sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Da série: contos da TrOlha...

O lado de dentro do espelho...

A dor de cabeça era insuportável...assim como o cheiro de suor e outras excreções humanas...O confinamento das vozes naquele recinto fechado tornava tudo ainda muito mais sombrio...
Abriu os olhos, e não entendeu nada...Como viera parar ali...? 
Se lembrava de ter ido visitar seu irmão...
Fazia oito anos que não o via, desde que ele fora preso por latrocínio...Depois de assaltar uma lanchonete, seu irmão disparou quatro vezes contra a caixa...

Ele e seu irmão sempre foram muito diferentes, embora fossem gêmeos idênticos...Desde cedo, o mundo parecia um lugar pequeno e monótono para Cosme, enquanto ele, Damião, seguia sua vidinha pacata e rotineira...Sempre aluno dedicado, embora não contasse com a sagacidade e rapidez de raciocínio de Cosme...Um empregado zeloso das suas funções, mesmo que o salário não o incentivasse para tanto...
Damião vivia assim, sem grandes ambições, mas sem grandes frustrações...
Já Cosme era a dor de cabeça de sua mãe, uma viúva que fazia todos os malabarismos possíveis para prover o lar...Ficara sem o marido ainda muito jovem, e não cogitara casar novamente, ainda mais com dois filhos...
Volta e meia, Dona Zilá acabava em Delegacias para "safar" Cosme de alguma "embrulhada"...

Dessa última vez, não houve jeito...Cosme fora condenado a 14 anos, dois meses, e 34 dias de reclusão em regime fechado...

Desde então sua rotina se guiava pelos dias de visita na cadeia...
Sua mãe insistia para que visitasse o irmão, e por ciúmes, raiva, despeito ou tudo junto, não entendia bem como sua mãe se dedicava tanto a uma pessoa tão má como seu irmão...
Nunca fora vistitá-lo, e sua mãe lhe cobrava por isso...Fiel ao seu estilo pacato, não discutia, inventava uma desculpa, e quem sabe...iria na próxima...

Quando sua mãe adoeceu, e já no leito de morte lhe fez jurar que iria visitar o irmão, não teve como negar...

Como não era homem de descumprir a palavra dada, tomou as providências para se cadastrar como visitante no presídio...
Morava em Irajá, e o complexo prisional de Gericinó, em Bangu, nem era tão longe...Mas a viagem de ônibus pareceu uma travessia do Atlântico...Não tivesse pressa, ao contrário...No entanto, queria acabar logo com aquilo...

Abriu os olhos definitivamente, e tentou se sentar...Não conseguiu...A cabeça doía, e pareceia que carregava dez toneladas dentro dela...Mesmo deitado naquele beliche infecto pode ver onde estava...E não acreditou...Estava em uma cela de cadeia...
Seu raciocínio se misturava e fluía como uma enxurrada...Daquelas que acontece quando o valão enche e carrega tudo em volta...Não conseguia se "agarrar" a nenhum pensamento...A impressão que tinha era que se "afogaria" na sua própria imaginação...

Quando conseguiu se levantar e ajustar as idéias no lugar(se é que era possível) realizou o que acontecera...Seu irmão o drogara, o famoso "boa noite, cinderela", e fugira dali, deixando-o preso em seu lugar...

Respirou fundo e tentou se acalmar...Afinal, assim que pudesse, chamaria algum fucnionário e desfazeria essa situação...
Descobriu logo que cada um naquela cela e naquele presídio, provavelmente, tinha uma "estória" mais crível que a sua para contar...Como sempre ouvira: ali, todos são inocentes...

Para sua "sorte", seu irmão como ladrão, gozava de bom conceito dentro da cadeia...Mas isso o livrava de ter que saber por onde e com quem andava...Os territórios, os hábitos e a convivência naquele mundo são bem demarcados...e a punição, por incrível que pareça, parece mais rápida e eficiente do que a Justiça...

Com o passar do tempo, começou a entender como funcionava quele delicado ecossistema...Qual o papel dos agentes, dos outros presos, das visitas, etc, etc...

Estava ali, isolado, sem ninguém do lado de fora por quem chamar...E pensava, pensava, e mais a raiva de seu irmão e de sua mãe aumentava...Tinha ido por ela, e se estrepado por isso...A sua vida pensando bem, podia ser resumida assim, nunca fizera escolhas em seu nome, mas sempre para agradar os outros...Pagava um preço alto por isso agora...
Seu irmão, uma assassino, ladrão, ao menos contava com sua mãe...Ele não contava com nada...

Estabeleceu uma meta para si mesmo...Haveria de sobreviver até que pudesse sair, resolver o "mal-entendido", mas para isso não era necessário sucumbir, ou seja, não poderia se tornar um presidiário...Não cometera crime algum, portanto, era preciso manter essa distinção, ao menos, para sua sanidade...

Logo foi apresentado a uma nova realidade...

Foi chamado por um dos guardas para ter uma conversa com o Diretor...
Enfim, pensava, alguém decidiu corrigir as coisas, ou melhor: descobriram e prenderam seu irmão Cosme, o verdadeiro presidiário...
Não era bem assim...
O Diretor até prometera lhe "ajudar", mas naquele mundo, cada coisa tem um "valor"...Dentro da cadeia, a informação é um dos bens mais preciosos...Por issos, os "cachorrinhos", ou delatores, eram tratados sem misericórdia...

Não tinha nada a perder, e nenhum laço de "solidariedade" que o vinculasse aquela "escória"...
Aceitou vigiar os "colegas de cela", em troca, o Diretor abriria uma sindicância interna para apurar a possível troca de identidades...

Fez a sua parte, e ganhou a liberdade...

Hoje, cumpre 23 anos por homicídio...Dias depois que saiu, conseguiu achar seu irmão, e o matou...!

8 comentários:

Tecnenfermaginando disse...

E ainda dizem q o meio não corrompe.

Ironia.

Anônimo disse...

É A LEI DO TALIÃO

Tecnenfermaginando disse...

Anônimo:
Que lei é esta?

Marcos Valerio disse...

A Selva da vida é essa, as personagens, as estórias e histórias se confundem!

Roberto Torres disse...

Grande Xacal!!! Muito envolvente.... que lei é essa? como disse Tecnenf.... Se ela é do Taliao.. quem esse esse "Taliao" rs? No estilo Franz Kafka, o drama é o de viver tendo nascido sob o dominio de Leis implacáveis, onde, como disse voce, a punicao é bem mais rápida do que a Justica. E onde, tendo sido "eleito" para o sacrifício da Lei implacável, toda tentativa de fuga é programada para o destino de "entrega voluntária" à ordem da Lei. O irmao de Cosme constrói a vida dele toda na oposicao moral à vida delinquente do irmao, mas a "forca do meio" era tao forte que seus sentimentos ambíguos um hora o empurram para o espaco da Lei,onde vive a "escória", os eleitos para o sacrificio da Lei.. O poder dessa narrativa é tao grande, acho eu, devido ao fato dela apreender a dinamica e a logia de destinos coletivos incorporados de modo seletivo em contudas e estilos de vida distintos, mas cujo jogo de oposicao e aproximacao, reproduz o destino de uma classe de pessoas em seguir rumo ao seu "espaco proprio". Ao falar da punicao hiper-eficiente, em oposicao a justica, junto com Kafka, voce ataca a visao comum de que a injustica do Estado deve-em grande parte à sua ineficiencia. Ao contrário dessa visao tacanha e liberal, temos em grande parte a injustica sendo definida pela eficiencia do Estado. Eficiente como a burocracia que segue todos os passos de Josef K.

Xacal disse...

Eu confesso...é minha maior influência...como um plagicombinador, um "diluidor" de conceitos que tento ser, acabo por "copiar" as lições do mestre...

mas é melhor uma boa cópia, a uma péssima idéia original...

um abraço a todos, e obrigado pelos comentários...

Roberto Torres disse...

se for o caso de ter uma boa idéia original, ela vem de tentar copiar o mestres que admiramos...

Anônimo disse...

A lei de talião (do latim Lex Talionis: lex: lei e talis: tal, parelho), também dita pena de talião, consiste na rigorosa reciprocidade do crime e da pena — apropriadamente chamada retaliação. Esta lei é freqüentemente expressa pela máxima olho por olho, dente por dente. É uma das mais antigas leis existentes.