quinta-feira, 20 de março de 2008

Série Contos da TRolHA...Reflexos...e reflexões...


Walter Ego-personagem narcisista criado por Angeli na década de 80(séc XX)

Reflexos e Reflexões...
Fernando Roberto era uma pessoa feliz, realizada.
Afinal conseguira o que se espera de um homem...Estudou, engenharia, realizou seus sonhos de consumo, como casa, carro...conforto, enfim...o melhor e merecido, com seu próprio esforço...
Constituiu uma família feliz, com uma parceira do seu círculo social, que lhe poupava, inclusive de grandes choques culturais ou constrangimentos nas reuniões familiares... Um belo casal de filhos, saudáveis, inteligentes, com os quais mantinha um bom diálogo...
Era cercado de amigos...e muito embora, os estimasse, não enxergava neles uma interlocução capaz de ameaçar suas certezas...e talvez por isso, houvesse ali um fragmento de incômodo...
Talvez por isso, arriscou-se a dar aulas...Quem sabe o magistério lhe apresentasse alguma surpresa, um desafio...
Não...no fundo sabia que a opção pelo magistério era apenas para dar vazão ao seu ímpeto de "professorar"...
Enxergou essa realidade, e desse modo construiu uma carreira brilhante...Magistrava pelos motivos certos, sua vocação era inequívoca...
Com o tempo, dada sua eficiência, sua eloqüência e o desenrolar das conjunturas, foi chamado a liderar sua escola...
Sua imagem era um símbolo...Austeridade, honestidade, coerência ideológica e pedagógica, além do "desprendimento" em sufocar sua "vida pessoal" em nome da tarefa coletiva...
Mal sabiam que não havia esse dilema em Fernando Roberto...sua vida pessoal nada mais era do que um desdobramento do seu "eu" público...a imagem...o símbolo...
Sucesso absoluto...Mesmo que as pessoas o interpretassem de várias formas, e desconhecessem seus motivos verdadeiros, em uma coisa elas acertavam...ele acreditava no que fazia e no motivo que o movia...
Houve uma hora, no entanto, que as responsabilidades maiores bateram a sua porta...Sua eficiência rendeu a possibilidade de transpor sua experiência a instâncias maiores de poder...
Terror...a idéia de operar um universo onde as regras não eram absolutamente controláveis, como um teorema, um cálculo de engenharia, petrificava seus músculos...
Desde criança sua habilidade em liderar brincadeiras, e "inventar" brinquedos era notória...Só havia um senão...todos os coleguinhas deveriam estar subordinados às suas determinações...Por isso não se deu muito bem em esportes coletivos....
Atendeu ao chamado das ruas...Mas foi o seu primeiro fracasso...
Ainda acreditava em si mesmo...
Aquilo era apenas mais "um palco" para desfilar sua eloqüência e saber notório... como dar errado...?
Mas faltava o controle do cenário...
E mais ainda...No seu mundo, naquele aquário, que construiu na sua Escola, de uma forma ou de outra, havia uma dependência dele, uma hierarquia...balizada por funções e cargos, corpo docente e discente, regras administrativas, etc...
Como professor e diretor sua avaliação é que distingüía as pessoas...Notas...
Agora o avaliado seria ele...
Aqui fora, na política, nas eleições, nos Partidos, ele era importante, mais era mais um dente, e não a engrenagem toda...
Nessa época, sua prestimosa esposa resolve reformar o apartamento do casal...Os filhos já crescidos não ficam mais tanto tempo em casa, e assim a idéia de aumentar o conforto do lar parecia boa...
Bem na parede do quarto, Aline, sua esposa, decide colocar um baita espelho...lindo...
Desde esse dia, Fernando Roberto não mais foi visto em atividade social...Passa horas se admirando em frente ao grande espelho...Só conversa com pessoas através da imagem que elas refletem nesse espelho, e em outros espelhos menores que comprou para se movimentar pela casa...As imagens da janela também são primeiro refletidas no espelho...Se adaptou ao incômodo de algumas imagens serem registradas de forma invertida...passou a pensar de forma invertida também...a ler de forma invertida...
Recusa-se a terapia...e por esses dias quando andava pela rua com seu espelhinho a guiar seu caminho, foi olhar para as nuvens do céu, e ficou cego com o forte reflexo do sol em sua retina...
Foi a primeira vez, que cego, virou o espelho para dentro de si, e enxergou como nunca...
Os bombeiros levaram cinco horas para reunir seus restos mortais na calçada, em frente a janela do 12º do onde pulou...
Os espelhos que guardava no bolso dilaceraram seu corpo em vários pedaços com o impacto...
A família está desconsolada...
No velório, sua esposa e filhos ainda passaram pelo infortúnio de cumprir o último desejo de Fernando Roberto...
Um caixão todo de vidro, espelhado para dentro...

Um comentário:

Vitor Menezes disse...

Vamos mais uma vez formar a Rede Blog nesta sexta, 21. O tema sugerido é Cultura e Patrimônio Histórico de Campos dos Goytacazes. Vamo que vamo!