domingo, 30 de novembro de 2008

O "preço" das cidades...

Dias desses, assistia a um programa no canal Futura sobre as cidades...

Nesses tempos de catátrofes de todo o tipo, desde as "morais" até as físicas-metereológicas, esse assunto atacou meus dois solitários e decrépitos neurônios, rasta e fari...

É muito comum ouvirmos que grande parte dos problemas que enfrentamos com as chuvas de verão é a nossa topografia plana...A impermeabilização do solo (asfalto)...A ocupação desordenada do espaço urbano...
Também é freqüente ouvirmos que certas providências custam muito caro, e são impossíveis de serem implementadas devido às restrições orlamentárias e fiscais dos municípios...

Aprendemos, ou pelo menos deveríamos, que há variáveis que nós, através das nossas intervenções, podemos controlar e outras não...

A história da humanidade nos mostra: sempre existem novas situações (climáticas, por exemplo) que provocam nossa observação e a formulação de tecnologias para minorar prejuízos...Podemos separar, de forma simplista, que as sociedades que se tornaram econômica, social e politicamente mais densas, foram aquelas que superaram essas etapas, e partiram para novos desafios, ou seja, não repetiram erros...

Nossa cidade padece de uma endêmica incompetência para lidar com seus problemas, de toda ordem...Até hoje nos debatemos contra as cheias que nos assolam há séculos...Continuamos a enfrentar esses ciclos com os mesmos erros: ocupação desordenada, assoreamento dos rios, etc, etc, e nenhuma teconologia eficaz...Nem o dique, uma solução "antiga" conseguimos manter de pé...

Junto com essa repetida vocação para tragédia, está outro senso comum...
Voltemos a questão do "custo" das cidades e das medidas de proteção de seus cidadãos...

No programa de TV mencionado lá em cima houve uma entrevista com um urbanista que chamou a atenção...
O especialista fez um breve histórico do surgimento da cidade...
Nos juntamos em cidades para garantir nosso bem estar e segurança (lato sensu)...
Com o tempo, essa idéia foi subvertida por teses que refletem os interesses dos grupos que disputam o controle da cidade...

As teses neoliberais, tão em voga recentemente, e ainda defendida por alguns, diz que certas intervenções públicas devem ser evitadas, para garantir a saúde fiscal do município...O urbanista entrevistado, o qual não me recordo o nome, se opõe a tal premissa...

Ele pergunta com propriedade: qual é o preço de nosso bem estar...? e não foi para ter bem estar que nos reunimos em cidades e pagamos impostos...?

Lógico que ele não prega o desperdício do dinheiro público...Aliás, essa é uma falácia preconizada e repetida como mantra pelos urbanistas patrimonialistas (ou, os sacerdotes da coisificação)...Soluções que beneficiem a maioria são rotuladas como caras demais, e assim se perpetuam práticas e condutas que mantêm privilégios de poucos, e com custo final sempre maior, muito maior...a diferença é que nesse caso, o dinheiro, e os benefícios permanecem nas mãos de poucos em detrimento de muitos...São justamente os que mais falam em rigor fiscal, os que mais "desperdiçam" nosso dinheiro para manter seus esquemas políticos de sustentação, e toda sorte de interesses escusos...

Um metrô é caro...Sim, é caro...Mas quanto custa ter que aumentar a cada cinco anos as ruas, fazer pontes e viadutos...?qual o custo ambiental de milhares de carros...?quantos hospitais, resgates, policiais, etc, etc, teremos que contratar para organizar um trânsito baseado em transporte privado(carro)...?quantas vidas...?qual o preço delas...?

Estudar, pesquisar e implementar técnicas de controle e diminuição dos impactos das chuvas sobre a cidade são caras...? Sim, são caras...Mas eu creio que os "estados de emergência", que são decretados todos os anos, são muito mais caros, corruptos e ineficientes...

Não se trata apenas de quanto dinheiro se gasta...o importante é por que, para quem e como se gasta o recurso de todos nós...

No final, tudo tem um "preço", resta saber qual o preço que estamos dispostos a pagar...o preço do bem estar da coletividade, ou o preço das relações precárias, obsoletas e privatistas...

3 comentários:

Ana Paula Motta disse...

Xacal, o curioso é que quando interessa o tamanho dos estado na economia é grande demais (vide investimento em estrutura básica,saúde,educação, previdência) ou o governo (nas três esferas) "pode e deve ajudar com incentivos fiscais" indecentes que beneficiam meia dúzia de grandes e poderosas empresas e geram uma "porcariinha" de empregos para os municípios. Quando interessa aí estão os governos a socorrer os bancos, as montadoras...

claudiokezen disse...

Caro Xacal:

Políticas públicas de uso ordenado do solo urbano se coadunam com gente preparada para pensar, planejar e executar medidas muitas vezes impopulares, mas principalmente profiláticas em relação ao comércio puro e simples do solo praticado por "empresários" e construtoras.

Outra questão, a da infra-estrutura urbana também requer o aglutinamento por parte do poder público de equipes multidisciplinares de profissionais em torno de um macro projeto que pense, planeje, ordene e fiscalize investimentos públicos na urbe.

A falta destas políticas públicas fundamentais para a qualidade do espaço público no Brasil, pasme, nos coloca em posição de inferioridade até entre a maioria dos países sul americanos.

Países como Colômbia, Venezuela, Ecuador, Peru, Argentina, Uruguai, Chile, e até mesmo Bolívia e Paraguai tem, de uma maneira geral, cidades mais ordenadas e menos danificadas pelo processo de especulação imobiliária que desde a ditadura militar assolou o Brasil.

UM abraço.

Marcos Valério disse...

Concordo plenamente com ambos colegas blogeiros, e ainda digo mais, até quando o poder público municipal vai assistir à população de Ururaí passar por estes desastres, e não tomar nenhuma providencia no sentido de resolver DEFINITIVAMENTE o problema. É muito"duro"assistir todos os seus pertences, adquiridos com muito sacrifício se perderem pela ação das aguas. Existe solução!