terça-feira, 8 de julho de 2008

O Bra(z)il e o Brasil...1...Da série: Como o PIG vê o Bra(z)il e como a mídia internacional vê o Bra(s)il...

Quem lê os jornais de língua estrangeira, e alguns especializados em economia tem uma visão totalmente distinta de quem só lê jornais de língua pátria...Já ressaltamos essa diferença aqui, mas esse tópico nos retorna a memória sempre que uma nova "crise" é criada pelo PIG...Incansável, a mídia nacional e seus "sabujos" de coleira vende o fim do mundo, agora pela via hiperinflacionária...

Embora com as reservas e cautelas de praxe, o Financial Times publica em sua página eletrônica uma Reportagem Especial sobre o Brasil que nos deixa surpresos...Não sabia que estávamos tão bem....nem "matéria paga" ficaria tão bom assim...

Mais de uma dezena de análises, por diferentes jornalistas que tratam da Amazônia, petróleo, biocombustíveis, Banco Central e inflação, e enfim negócios e oportunidades em uma ambiente destacado pela estabilidade e confiabilidade...

Traduziremos, ao longo do mês, alguns trechos dos variados textos, e outros na íntegra, como esse aí embaixo...A leitura é longa, e às vezes complexa, dificultada ainda mais pela deficiência com a língua, mas a idéia central permanece, e esperamos ser essa uma boa contribuição para o debate sobre o Brasil, suas perspectivas e as várias visões que o enxergam...

Enfim pensamos também em abandonar um pouco essa atmosfera eleitoral que sobrecarrega e, por vezes, desqualifica nossa interlocução...

"Surfing a big wave of confidence
By Jonathan Wheatley and Richard Lapper
Published: July 8 2008 00:29 Last updated: July 8 2008 00:29
Brazil’s prospects, it seems, have never been better. Economically and politically stable, the country has become a poster child on international financial markets – the most fashionable, perhaps, of the so-called Bric group of large emerging markets that also includes Russia, India and China.
At a time of rising global demand for food and energy, Brazil is uniquely placed. Already the world’s biggest producer of almost any farm product you like to mention, including ethanol made from sugar cane, Brazil is the fourth biggest manufacturer of cars and will soon become an important oil exporter.
Its home markets are booming and have become a huge magnet for foreign direct investment. Its capital markets are attracting massive inflows from overseas. Meanwhile, Brazilian society is being transformed as incomes rise and inequality falls."


Surfando uma grande onda de confiança.
Por Jonathan Wheatley e Richard Lapper.

Tradução:
As perspectivas do Brasil, parecem nunca ter estado melhores. Estável economica e politicamente, o país se tornou uma aposta promissora no mercado financeiro internacional- a mais atraente, no entanto, dos chamados BRIC, grupo das economias em desenvolvimento que também incluem Rússia, China e Índia.
Em época de crescimento de demanda por comida e energia, Brasil está unicamente posicionado. O já maior produtor de qualquer produto agrícola que possa ser mencionado, incluindo etanol de cana-de-açucar, o Brasil é o quarto produtor mundial de automóveis eserá em breve um exportador de petróleo.
Seu mercado interno está explodindo e se tornou um atrativo gigantesco de investimentos estrangeiros diretos. Seu mercado financeiro está atraindo investimentos externos em massa. Do mesmo modo, a sociedade brasileira está sendo transformada e a desiguladade cai.

"Much of this has been made possible by reforms enacted over the past 15 years that have borne fruit during the past few years. It has all been helped along by international conditions that, for Brazil, have never been so benign.
It is no exaggeration to say that Brazil is on the verge of superpower status. But it is not there yet, nor is that status guaranteed. Things have been going so well – President Luiz Inácio Lula da Silva is the most popular president in Brazilian history – that there is a powerful temptation among the country’s leaders to let things take their course. But the task of transforming Brazil is far from complete.
The country’s infrastructure is a mess. Public health and education services are persistently inadequate. Businesses must still struggle through a mass of red tape and Brazilians seem addicted to a large and spendthrift public sector. The cost of failing to address these issues will be another generation of lost opportunities."


Tradução:
Muito do acontecido tem sido possível pelas reformas começadas há quinze anos que começam a dar frutos agora, nos últimos anos. Tudo isso ajudado pelas condições internacionais que, para o Brasil, nunca foram tão favoráveis.
Não é exagero dizer que o Brasil está a beira do status de superpotência. Mas não chegou lá ainda, e esse status atual não está garantido. As coisas vão tão bem- o presidente Lula é o mais popular da história brasileira- que existe uma tentação entre os líderes do país em deixar as coisas "tomarem seu curso". Mas a tarefa de transformação do país está longe de se completar.
A infra-estrutura do país está uma bagunça. Saúde pública e educação estão persistentemente inadequadas. Os negócios ainda se debatem contra uma "massa de tarjas vermelhas" (termo coloquial para burocracia estatal, entraves burocráticos) e os brasileiros perecem "viciados" em gastos gigantes do setor público. O custo de falhar no encaminhamento desses conteúdos será uma outra geração de oportunidades perdidas".

Even so, the momentum for change is strong. On the streets of Brazil’s towns and cities, the feelgood factor is hard to ignore. Consumer and business confidence are riding high. In São Paulo, a spectacular new suspension bridge completed last month seems to typify the mood – brash, daring, brightly lit and monumentally confident.
Among the steel and glass towers of the business district around it, new buildings are sprouting like so much tropical undergrowth.
But it is among the lower-income groups and in some of Brazil’s poorest states in the north-east that the most important changes are taking place. The Bolsa Família, an income-support programme developed under Fernando Henrique Cardoso, president from 1995 to 2002, and vastly expanded since then under Mr Lula da Silva, has brought a quarter of Brazil’s nearly 190m people into the consumer market for the first time.


Tradução:
Mesmo assim, o momento de mudança é forte. Nas ruas dos centros e das cidades, o sentimento otimista é difícil de ser ignorado. Consumidores e negociantes estão à toda. Em SãoPaulo, uma ponte suspensa espetacular acabada mês passado parece tipificar o estado de espírito
-espantosamente brilhante e monumentalmente confiante.
Entre as torres de de aço e vidros do centro financeiro, novas construções estão brotando do solo tropical. Mas é entre os menos favorecidos dos estados mais pobres do Brasil, no Nordeste, que as maiores mudaças estão acontecendo. O Bolsa Família, um programa de distribuição de renda desenvolvido na era FHC, presidente de 1995 até 2002, e vastamente expandido sob o mandato de Lula, trouxe pela, primeira vez, um quarto dos 190 milhões de habitantes para o mercado consumidor.

Across the country, though, there has been a rapid expansion of jobs and credit. Many new jobs – though far from all – are the result of migration from the informal to the formal sectors: workers who previously had no registration or rights are now tax-paying citizens with generous employment benefits.
“The creation of formal jobs is far outpacing that of informal ones,” says Cristiano Souza of Dynamo, a Rio de Janeiro investment manager. “Companies are hiring better-educated and more productive people.”
One reason for the rise of the formal sector is that government inspectors are cracking down on tax dodgers. But there are many other factors. Any owner of a company thinking of going public, of selling part or all of their business, of opening franchises, or of applying for credit, must be able to show a genuine, clean set of books. Increasingly, companies demand the same of their business partners and suppliers.


Tradução:
Por todo o país, no entanto, tem havido uma rápida expansão de empregos e crédito. Muito dos empregos-a grande maioria deles-são resultados da migração da informalidade para o setor formal: trabalhadores que antes não tinham direitos ou registros agora tornam-se contribuintes com direitos trabalhistas generosos. "A criação de empregos formais está ultrapassando os empregos informais," diz Cristiano Souza, gestor de um fundo de investimentos carioca. "As companhias estão contratando mão-de-obra qualificada e mais produtiva". Um dos fatores do aumento do mercado formal é a fiscalização do governo que atinge os informais e sonegadores. Mas há outros fatores. Qualquer proprietário de companhia que pense em publicizar seu negócio, vender parte ou todo e empreendimento, abrir franquias ou pedir crédito, deve ser capaz de mostrar um conjunto de livros contábeis e fiscais em dia. Em um crescente, companhias exigem de parceiros e fornecedores os mesmos requisitos.

By coming within the law, of course, many businesses have given up a huge competitive advantage of not paying taxes. This has forced them to work harder to achieve productivity gains. “If you talk to companies you see there has been a real change in expectations,” Mr Souza says.
Partly because of Brazil’s history of economic turbulence and recent memories of runaway inflation, companies have always been survivors, quick to adapt to changing circumstances. In the past, they spent much of that energy on maximising financial gains from inflation and other market distortions. Now, after decades of stagnant productivity, they are becoming more efficient and competitive.
With less likelihood of finding themselves unemployed, Brazilians have been able to plan for the future. They have also been able to take out longer-term loans for big-ticket items, especially cars. Changes in the law allowing lenders to foreclose on non-payers have helped a rapid expansion of credit, as have new forms of lending, especially arrangements under which instalments are deducted directly from borrowers’ pay packets – or, commonly, their pensions. A new “positive register” of people with good credit histories will help lending expand further.


T:
Por seguir a lei a risca, é claro, muitos negociantes abandonam "as gigantes vantagens competitivas" de sonegar impostos. Isso os forçou a trabalharem duro pelo ganho de produtividade. "Se você ouvir as companhias, você verá que tem havido uma mudança real nas expectativas", diz o Sr Souza. Por causa da história brasileira de turbulência econômica e as memórias recentes da corrida inflacionária, as companhias se tornaram sobreviventes, rápidas em se adaptar a ambientes instáveis. No passado, elas gastaram grande parte de suas energias maximizando ganhos financeiros inflacionários e outras distorções do mercsdo inflacionário. Agora, depois de décadas de estagnação produtiva, elas se tornam mais competitivas e eficientes. Com menos possibilidade de desemprego, os brasileiros tornaram-se capazes de planejar o futuro. Se tornaram capazzes de contrair financiamentos de longo prazo, para a compra de bens de consumo mais caros, especialmente automóveis. Mudanças na legislação permitiram mais proteção aos credores contra os inadimplentes e expandiu rápido o crédito, bem como novas modalidades de empréstimos, como o crédito consignado na folha de pagamentos ou pensões. Um novo registro positivo de pessoas com histórico de bons pagadores, também contribuirá para esse expansão.

Such advances are even making a dent in Brazil’s notorious income inequality. At the same time, stability has also brought more consistent rates of growth. Between 1990 and 2003, growth was extremely erratic and averaged out at less than 2 per cent a year. Over the past four years, the average has been more than 4 per cent. In the 12 months to the first quarter of this year, it was 5.8 per cent – and this at a time when the US economy has been growing at less than 1 per cent.
In the past it was said that when the US caught a cold, Brazil got pneumonia. “Now the US is in intensive care and we haven’t even sneezed,” says Aloizio Mercadante, a senator for Mr Lula da Silva’s PT (Workers’ party) and one of his economic advisers.


Cada um desses avanços estão fazendo uma cunha na notória desilguadade brasileira. Ao mesmo tempo, estabilidade trouxe taxas consistentes de crescimento. Entre 1990 e 2003, o cresciemnto era inconstante e com média de menos de 02 por cento ao ano. Nos quatro anos passados, a média tem sido mais de 04 por cento. Nos úlimos doze meses até o primeiro quadrimestre desse ano, foi de 5.8%-e nessa mesam época a economia estadunidense tem crescido menos de 1%. No passado, se dizia que se os EEUU gripasse, o Brasil pegava pneumonia. "Agora os EEUU estão na UTI, e nós sequer espirramos", diz Aloizio Mdercadante, um senador do PT de Lula, e um dos seus conselheiros em economia.

The foundations of Brazil’s new prosperity were laid under the Cardoso administration and loudly denounced by the then opposition PT. But, in government, Mr Lula da Silva and his advisers have seen the value, especially to the poor, of low inflation and a stable economy.
A floating exchange rate, primary budget surpluses (before debt payments), inflation-targeting and central bank independence: these form the basis of stability which few question. “There is no longer any room in Brazil for populist adventurers,” Mr Mercadante says.


T:
As fundações da nova prosperidade brasileira foram lançadas sob o mandato de FHC e largamente denunciadas pela oposição petista. Mas, no governo, Sr LULA da Silva e seus conselheiros têm enxergado o valor, especialmente para os pobres, da baixa inflação e estabilidade econômica.
Um câmbio flutuante, superávits primários, metas inflacionárias e independência do Banco Central: essas formam as bases da estabilidade, os quais poucos questionam. "Não há espaços para aventuras populistas no Brasil", diz Mercadante.

His PT and Mr Cardoso’s Social Democratic party may be on opposite sides of what remains of the political divide, but both agree that stability must be preserved.
Even so, Brazil faces some big challenges. When Mr Cardoso’s government took office in 1995, it presented a list of priorities for change. Many of them were enacted. But others – especially reform of the pensions, tax and labour systems – remain to be done. Sérgio Vale, an economist at MB Associados, a São Paulo consultancy, says that Brazil is now reaping the rewards of past reform. “To grow long term, we need to continue with the reforms,” he says.
One of the main problems is that the shape of Brazil’s expensive state sector is still an obstacle to development.


T:
O seu PT e o partido social-democrata de Cardoso estão em lados opostos em questões políticas residuais, mas ambos concordam que a estabilidade deve ser preservada.
Mesmo assim, o Brasil enfrenta alguns grandes desafios. Quando o governo de Cardoso tomou posse em 1995, apresentou uma agenda de reformas prioritárias. Muitas foras realizadas. Mas outras-especialmente a reforma da previdência e das leis trabahistas-restam para serem feitas. Sérgio Vale, um economista da MB Associados, uma consultoria paulista, diz que o Brasil está embolsando as recompensas das reformas passadas. "Para crescer no longo prazo, nós precisamos continuar as reformas," ele diz. Um dos principais problemas é que o tamanho dos gastos públicos no Brasil é um obstáculo para o desenvolvimento.

The cost of maintaining over-generous pension and other provisions for the middle class means that Brazil is still heavily indebted and has some of the highest interest rates in the world. Even though external debt has been virtually eliminated, net public debt in domestic currency is officially equal to 41 per cent of gross domestic product, a rate much higher than that of many of Brazil’s peers. Fiscally pressed, the government still invests too little in roads, energy and ports.

T:
O custo da manutenção da previdência e outros insumos para a classe média significa que o Brasil é ainda pesadamente devedor e tem uma das taxas de juros mais altas do mundo. Muito embora a dívida externa tenha sido virtualmente equacionada, a dívida pública é, oficialmente, 41% do PIB, uma taxa muito mais alta do que os países equivalentes ao Brasil. Pressionado fiscalmente, o governo investe pouco em estradas, energia e portos.

The country’s soya exports – more than a third of those traded in the world – often travel thousands of miles from farm to port by lorry along potholed highways, at great cost to competitiveness. The threat of electricity rationing, last introduced in 2001-2002, looms on the horizon.
Yet many fear that the government – and even a future PSDB government, should one be elected – has little stomach for the political cost of carrying out the necessary changes. “To do reforms you have to burn up your own political capital,” says Mr Cardoso. “But the gains come only over time.”


T:
A exportação nacional de soja-mais que um terço de toda comercializada no mundo-geralmente viaja milhares de milhas do campo ao porto, em estradas esburacadas, com alto custo para sua competitividade. A ameaça de racionamento de energia elétrica, mostrada em 2001-2002, pemanece no horizonte.
Muitos já temem que o governo -e mesmo um futuro governo do PSDB, que pode ser eleito- tem pouco estômago para carregar o custo político dessa reformas necessárias. "Para fazer reformas você tem que queimar seu capital político" diz Sr Cardoso. "Mas os ganhos vêm apenas com o tempo".

Partly as a result, the reform agenda is subtly shifting, away from what Mr Cardoso calls “hard” issues such as pensions to “soft” ones such as education and security.
Yet the last thing Brazil can afford now is complacency. There are already signs that its macroeconomic stability is coming under threat. After years of surpluses, Brazil has recently developed a current account deficit, likely to reach $21bn by the end of this year. For the time being this is being more than covered by foreign direct investment, although the speed with which the deficit has emerged is causing concern. At the same time, inflation is creeping up and may end the year at as much as 6.5 per cent, two points above the centre of the government’s target range.


Como resultado, particularmente, a agenda da reforma está subitamente trocando, do que Sr Cardoso chama de "conteúdos radicais" como previdência, para temas suaves como educação e segurança. O que o Brasil não precisa agora é esmorecer. Depois de anos de superávit, o Brasil recentemente desenvolveu um déficit de contas correntes (a conta de tudo que entra e sai no país) que se aproxima de U$21 bi no final desse ano. Com o passar do tempo sendo assim muito disso será coberto por investimentos externos, embora a velocidade do surgimento desse déficit que preocupe. Ao mesmo tempo, inflação está crescendo e pode chegar ao fim do ano em 6.5%, dois pontos acima do centro da meta (4.5%).

In spite of such worries, Brazil’s advances were rewarded this year with investment-grade ratings from Standard & Poor’s and Fitch, two of the world’s main ratings agencies. Such recognition, many both inside and outside the government feel, was long overdue. But such a view suggests that Brazil has laid the foundations of growth and that all it need do now is to avoid going backwards.
Yet some of the foundation stones of faster, sustainable growth, which is well within Brazil’s potential, are still lacking. Leaving them out of place will risk stagnation – something Brazil well deserves to be rid off.
Brazilians, who could so easily enjoy European standards of living, will go on putting up with second best.


A despeito das preocupações, os avanços brasileiros foram recompensados com o investiment-grade da Standard´s Poor´s and Fitch, duas das princiapais agências ranqueadoras. Esse reconhecimento, muito em ambos lados, de dentro e fora da base governista, já está garantido. Portanto, cada olhar sugere que o Brasil plantou as base para o crescimento, e tudo o que precisa é evitar retrocessos. Já que alguns dos pilares do deselvolvimento sustentado, os quais estão potencialmente no Brasil, ainda faltam. Abandonar esses pilares é correr risco da estagnação-algo que o Brasil deseja estar livre. Brasileiros que adoram o modo de vida europeu, podem permanecer sempre na expectativa.


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