria diferente de tudo que conhecia.
Uma puta nunca tinha direito sobre homem...Não...Todas suas amigas que lhe rodeavam, e lhe invejavam, diziam que: "não se come a carne onde se come o pão"...
Não acreditou...acreditou em Paulinho...
Tudo que conhecia do casamento eram as lembranças das surras de sua mãe dadas pelo pai, ali embaixo da cama...e talvez a morte de seu pai pelo rival "tio Cleysson"...que logo após foi preso, e nunca mais apareceu...o sexo do casamento, eram as trepadas que sua mãe dava com o "tio"...
Como tinha grana, às vezes ia ao Shopping...comprava o que podia, numa vingança, num recalque de dizer para aquelas esnobes vendedoras que o dinheiro não tem cheiro, e nem leva desaforo para casa...Algumas encontrou na vida depois...
A vida tem coincidêncais que nem parecem acaso...
Um dia atendeu ao telefone que colocara no anúncio...Topou...Programa normal...casal entediado, queria uma putinha para brincar com a madame, enquanto o patrão assistia...
Tudo marcado, e qual a surpresa quando viu o carro de Paulinho na rua...
Filho da puta, fingiu que não a conhecia e levou o jogo...quanta perversão...decidiu entrar no jogo... a madame, soube era noiva dele, e aquilo era a "despedida de solteiro" do casal...
Muito pó, birita...tudo no "script"...feito o serviço, dinheiro no bolso, pediu para ir ao banheiro...
Quando voltou os dois dormiam...
Pensou...parou...pensou...a navalha na bolsa...presente de uma "puta das antigas"...
Sem hesitação, cortou a garganta dos dois, foi para casa...e se escondeu com o dedo na boca, embaixo da cama...
Desde então nunca mais dormiu em cima da cama da cela, sempre embaixo da cama...

3 comentários:

Blog Vitor Longo disse...

Beleza de conto caro amigo Chacal. Demais...

fabianoseixas disse...

Gostei muito do conto, creio que tenha sido inspirado na leitura do Caderno Ela do Jornal O Globo de hoje... uma patricinha que saiu do mundo das drogas, viajou e mundo e se relacionou com traficantes.
Tá dando a maior onda falar que usou drogas.
Como diz na gíria, tá bombando, vendendo livros, virando filme e trilhas sonoras.
Esse caras não sabem o que é recuperação verdadeira, o processo diário se manter limpo, em suas entrevistas, eles apenas falam do glamour das drogas, das baladas, das festas, não do que é estar na abstinência e ter uma vontade de usar, o momento em que o corpo pede a droga e a pessoa fica toda desnorteada, capaz de fazer as maiores atrocidades posssíveis!
"Só por hoje eu não preciso usar nunca mais!"

Xacal disse...

Não Fabiano, hoje não tive chance de ler jornal...

Quanto ao fato de "dar onda" falar que usou ou usa drogas, longe das questões moralistas, até porque encaro consumo/abuso de drogas lícitas/ilícitaa, como questão se saúde páblica, imagino que uma abordagem mais aberta seja indispensável para tratar do fenômeno, independente de algumas questões mercadológicas e de popularidade...

Mas o drama de aldirene não se resume as drogas, como o de ninguém...drogas são mais um componente, penso que são a conseqüência, e não causa...na verdade todo adicto quer é se automedicar...para dores que não há cura...