sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Curto-circuito...

Lúcia tinha 43 anos, e o tempo não havia sido generoso com ela...
Carregava no corpo e na cara o ônus de exercer "a profissão mais antiga do mundo", e talvez por isso, como uma maldição, o envelhecimento das putas é sempre mais rápido, como se carregassem pela vida o peso da "tradição" de serem "lixeiras" dos sentimentos mais controversos e íntimos da humanidade...

Às vezes imaginava que tinha nascido uma puta...Não sabia bem definir como se tornara uma profissional do sexo...A bem da verdade, esse "esquecimento" era uma forma de se absolver e tornar sua existência uma obra irreversível da fatalidade: uma sina, um destino contra o qual nada seria capaz de afastar...

Algumas meninas encontravam "redenção" em casamentos, ou estudavam e mudavam de profissão...Ela não acreditava nisso por duas razões que professava:
Se tornam professoras, advogadas, jornalistas, mas sempre que descobrem sua origem o castelo de areia sucumbe ao vento da hipocrisia...Clientes não gostam da idéia que mulheres que compartilharam os momentos mais sinceros de suas podres existências possam habitar o "seu mundo"...Isso é um poder que eles não admitem delegar a professoras putas, advogadas putas ou jornalistas putas...
Já esposas, para Lúcia, são prostitutas de um homem só, e pior: se tornavam mais submissas e mais "baratas" que as mulheres da vida...presas na maior armadilha que ameaça as fêmeas, o amor...

Não se sabe bem como surgiu o apelido, ou o motivo...Se pela "voracidade" sexual que dedicava aos clientes, que "sugava" suas almas, ou se pelo riso diabólico...O certo é que alguém falou, e o "nome de guerra" ficou marcado como se feito a ferro e fogo: Lúcia Lúcifer...

Pode ser que sua definição de bem e mal tivesse se "aperfeiçoado" a partir dessa "batismo"...
Lúcia Lúcifer acreditava em deus e diabo...E costumava dizer que preferia o diabo, pois esse não escondia seus desígnios e planos em mistérios da fé...Era um escroto e pronto...

Nesse dia, não sabe porque fitava sua imagem no espelho, e não se reconhecia...Havia uma lacuna que nunca tinha percebido, ou melhor, nunca tinha incomodado tanto...

-Engraçado... Pensava...Afinal putas tinham também suas crises existenciais...
Aquilo a incomodova, e temia que esse "sentimento" afetasse seu desempenho...Puta não tem o direito de parecer triste...Essa tristeza é empurrada cada vez mais fundo, a cada estocada que levava de seus clientes...Assim eram os sentimentos das putas...Socados e compactados pelos cacetes e outros brinquedos dos clientes...

Do nada, sem explicação decidiu: ia ter um filho...Sempre rejeitara a idéia de gerar outra vida...Um filho(a) da puta, assim seria chamado seu filho ou filha...Era uma marca que sempre lhe assustara, muito embora sua mãe fosse uma vagabunda, mas não uma profissional...

Planejou a concepção: contrataria os serviços de um profissional...Essa era a única forma que conhecia de relacionamento que pudesse admitir como "honesto" para um evento desse tipo...
Não aceitaria um relacionamento "normal", até porque conhecera o amor, mas não tinha sido beneficiada com o "luxo" de praticá-lo...

Pagou e recebeu o que queria...E melhor...O homem escolhido nada sabia, e portanto, não havia risco de cobranças sentimentais futuras, intromissões ou conflitos...

Nada disse a nenhuma das "colegas"...E só o avanço da gravidez denunciou sua decisão...
Era "paparicada" por todas as outras da "casa"...Não sabia se por apreço, ou pela diminuição da sua atividade que permitia ganhos maiores as concorrentes...

A maioria dos homens não trepava com grávidas...Por irônico que fosse, ela parecia para seus clientes um santuário...Como se o fato de estar prenhe lhe vestisse com um manto de castidade e respeito...Quanta hipocrisia...

Mas no fundo gostava daquele tratamento...Era o mais próximo que experimentava do respeito...

No dia do parto sentiu, como todas as mulheres, a força estupradora do nascimento...Era uma violação inédita para ela...De dentro para fora, como se ali, naquela hora ela cuspisse junto com o menino, todos os sentimentos que foram empurrados pelas "estacas" que entraram nela...

Isso, ela pensava, lhe trazia um prazer maluco que aplacava aquelas dores terríveis...Sofria quase em silêncio, jogada naquela maca, enquanto esperava sangrando o atendimento médico destinado aos pobres...

No seu caso ainda havia um agravante...Era uma puta...E alguns médicos, antigos clientes, sequer lhe dedicavam qualquer distinção...Os escrotos, ela pensava, a deixavam ali jogada como uma punição por terem deitado com ela, e pago por isso...

Ao final de 14 horas um desespero lhe invadiu, e na defesa daquilo que talvez tenha sido a única escolha que tenha feito na vida, começou a xingar e vociferar com soluços de dor, e risos satânicos contra todos os médicos-clientes...e também as enfermeiras lésbicas, e outras que se juntavam aos médicos nas orgias que testemunhara...

Aqueles gritos se espalhavam pela maternidade com aquele eco próprio do silêncio constrangedor de hospitais...

Logo, logo, para calar sua boca lhe atenderam...

Mas era tarde, e Lúca Lúcifer e seu filho, um menino, morreram juntos...
Pouco antes de morrer Lúcia mais uma vez blasfemou, e disse a todos que estavam na sala de parto:

Deus é um filho da puta...Por isso nos condenou a não dar à luz...Putas, no máximo, têm curto-circuito...

3 comentários:

Aloisio Di Donato disse...

PUTA QUE PARIU
nesse voce se superou
adorei
nada mais teria em meu dicionario ou livros de sinonimos e antonimos, ou possiveis escrituras, que desse siguinificado melhor que isso
Se texto é do CARA......

Xacal disse...

grato aloisio...

Cacau Fênix disse...

Caramba. Não sei o que dizer. É ao mesmo tempo simples e complexo. Lindo e sujo. "Vi" não só a cara de Lúcia, como senti sua dor e ri com seus pensamentos de alma simples. Amei!