quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Dia do abandono...ou: a segunda morte de Zumbi...

A cada dia 21, todos os meses, a rede blog, uma teia informal, porém não menos orgânica dos blogspaços da planície pântano goitacá, se reúne em torno de um tema...

Começou como dia do Abandono, por sugestão do decano da rede, Vitor Menezes, piloto do blog Urgente!...Geralmente, esses tópicos estão relacionados a situação caótica de algum setor da administração...
Os blogonautas então, apresentam suas análises críticas, diagnósticos e em alguns casos, propostas para dirimir tais problemas...

É o que mais próximo temos de comunidade virtual, e a cada dia(21)reforça os laços do exercício da cidadania...

Esse dia 21 há uma disputa acirrada entre temas, conforme a votação do tema que antecede a definição... 

Mas, seguindo nossa natureza anárquica e insubordinada, característica que torna a blogosfera um espaço democrático, vamos antecipar um dia a discussão e trilhar um assunto alternativo...

Creiam-me, a pequena "transgressão" é por uma nobre causa...

O Dia da Consciência Negra, consagrado aos 20 de novembro, em virtude do aniversário da morte de Zumbi dos Palmares, líder do maior e mais perene quilombo do Brasil, à época da escravatura, foi abandonado em Campos dos G..

Parece cômico, no entanto é trágico que o órgão municipal que tenha atribuição para promover as políticas públicas de combate ao preconceito racial, a desiguladade social e violação de direitos associados a cor da pele, se chame Fundação Municipal Zumbi dos Palmares...Parece provocação, e é...
Vincular tanta inoperância, tanta ausência ou absenteísmo, como queiram, ao nome do mártir maior da causa negra no Brasil não é só abandono, é escárnio...

O preconceito racial, e tudo que decorre dele, tem dimensões nacionais, porém falemos da nossa realidade local, para que não imaginemos ser essa tragédia algo esógeno às nossas instituições...
Qualquer censo penitenciário confirmará, também por aqui, que o detento, condenado ou não, tem cor de pele, idade e classe social: é preto, jovem e pobre, na maioria das vezes analfabeto...

Estenda essa consulta sobre os óbitos provocados por homicídios dolosos (com intenção de matar) e veremos também a cor da pele, a posição social, idade e escolaridade se repetir...Lá estão os "escravos modernos", que amontoados nas senzalas-favelas continuam a prestar seu "tributo" ao nosso Brasil Gigante: suas vidas...

No caminho inverso, são poucos os pretos que ocupam os bancos da universidade, e em algumas profissões como juízes, médicos, engenheiros, etc, é raro ver algum traço que reflita nossa tão decantada "democracia racial"...
Campos dos G. não é diferente...Uma simples olhadela por nossos tribunais, delegacias, hospitais, escritórios de profissionais liberais, bancos de universidade...
Quantos empresários negros você conhece...? Algum dono de jornal, tv, ou rádio...? Banqueiros, existe algum...?
 
Então como explicar tanta apatia e abandono...?

Como explicar que o movimento negro nessa cidade esteja tão domesticado como um "negro de casa-grande"...?

Dias desses li um artigo de uma jornalista que protestava, em um ótimo blog local(senão me engano, www.aguentamos.blogspot.com) pois havia feito contato com a Fundação Zumbi, e lá não havia nenhuma programação oficial...
Fiquei assustado...
Desde quando movimentos sociais se pautam por calendários oficiais...?
Desde quando as relações dos movimentos sociais e governo se tornou promíscua, regada a generosos recursos dos royalties...
O pior, é que no caso do movimento negro, bastou algumas "contas coloridas e espelhos", pois até na hora de "distribuir" os "milhões de argumentos" que anestesiam corações e mentes, os governos fazem suas opções raciais...

A incorporação dos movimentos sociais (sindicais, de gênero, etc) pelos governos gera sempre efeitos positivos e negativos...Se por um lado há uma maior visibilidade, e a fixação de uma agenda social que trate desses temas, por outro lado, há sempre o risco do aparelhamento e "adormecimento" das tensões do movimento que, em geral, lhes dão vitalidade e essência...

Em Campos dos G. "queimamos todas as etapas"...Antes de contarmos com um movimento digno desse nome, já o colocamos na "coleira"...! 

Não que se busque o mito "do heroísmo" e do preto "revolucionário" em cada esquina...Há, como em todos os segmentos, nuances que se acumulam desde os tempos da escravidão...
Não esqueçamos que, na África, pretos caçavam pretos para alimentar nosso mercado...
Uma vez em solo brasileiro, uma parte dos ex-escravos acumulou dinheiro para contar com seus próprios pretos cativos, outros tantos cumpriam o papel de capitão-do-mato...

Exemplos de cooptação e "domesticação" existem em todas as relações de dominação, e não é exclusivo a questão negra...

Mas em Campos dos G. reinventamos o termo preconceituoso: "preto de alma branca", aqui nossos pretos da Fundação Zumbi parecem pretos "sem alma"...

Um comentário:

Luizz Ribeiro disse...

Xacal,nos anos 60 preto só entrava como sócio do Saldanha se tivesse um "Dr." na frente do nome.Disseram isso pro meu pai (que era negro,porém médico- veterinário,então foi convidado),que como não-campista,estranhava a sociedade campista que era tremendamente conservadora e discriminatória e declinou do convite.
Só a educação e oportunidades reais podem impulsionar os jovens afro-descendentes para que não sejam massa de manobra e façam seu próprio destino. Creio que metade dos problemas do Brasil estariam sendo resolvidos. Se somos morenos, pretos,pardos,roxos,mulatos e tais,não importa:devemos ser avaliados pelo nosso caráter,não pela quantidade de melanina.