quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

A pedidos...

Vitor Peixoto do outroscampos.blogspot.com/ mandou a sugestão e acatamos...Vamos falar um pouco sobre a negativa de extradição do governo brasileiro do italiano Cesare Battisti...Desde já advertimos para o pouco conhecimento sobre o tema...

Há, nesse assunto, uma série de problemas que foge a superficial abordagem da mídia, como sempre, salvo raríssimas exceções...

Não me prenderei aos argumentos pró e contra extradição...Até porque, nessa seara, o juridiquês sucumbe as tratativas diplomáticas e aos embates geopolíticos...A consideração de um criminoso como perseguido político obedece a lógica da estrutura normativa-política sobre a qual se sustentam esse ou aquele país...Logo, o mesmo homem que pode ser asilado como perseguido político em uma país, pode ser rejeitado como tal em outro...

O que está em jogo é o bom e velho embate ideológico entre direita e esquerda, que muitos sentenciaram com extinto...Outro aspecto importante é a gravação simplificada dos fenômenos políticos antagônicos em rótulos monolíticos e estanques...
Por isso a contradição implícita na cobertura da mídia: ora reforça a imagem de militante da luta armada italiana, ora repercute a tese de que Battisti teria praticado crimes comuns...É a "criminalização" da política, estratégia parecida com a dos reacionários brasileiros de plantão, que tentam a todo custo nivelar a resitência ao regime de 1964 com as atrocidades praticadas em nome da segurança do Estado...

Lógico que não é possível entender a "violência" dos atos "terroristas" italianos sem contextualizar os acontecimentos...Hoje, os anos de distância, simplesmente, transformam a ação de grupos armados em uma alternativa intolerante e dramática para resolver conflitos...Com certeza, haverá os que defendam essa tese...Outros não...É isso que está em jogo...
Tanto faz se Cesar Battisti voltará ou não para a Itália...Não é o seu julgamento que importa...e sim o da esquerda italiana, que até hoje não expiou suas culpas pelo seu passado militante e militar....
Mas penso que há um consenso, mesmo dentre aqueles que condenam os excessos praticados pelos guerrilheiros, onde quer que seja: O Estado não pode rasgar a Lei e os direitos individuais para garantir sua integridade, salvo em raríssimos casos...No entanto, sempre que se recorre a essas "exceções", elas se tornam regras, e banalizam o mal, a tortura e o arbítrio....
Não se pode, portanto, analisar um fenômeno sem pesquisar suas causas, e seus efeitos...
Em cada canto desse mundo, os movimentos armados de esquerda nascem da impossibilidade institucional de interlocução política, respeitadas as especificidades de cada caso nacional...
Estão aí as "feridas" abertas que berslusconi quer curar com band-aid: não dá discutir a esquerda, sem falar nos excessos praticados pelo Estado para tentar destruí-la...
Devido a esse motivo que a Itália não se pode reconciliar...Porque o preço é muito alto para uns, e leve demais para outros: de um lado os mocinhos(aparato repressor estatal), de outro lado os bandidos(militantes da luta armada)...

O "perigo" que a memória desses anos traz para a Itália e para o mundo é clara, ainda mais em uma época de derrocada do ideário neocon, e da vitória progressista em boa parte do mundo(principalmente nos EEUU e América Latina)...
O governo berlusconi tenta a qulaquer custo inviabilizar uma "reintegração" dos setores mais extremos da esquerda, pois eles ainda carregam a "legitimidade" de não terem sido cooptados pelas benesses do entranhamento no status quo...
O Vitor Peixoto no e-mail que nos mandou, falou de boatos que dão conta que berlusconi mandou um recado para Lula, através do Sarkozy, quando esse esteve por aqui: não quer Cesar Battisti de volta...
Então como explicar essa celeuma toda...? Como já dissemos, os interesses verdadeiros estão escondidos sob as escaramuças diplomáticas...
Pode assim berlusconi resolver seu problema, e manter Cesar afastado, um pária...De quebra, cola em Lula, e em um governo de esquerda, a pecha de cúmplice de um criminoso comum travestido de asilado político...

Reafirma assim a necessidade de resgatar os "valores políticos" da luta contra o "terror", quando se recomeça, em todo o mundo, a discutir o mercado, o papel do Estado, e o significado de liberdade e democracia...


Este texto é dedicado ao Vítor Peixoto e toda a rapaziada do outros campos...


4 comentários:

Roberto Torres disse...

Parece que o debate sobre o passado, na tentativa de reconstruir a história julgando seus protagonistas vivos, é uma trincheira decisiva para o novo protagonismo que a esquerda sonha alcancar. O passado como campo de disputa sobre questoes do presente. O "conceito" de "terrorismo", difundido como nenhum outro no terreno da demonizacao do adversário, onde a política se mistura com a guerra, é usado na tentativa de que personagens da esquerda, que entregaram o destino de suas vidas na luta contra o Estado policial, sejam classificados na mesma vala comum que serve para estigmatizar o "mal" que vem do oriente. Ontém a noite, conversando com um amigo do Azerbaijao, comecei a desconfiar que esse "conceito" de terrorismo é realmente muito mais poderoso do que imaginamos, dado que ele atua nao só nas acusacoes e condenacoes oficiais, mas nas preocupacoes e avaliacoes cotidianas envolvendo "gente suspeita". Esse meu amigo, um rapaz de classe média alta de seu país, dizia que, apesar de nao gostar, ele prefere sempre se barbear e ter cabelo curto para nao ser confundido com terrorista. Por mais que ele nao tenha de fato nenhum medo de ser confundido com um criminoso, e nao há razoes para isso, ele parece expressar que, junto com o seu sentido bélico-político, ser confundido com um terrorista significa ter tracoes de um tipo de gente indesejável, mau vista.Nao por acaso esse meu amigo é o tipo de que politicamente "condena todos os extremismos", ou seja, qualquer tomada de posicao que contrarie as exigencias do dia..

Vitor Peixoto disse...

Questões intrigantes essas!

O que me deixou muito preocupado foi uma interpretação do Walter Maierovitch, que se referia ao desconforto que o Governo terá, a partir da não extradição, em prosseguir (?!) com o movimento de responsabilização dos torturadores do regime de 64.
Essa ligação me suscitou muitas dúvidas.

Grande abraço,


Vitor Peixoto

Anônimo disse...

EXTRADIÇÃO JÁ
fora com qualquer vagabundo terrorista

Xacal disse...

prefiro e extradição dos vagabundos idiotas e mentecaptos...