sexta-feira, 10 de outubro de 2008

O processo de metamorfose da planície em pântano...

Há um tempo atrás, me referi a realidade de Campos dos G., e a questão dos servidores ilegais, como uma alegoria do famoso livro de Franz Kafka, O Processo...

Por aqui, a realidade é uma construção baseada na não-realidade, que Kafka antevira, e que chamamos de realidade virtual...Um paradoxo permanente, onde contratados ilegais permanecem como se legais fossem, geram efeitos, influenciam as disputas políticas, e causam transtornos a vida da cidade...

Agora temos o ponto alto dessa realidade virtual...Um candidato a prefeito que mantém-se inelegível, com seus votos anulados, mas que concorrerá ao segundo turno e aprofundará a contradição dessa situação bizarra...Um não-candidato que tem direitos de candidato...

Temos aqui um ponto de intersecção entre duas grandes obras de Kafka...
O Processo e Metamorfose...
Para quem não leu, nessa segunda obra, um personagem se transforma em um inseto, uma barata...Uma metáfora fantástica que narra a relação do personagem perante seus familiares e seu patrão...
Na verdade, a metamorfose nada mais é que a afirmação da sua humanidade asquerosa e repugnante...
Aos poucos, adaptado na forma que assumiu, continua a interagir com o ambiente que o cerca, sempre preso ao corpo de barata, mas impregnado pela sua consciência humana...No entanto, na maioria das vezes, é difícil definir onde termina a barata e começa seu sentimento humano...

Nossa planície se metamorfoseou nisso...um enorme relevo encharcado e atolado na lama, habitado por baratas humanas que se alimentam da podridão e lixo que mesmo produzem, em um círculo de retroalimentação do ambiente, onde as práticas contraditórias e duvidosas assumem o contorno de realidade, como em um Processo...

No pântano nada é o que parece, e assim mesmo, a ambigüidade se impõe como rotina, dita comportamentos, estabelece referências e dita as regras da vida em sociedade...
Infestado de baratas jornalistas que dominam jornais que são, na verdade, panfletos...
Baratas políticas controlam a administração municipal que, na verdade, é o epicentro do descontrole total...
Baratas empresárias que mantém seus negócios privados à custa do parasitismo ao dinheiro público...
Baratas contribuintes que fingem indignação, mas nada fazem para construir uma alternativa a esse cenário pegajoso e insalubre...

Campos dos G. conseguiu...Uniu a obra de Kafka, e levou as últimas conseqüências seu processo de metamorfose...

Alegrai-vos eruditos...Enfim compusemos nossa epopéia para a posteridade... 


Um comentário:

Flávia disse...

Brilhante como sempre, já esperava ansiosa um comentário seu a repugnante decisão e situação de nossa cidade!!