sábado, 6 de dezembro de 2008

Da série contos da TROlha...

O meio, a mensagem e o preço...

Lúcio contava 36 anos...Seu nascimento inaugura o espetáculo da tragédia que seria sua vida...naquele dia, os médicos salvaram filho, mas não impediram a extinção da matriz...

Logo após seu nascimento, foi entregue a uma tia distante, que menos por pena, menos por obrigação, mais por simples oportunismo, assumiu a tarefa de criá-lo, uma vez que seu pai o rejeitou...Não havia sentido alimentar e ver crescer a lembrança da morte da mulher que tanto amara...
Para uma tia solteirona não seria um investimento ruim...em breve contaria com um braço masculino para lhe servir, e quem sabe algo mais...

Lúcio não guardava nenhuma memória de seu pai...E nunca encontrara ninguém para suprir tal falta...A tia que lhe criou até os 17 anos, como sabemos, era uma solteirona, e tinha uma forma estranha de demonstrar seu afeto...Ora espancava-o quando se furtava a cumprir suas tarefas domésticas, ora perdia horas intermináveis a lavá-lo durante o banho...

Quando reuniu compreensão dos fatos, e forças para enfrentá-los, Lúcio fugiu de casa...Não sem antes deixar seu "agradecimento" a dedicação de sua tia...Sufocada enquanto dormia...Foi a primeira vez que Lúcio teve "prazer" com o contato corporal com aquela pústula humana...Mas ainda não sentira o sopro divino que experimentaria, bem depois...

Nas ruas aprendeu a sobreviver, mas nunca perdeu a perspectiva de sair do relento...Sonhava com uma vida sem improviso, embora a imagem mais próxima que formulava da estabilidade fosse as novelas da tv...

Em pouco tempo, soube aproveitar a oportunidade de "reintegração" oferecida pelas ongs das madames e barbies que viviam a cata de algum perdido para salvar, e em certas ocasiões , salvarem suas carências sexuais também...Tudo bem, já aprendera na tv, e na vida, que não há almoço grátis...

Retomou os estudos, conseguiu emprego, retomou seus planos de encontrar a "normalidade" que idealizava...

Aos 32 anos era jornalista formado, com colocação estável em um grande jornal da cidade...Um bom salário, desde que se conformasse a enxergar os limites da liberdade de imprensa...ou seja, a liberdade "de empresa"...

Agora aos 36, na véspera de seu aniversário, ainda solteiro, sem filhos e nenhum amigo...apenas conhecidos protocolares: vizinhos, colegas de trabalho, o porteiro, e toda sorte de pessoas "impessoais" que existem, mas temos a impressão de que nunca farão qualquer diferença...
Um dia antes de completar mais um ano, e ele ali, deitado naquela cama de hospital, para onde fora levado às pressas, depois de um mal súbito, com dores abdominais horríveis, calafrios e uma gama de sintomas tão dolorosos que nem podia distinguí-los para relatar a quem o socorria...Como se revirassem sua entranhas...

Logo chega o médico, com aquela roupa branca, com aquela aura de estar acima do bem e do mal, e além da morte...
Felizmente, esse não era chegados a rodeios, e lhe disse de chofre: estava com um tipo raro de cardiopatia, fatal e irreversível...Só um transplante o salvaria, mas com as condições da fila de espera, seria quase certo que Lúcio pereceria antes da cirurgia...

Porém, como tudo em sua vida estava envolto em situações as quais não havia muita lógica, ou quem sabe, uma lógica própria, o médico lhe disse que não era só médico, mas sim um mensageiro...e que antes de lhe contar de quem trazia o recado, que ele ouvisse as condições da proposta que fora incumbido de lhe apresentar...

Haveria um doador: seu pai...que gozava de ótima saúde, condições de compatibilidade, mas o incoveniente: seu pai estava vivo... e pelo cronograma da morte, só um acidente ou outra causa violenta poderia abreviar sua espera...

O médico lhe disse que o remetente da mensagem concordava em altera esse cronograma, sob algumas condições: ele, Lúcio, teria a partir dali sucesso em tudo que desejasse, e viveria mais 64 anos, com plena capacidade e regozijo das suas conquistas...Desde que matasse seu pai, e para tanto, o remetente da mensagem, a qual o médico lhe transmitia no leito hospital, arranjaria para que não houvesse nenhuma implicação legal, ou seja: ele nunca seria acusado de nada...Poderia escolhar o modo de executar sua vítima...Se quisesse, poderia fazer "o serviço" sem nada contar a seu pai...sem uma palavra sequer...Ou como aquelas dos filmes de tv, com suspense, sofrimento atroz, tortura e revelações...

Só mais um detalhe: a alma de ambos passaria a ser propriedade do remetente...

Três dias depois, Lúcio estava a frente da porta da casa de seu pai...Pode ver que era uma bela mansão, com dois carros na garagem, com piscina e todos os confortos e bens da vida moderna...Soube que seu pai ganhara dinheiro com comerciante, e agora possuía uma rede de lanchonetes e restaurantes...

Não importava...

Tocou a campainha...Escolhera o anonimato...Nada falaria...Não havia o que dizer, por mais sedutor que fosse revelar aquela trama toda...

O senhor de cabelos grisalhos fartos, corpo forte e moldado a custa de exercícios físicos e boa alimentação, ainda vestido de pijamas, atendeu a porta...

Deu-lhe três tiros na cabeça, e mais um na nuca para conferir...

Por mais estranho que pareça, foi a primeira e única vez que sentiu a presença de deus em sua vida, como um bálsamo a lhe enxaguar as mágoas...Era o sopro divino que não sentira enquanto sua tia estrebuchava sob o travesseiro...

Apontou para a própria cabeça e atirou mais uma vez...


10 comentários:

Flávia disse...

Nossa...excelente texto!Parabéns mais uma vez,Xacal!Pura realidade, nura e crua.

Xacal disse...

Grato pelos elogios, cara Flávia...

Ana Paula Motta disse...

Não conhecia seu lado ficcionista.Muito bom teu texto,parabéns Xacal.

Xacal disse...

Há outros textos Ana...se tiveres paciência de procurar lá no arquivo:

curto-circuito, revelações, e outros sob o título: da série contos da TRolha...

Obrigado, e um abraço...

Marcos Valério disse...

Também gostei de seu texto, parabéns!

Xacal disse...

obrigado, Marcos...

claudiokezen disse...

Puro suco, Xacal...puro suco...

Xacal disse...

grato, cláudio...

Gláucia disse...

Sou sua fã. Adorei o conto e adoro o blog. A gente lava a alma lendo....

Abraço, Gláucia.

Xacal disse...

mais uma vez obrigado, Gláucia...continue por aqui...