quarta-feira, 26 de março de 2008

Dengue...o flagelo da planície...

Com muito orgulho, no início da década de 90, do século passado, o Xacal trabalhou como guarda de endemias...Assim eram chamados os servidores que combatiam a infestação do aedes aegypti...
O combate a essa endemia, assim como de outras endemias urbanas e rurais, ficava a cargo da extinta SUCAM, transformada em FUNASA...
Naqueles anos havia uma forte epidemia, com números altos, e diante dessa emergência foi criada uma força-tarefa com contratação de recursos humanos e equipamentos...
O detalhe curioso foi a forma de seleção dos servidores, que bem poderia servir como exemplo.
O Governo Federal utilizou o cadastro de um concurso público da CEDAE, à época, recém realizado, e admitiu os aprovados que não tinham se classificado entre o número de vagas para os cargos na CEDAE...
Me recordo da surpresa e da felicidade com a chegada do telegrama com a convocação...eram tempos bicudos, desemprego...
Assim evitou-se, a título de emergência, o apadrinhamento, bem como houve um claro nivelamento "por cima" da mão de obra...Houve, então, mesmo que de forma indireta, uma concorrência pública e republicana aos cargos de guardas de endemia...
Mesmo com toda emergência, houve um curso de 20 dias, e após esse curso, uma avaliação que eliminou os que não obtiveram aproveitamento...
Tal o nível de exigência que até hoje me recordo dos principais itens ligados a Dengue e ao mosquito:

Aedes Aegypti.

Quatro fases em seu ciclo de vida:

1-Ovo; 2-larva; 3-pupa; 4-fase alada (mosquito).

A fêmea do aedes impregnada por ovos alimenta-se de sangue humano para maturar os ovos em seu organismo...o vírus é transmitido na picada do mosquito que retém o vírus em seu organismo, em uma enzima na saliva, que o mosquito utiliza para penetrar a pele humana na picada, um tipo de anestésico natural, para disfarçar o incômodo da picada.
Na primeira fase, ovo, há uma incubação de três a quatro dias, uma vez eclodidos, as larvas duram mais três dias, transformadas em pupa, que duram dois ou três dias, e enfim virá o mosquito que dura cerca de sete dias...
Os larvicidas (Abate), como o nome já diz, só funcionam em larvas. Os inseticidas aéreos, para combate ao vetor alado, (Malathion) têm hoje eficácia reduzida pelo desenvolvimento de resistência nos vetores...
Outro fator que dificulta o combate é a dissecação dos ovos.
Os ovos do aedes aegypti podem sobreviver em ambientes secos (sem água) durante seis meses.
Um pneu, por exemplo, infectado por ovos pode mantê-los por seis meses até que seja novamente irrigado, e recomeça, então, o ciclo interrompido.
O aedes pode ser então transportado por diversas regiões e cidades...
Não me recordo se naquela epidemia se utilizou de barreiras sanitárias, como pulverização de larvicidas nos caminhões vindos das regiões que mantinham números epidêmicos...
Há quatro cepas (tipos) de vírus, mas no Brasil só existem três ativas...

O combate que fazíamos nas residência era do tipo verificação e tratamento 100%. Todas as casas eram revistadas a busca de focos, e tinham seus depósitos permanentes tratados (caixas d´água) e os artificiais (embalagens, pneus, vasos) quando possível eram inutilizados...
Havia um método para tornar essa visita mais eficiente, que hoje não vejo mais ser aplicado...
A visita sempre se dá da direita para esquerda, primeiro dentro da casa, e depois do lado de fora.
Ao final havia o que mais gostávamos, que era a educação ambiental, onde os agentes conversavam com os moradores, e não raro, ali fazíamos amizade e construíamos assim, o que se chamava confiança e cumplicidade...
Como os agentes permaneciam longos períodos no bairro, e encerrado o ciclo, recomeçavam outra modalidade naquelas mesmas localidades, os moradores sentiam-se "obrigados" a manter seus quintais limpos...
Nada escapava a tenacidade e fibra daquelas equipes...caixas d´água, na época, a maioria de alvenaria tinham que ser "cubadas", ou seja, calcular o volume para colocação da exata quantidade de larvicida... os telhados várias vezes sucumbiram com os agentes...poços, muito comuns, repersentavam um perigo a mais, por muitas vezes tínhamos que descer nos poços...
Lembro do rigor quase militar, pois existia em cada equipe de cinco agentes, um guarda chefe que supervisionava todas as manhãs o material dos guardas, cuidadosamente dispostos, em uma lona preta, para a conferência e substituição e ou reaparelhamento dos itens...Mantínhamos um PA, Ponto de Apoio em Escolas e prédios públicos, o que nos aproximava mais da rotina do bairro...
Havia uma supervisão rigorosa e aleatória, e os servidores inefizaces eram retirados do campo...
Fiz todo esse relato para demonstrar que, assim como em qualquer ação de saúde pública, necessitamos de seriedade, de eficiência e eficácia...de valores, exemplo do poder público...
É o termo desgastado, em desuso: civismo...
Bons tempos...

Não sou sanitarista, mas aprendi que doenças endêmicas e tropicais não precisam de soluções mirabolantes e caras para seu combate...São medidas tão óbvias que ficam escondidas...

4 comentários:

Anônimo disse...

Muito bom post xacal...boas explicações. Acho que o pior é o descaso das autoridades incopetentes no assunto. Estado do Rio,por exemplo, cortou 49% das verbas destinadas ao combate de endemias, como a dengue. Agora vão para tv dizer para o povo virar garrafa, tampar caixa d'água etc e tal, como se a população tivésse toda a culpa no cartório. abraços

xacal disse...

Gustavo:

Tem um dado que a grande mídia, o PIG, ainda esconde...
Ontem, numa fala de três segundos, ao fim da reportagem, aquela nota de pé de página se fosse em jornal,
a jornalista disse que dos 30 milhões destinados ao combate a dengue sobraram apenas 14 milhões devido ao fim da cpmf...
Acho que a percentagem que você se refere tem haver com esses números...

Blog Vitor Longo disse...

Acabei de ter todas essas informações com um colega seu, guarda de endemia.

Questionei a ele, durante a conversa, se o pessoal do CCZ de Campos está com essa preparação que vocês têm e tiveram.

A ética lhe fez calar a minha pergunta. Mas, como para quem sabe ler um pingo é letra....

Parabéns pelo texto de alto valor informativo. Aliás, tenho observado que a Trolha, no olho do furacão da dengue, tem pautado em informar com ciência e didática.

Um abraço. Vitor Longo Braz

xacal disse...

Grato Vitor...
Agradeça aos funcionários da extinta SUCAM...depois demitidos pelo governo FHC...