quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

A tragédia anunciada...

O resultado do julgamento do menino abatido à tiros, dentro do carro dirigido por sua mãe, disparados por um policial militar que os confundiu com meliantes em fuga é uma tragédia de vários aspectos, e não cabe aqui, ou em qualquer outra cirscunstância, traçar julgamentos fáceis e alimentados pela histeria da mídia...

Aliás, a falta de serenidade em avaliar incidentes dessa natureza, tem feito a sociedade sofrer duplamente: pela morte em si das pessoas atingidas, e pela incapacidade de enxergar o problema como um todo, e em um círculo vicioso, retomam novas tragédias...

Lógico que a morte de um pequeno petiz é revoltante, e o sentimento dos pais é compreensível...

Agora, "emprestar" indignação dos parentes, quando na verdade somos cúmplices desse clima de pânico é hipocrisia...

Ninguém sequer questionaria a postura dos policiais, se ali estivessem os suspeitos-padrão: jovem do sexo masculino, preto, 19 a 24, semi-analfabeto e morador em comunidades pobres...

O que as pessoas não retrucam, e reduzem seu repúdio apenas a parte do acontecido, é que o garoto foi vítima desse clima de guerra, que instou policiais descontrolados, e em nível de stress acima do aceitável, a atirar antes para perguntar depois...Essa é a cara e o modus operandi da nossa polícia, assim como a perícia técnica na inestigação é sempre substituída por confissões arrancadas em "entrevistas ultra-ativas"(no manual da CIA em Guantánamo, é assim que chamam)...

Nesse contexto há de perguntar:
É possível confundir uma bolsa com artefatos "explosivos" ou esconderijo para armas...? Sim, na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro essa dúvida é muito plausível...
Em uma cidade onde os motoristas se escondem atrás de películas de filme escuro, é possível ao policial realizar uma abordagem segura...?
Com a falta de efetivo e viaturas, é possível que os policiais voluntaristas estejam quase sempre em posição de desvantagem, e sejam levados a cometer execessos, que colocam em risco pessoas(inocentes ou suspeitos)...?

Sim, o que o Júri do Tribunal de Justiça da capital fez, foi reconhecer uma situação de fato...Nossa polícia tem por ofício "eliminar" o inimigo, e não prender suspeitos...São os governadores que se revezam que a todo momento convocam para a: guerra contra o tráfico...
E na guerra, a população civil é sempre um efeito colateral...

A ação cotidiana de um policial é como um músculo condicionado pelo treinamento, associado a sua capacidade de compreensão das conjunturas emergenciais que enfrenta, e por fim, em condições salubres e satisfatórias de remuneração e trabalho...

Nada disso, no entanto, serve como justificativa para tanta barbárie, mas explica boa parte dela...

O sangue do menor, vítima dessa guerra, escorre da mão dos governadores que sempre trataram segurança pública como item das suas agendas eleitorais, e não como questão de Estado...

O que dizer de uma cidade que tem blindados apelidados de "caveirões"...? 

Um comentário:

Xacalia disse...

As vezes, vc é simplesmente fantástico.

bjs