sábado, 31 de maio de 2008

A corrosão da autoridade...

Momentos como esse trazem à tona quão delicado é o tecido sócio-político que sustenta a democracia...
Afinal, em resumo, podemos dizer que os regimes democráticos de baseiam em "crenças"...quase no sentido "religioso"...
É preciso acreditar, mesmo diante de todas as evidências em contrário, que o sistema funciona a contento, e distribui direitos e deveres de forma a contemplar as demandas de cada grupo...
Ainda que a realidade se apresente de forma distinta, é a crença nessa estrutura de valores que sustenta vários institutos que servem de instrumento para a regulação da vida em sociedade...
Talvez o mais importante deles seja a autoridade...sim, pois da sua degeneração temos o autoritarismo que é fatal à própria democracia...

Nesse episódio de garotinho e a polícia civil no Estado do Rio de Janeiro houve um sério abalo na autoridade daqueles que tinham, ou têm a missão de impor em nome do Estado a vontade e a coesão de todos que vivem sob sua égide...

Como deixar de imaginar que boa parte dos policiais passará a questionar, mesmo que de forma individual e íntima, as ordens e missões que recebem de autoridades as quais não têm certeza acerca de sua legitimidade...
Um dos efeitos da corrupção enraizada no aparato de coerção estatal é a diluição e ramificação de um sentimento de desconfiança mútua, onde cada ação interpessoal e entre pessoas e suas instituições passam por um processo de desgaste e desligitimação...

Desta feita, os reflexos da corrosão da autoridade em um poder, ou ente estatal contamina e suga para a vala comum todos os outros poderes e entes, como uma feroz e irreversível metástase...
A crise aguda na polícia repercute na ALERJ, no Judiciário, MP, Poder Executivo e na sociedade civil, que "indefesa" reage a seu modo e reinventa formas heterodoxas de relacionamento, que de maneira simplista chamamos de clientelismo...
Impossível depois de certo tempo determinar quem é causa ou efeito do quê...

Com essa turbação dos papéis e dos atores, todo o "roteiro" democrático é subvertido e o exercício da convivência passa a ser um grande "improviso"....

Não há remédios milagrosos, nem soluções mágicas...o sofrimento tem que ser levado a cabo...uma exacerbação da nossa tradição católica latinoamericana de purgação e purificação pelo sofrimento...

Por mais intransponível que pareça, esse lodaçal onde a autoridade se atola oferece a chance de "afogar" os conspurcadores em nome do surgimento de novas possibilidades: para o bem, ou para o mal...!

Há condições de se refazer o "contrato" sob o qual estava submetido o controle das instituições de poder...pode ser um aperfeiçoamentos dos valores democráticos ou um aprofundamento da distorção autoritária dessa mesma autoridade...!

Veremos...

3 comentários:

George Gomes Coutinho disse...

Prezado Xacal,

Como creio que compartilhamos em partes o mesmo ponto de vista resolvi lhe responder por cá e não pelo "outros campos".

Veja, em um cenário como esses a única coisa que temos de concreto é: a política, no imaginário social regional, pode ser convertida unicamente a um negócio sujo, escuso, onde teremos a hegemonia de um comportamento eleitoral cínico e anômico. Ou seja, em um jogo deste nível torna-se moralmente aceitável que o mercado eleitoral de compra e venda de votos seja guiado meramente por imperativos de sobrevivência (conseguir um empreguete ou aumentar o patrimônio). Mesmo que o discurso seja do bom e velho "interesse geral". Para as cucuias qualquer projeto de longo prazo.

O que quero dizer?

Ora... A política perde todo e qualquer conteúdo eventualmente subversivo que possa ter aqui entre nós. Porque mesmo propostas genuínas de mudança, na concepção do "eleitor comum", podem ser vistas meramente como mais uma estratégia de um grupelho em busca de espaço para espoliação do patrimônio público. Eis o problema da deslegitimação do poder local em que entrevistas como da professora Odisséia só ajudam a colocar mais fermento. Creio mesmo que as lideranças petistas pela direita (?!?) talvez não tenham compreendido a profundidade e a dramaticidade do problema.

Desta forma, prosseguindo, creio que a Terceira Via ainda não disse a que veio. Não se consolidou ainda como um espaço permanente de discussão embora nos blogs berremos como loucos. Até porque, como vc mesmo sabe, os blogs não podem substituir espaços formais de encontros no espaço público.

Há relativa apatia dos grupos progressistas. Mas, porque ela não se torna em fato ao invés de ser uma eterna potencialidade? Simples, porque ainda não foi criado um espaço em que as pessoas possam "pegar em armas".

Só para ilustrar... Militantes antigos diziam que nas grandes capitais brasileiras após o golpe de 64 vários grupos correram para as ruas buscando um lugar onde poderiam se agrupar, pegar literalmente em armas e providenciar focos de resistência urbana. O problema é que não tivemos lideranças que tenham preparado esse espaço de aglutinação que viesse a conferir materialidade para a resistência.

Encontramos em Campos cenário similar.

O único grupo que se manteve após 2004 constantemente mobilizado foi o de Garotinho com um projeto de poder muito claro.. Mas agora torna-se seriamente abalado.

Por isso, até o presente momento, talvez uma liderança carcomida e conservadora desponte aí com boas chances. E não será esta a devolver qualquer sentido positivo para a palavra "política".

Xacal disse...

george, o que posso lhe adiantar por enquanto é que em breve surgirão novidades...

acredite...

George Gomes Coutinho disse...

aguardo pois... Mais preocupado que ansioso!