quarta-feira, 27 de agosto de 2008

A terceira morte...

Lourdes fora assim batizada como sinal da devoção de sua mãe, fiel ao catolicismo e acima de tudo, a Nossa Senhora...

A fé, a religião, os ritos, enfim, toda a cultura da Igreja sempre estiveram presentes em sua vivência desde a mais tenra idade...

Primeira comunhão, missa aos domingos, novenas, quaresma, etc...Cria em Deus com todas as suas forças, e sequer imaginava os labirintos e dúvidas que enfrentaria...

Na adolescência, sua vida social limitava-se aos eventos religiosos, e umas poucas distrações rigorosamente prescritos e aprovados pelos preceitos da moral cristã...

Os pulsares hormonais que transformavam sua inocência em desejo eram aplacados com muita confissão e orações...A vida com o sexo oposto obedecia uma regra que preconizava a necessidade bíblica de povoar o mundo com novos fiéis, e só...Essa era a melhor forma de amar e honrar o esposo...Amar primeiro a Deus e seus mandamentos...

Foi educada em colégio de freira...A distância dos pais, do bairro e da família povoaram sua cabeça de dúvidas...Antes, o amor da mãe e do pai, o acolhimento dos seus preenchiam seus espaços e questionamentos...

Naquele ambiente, de rigor sem afeto, de regras e muitas outras dúvidas e ressentimentos das outras meninas, sua visão de mundo se distorcia e parecia turva...Orações, penitências não faziam tanto efeito como antes...

O incêndio se alastrou quando conheceu Clarice...Um turbilhão de sentimentos sacodia sua alma, e tinha certeza: tratava-se do diabo...ou será que deus colocava Clarice em seu caminho como tormento e uma provação a mais para testar sua obediência e amor...?

Desde cedo o amor e afeto eram sentimentos associados a obediência absoluta...Dúvidas eram sinal de fraqueza, pois a verdadeira fé não permite vacilos... Clarice simbolizava todos seus temores...Ela fora violentada pelo primo mais velho, e na crença dos seus pais de que ela deveria ter alguma responsabilidade por atrair a bestialidade, colocaram-na no internato...

Assim aplacavam sua culpa e a vergonha...Clarice não tinha nenhuma dúvida, ou ao menos não agia como se tivesse...Sua rebeldia e raiva pelo mundo, pelo encadear dos acontecimentos coincidiam com sua certeza de que deus era sádico...

Afinal, deixou José em dúvida e concebeu Maria virgem apenas para conferir santidade a seu filho, como rebento da divindade improvável, como um capricho...Milagres são caprichos de deus, dizia Clarice, enquanto tragava e soprava a fumaça entre lábios perturbadores...deus escolhia alguns para provar o que podia fazer, e assim garantia seu quinhão de adoração pela espectativa dos preteridos...

Essas ponderações de Clarice pertubavam Lourdes de um jeito que ela não podia controlar, e nem queria...

Todos aqueles pensamentos chacoalhavam sua cabeça enquanto observava o corpo de Clarice ali, imóvel no féretro ornado com flores, e aquele cheiro insuportável e inconfundível de morte...Todas as meninas do colégio, as freiras, a madre superiora, a família de Clarice...Trocaria todas aquelas existências pela ressureição de sua amada...

Imaginava gritar para todos , e encerrar aquela farsa mórbida...Tudo e todos uma grande mentira, inclusive ela, que prometera a Clarice ingerir o veneno que libertaria as duas para o amor eterno, onde quer que fosse: no céu, ou no fogo do inferno...Diziam para si mesmas que um amor daqueles não poderia ser contra deus...Mas se fosse, e daí...?

Suportariam a morte, fugiriam aos olhares e reprovações que pesariam sobre elas...A vingança de deus não é nada perante a maldade e preconceito dos homens...

Nunca deixariam viver aquela infâmia...
Decidiram então por cabo naquele sofrimento...

Mas Lourdes não teve coragem...Ou teve muita coragem, não se sabe...O fato é que assistiu a morte lânguida e suave de Clarice que esvaía em suspiros quase sexuais...

Ali, agora, ao lado de seu corpo imaginou contar a todos do que tratava, mas recuou novamente, e desta forma matou Clarice mais uma vez...Negou ao seu amor a libertação daquele rito hipócrita, onde nem padre, nem ofício religioso eram permitidos...Clarice era uma suicida, e abdicava do maior bem legado por deus...

Mas se fora dado, por que não fazer o que bem entender com ele...É que deus não dava a vida, dizia Clarice, só emprestava, e tomava de volta no fim...

Restava um pouco de veneno no seu bolso...
Foi até o banheiro, bebeu de uma só vez...Voltou a sala da casa de Clarice...Lourdes estava nua...por dentro e por fora...!
E beijou Clarice...

Estava livre enfim....

4 comentários:

Anônimo disse...

ZÉ BOCUDO ESPIANDO O TELHADO DE VIDRO

Sou tarado em comícios. Acompanho os dois, tanto o Telhado de Vidro, como o da Lapa. No último comício do Telhado de Vidro, lá pelas tantas, a turma da boquinha do ex-pt, disputando um lugar no caminhão do Poposão, teve um candidato que para fazer estilo, começou a meter o sarrafo no Macabro. A seguir, subiu a Neinha do Avião Preto para fazer a defesa do seu patrão. Desencandeando um bate boca. Não se contentando, pediu a dois seguranças seus que dominassem o candidato incauto, para lhe aplicar um corretivo. Só que os dois fortinhos não contavam com a possibilidade do candidato ser um PM. Quando esse sacou um trabuco cromado, começaram um corrida que a essa altura, já ultrapassou a marca dos olímpicos 42 km e já devem estar chegando lá pelas bandas de São Paulo. Assustada, a Neinha procurou se esconder em meio a turma da Boquinha e os Cabideiros.

Zé Bocudo.

Anônimo disse...

Tanta zanga seria por conta do conto do Paco que o Arnaldo aplicou no PT?

Xacal disse...

Não, caro anônimo...

é por ter que conviver com comentários idiotas como o seu...

Anônimo disse...

zangou, por que não te deram a sua parte?