sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Gestão escolar...para reacender o debate...

Recentemente, a blogosfera experimentou, ainda que forma embrionária, o debate sobre o sistema de ciclos ou regime seriado, para progressão dos alunos em sua vida escolar...

A necessidade permanente dessa discussão foi incrementada pelo discurso, ainda que vago e sem conteúdo teórico digno de registro, da secretária municipal de educação...

Hoje, ao ler a revista Carta Capital deparei-me com um ótimo texto sobre a questão, e compartilho com vocês:

Reprovar não resolve

12/02/2009 11:06:08

Rodrigo Martins

Sorridente, calmo e comunicativo, Ítalo Gomes de Jesus, de 14 anos, é considerado um aluno obediente e esforçado, sempre disposto a acompanhar com atenção as aulas da Escola Municipal Oliveira Viana, no Jardim Ângela, zona sul de São Paulo. Apesar do empenho, ele só conseguiu se alfabetizar no fim do ano passado, após passar por aulas de reforço. Ainda assim apresenta dificuldade para formar palavras com sílabas de pronúncia semelhante. “Gosto muito da escola, mas essas letras são confusas”, justifica-se o garoto, que de tão franzino aparenta ter menos de 10 anos. 

Diante do problema de aprendizagem, Ítalo ficou retido por dois anos antes de avançar à segunda etapa da educação fundamental (do 5º ao 9º ano, antiga 8ª série). Na sala de aula, hoje, convive com estudantes dois anos mais jovens. Mas, se estivesse matriculado numa escola do sistema seriado, com avaliações anuais, certamente estaria mais atrasado. Seu nível de alfabetização, comentam os professores, é condizente com o de um aluno do segundo ano do ensino fundamental, e não do sexto. 
Por essa razão, talvez Ítalo estivesse dividindo os bancos escolares atualmente com estudantes de 7 ou 8 anos, metade da sua idade. Ou pior, poderia ter abandonado os estudos. “Conheço bem essa história. Estou há 30 anos nesta escola e já trabalhei no modelo seriado. Depois de ser reprovado pela segunda ou terceira vez, o aluno não volta mais. Provavelmente, o Ítalo jamais seria alfabetizado”, comenta Jucileide Mauger, diretora da escola. 

O progresso do jovem só foi possível porque sua escola aderiu aos ciclos de progressão continuada, criados com o propósito de combater a repetência e a evasão escolar. Pelo sistema, o aluno só pode ser reprovado ao término de cada etapa, que pode variar de dois a quatro anos, dependendo do modelo adotado pela rede de ensino. E muitas escolas, a exemplo da Oliveira Viana, aprovam a passagem de um aluno com deficiência de aprendizagem de um ciclo para outro, de forma a garantir que ele conviva com estudantes de idade semelhante e não fique muito para trás. 

A adoção do sistema não garante um desempenho escolar superior, mas trouxe importantes avanços em termos de inclusão nos lugares onde foi implantado (cerca de 30% das escolas públicas do Brasil adotaram a progressão continuada, segundo o Censo Escolar de 2006, o último a separar os dados dos diferentes modelos). O estado de São Paulo, por exemplo, foi um dos primeiros a aderir aos ciclos, em 1998. De lá para cá, a taxa de abandono no ensino fundamental caiu de 4,6% para 1,4%, o menor índice da história. No ensino médio, a melhora também foi significativa. Em dez anos, a evasão escolar reduziu-se à metade (5,4%). 

A experiência da maior rede pública do País não é um caso isolado. Dados do Ministério da Educação comprovam que as escolas que adotaram os ciclos têm taxas de abandono e reprovação bem inferiores às demais. Mas, apesar dos avanços, o modelo de progressão continuada é alvo de fortes ataques. A cada nova eleição, surgem críticas ferozes ao sistema, apelidado de “aprovação automática”. 

Recentemente, o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PMDB), cumpriu uma promessa de campanha. Extinguiu, por decreto, dois dos três ciclos previstos para a educação fundamental na cidade e encarregou a secretária de Educação, Claudia Costin, de rever o modelo. Os ciclos foram adotados na rede municipal em 2007, na gestão de Cesar Maia (DEM). 

A reação aos ciclos não encontra eco apenas na seara política. Em janeiro, o promotor Fausto Luciano Panicacci obteve na Justiça uma tutela antecipada para impedir a progressão continuada nas escolas públicas de ensino fundamental de Várzea Paulista, um município do interior de São Paulo com cerca de 100 mil habitantes. Por determinação da juíza Flávia Cristina Luders, as escolas municipais e estaduais da cidade foram obrigadas a voltar ao modelo de séries, reprovando os alunos que não comprovarem ter aprendido ao menos 50% do conteúdo de cada disciplina durante o ano, sob pena de multa diária de 10 mil reais por estudante. 

Na ação civil pública, o promotor Panicacci destaca relatos de diretores de escolas públicas que admitiram possuir “alunos concluintes do ensino fundamental com graves deficiências de leitura e escrita e que não absorveram os conhecimentos básicos exigidos”. Mais adiante, ele destaca o trecho de um texto escrito por um aluno da 8ª série de uma das escolas locais: “Estou de convidando para pasar algos dias em minha casa. Para você conhece a cidade e os pontos turístico. Traga sua família para conheser tamen vocês vam figar em minha casa (...)”. 

Diante da argumentação da Promotoria, a juíza Luders pontuou na sentença que é “fácil constatar que a atual política de ensino não tem sido satisfatória e não tem cumprido aquilo que foi idealizado pela Constituinte, quando se pretendeu assegurar o direito à educação”. Em entrevista à CartaCapital, o promotor Panicacci esclareceu que a ação não visa simplesmente a volta do sistema seriado. “Há um consenso entre os educadores de que o sistema de ciclos representa um avanço, por diminuir a evasão escolar e a repetência”, pondera. “Mas, do jeito que está, não traz benefício algum. Só serve para maquiar as estatísticas educacionais. É preciso modificar a estrutura da escola para que os ciclos funcionem, com salas menores, professores mais capacitados, aulas de reforço e acompanhamento individualizado aos alunos”, completa. 

Na mesma direção segue a argumentação da secretária de Educação do Rio. “Pessoalmente, sou favorável aos ciclos. A experiência internacional mostra que a progressão continuada pode ser excelente, tanto que a maioria dos países da Comunidade Europeia adotou o modelo. Mas por aqui eles foram implantados sem discussão com os professores e sem modificar as condições das escolas”, avalia Claudia, ex-secretária de Cultura do Estado de São Paulo. “Criamos um grupo de trabalho para reavaliar esse modelo até o fim do ano. Não pretendemos retroceder, substituir a ‘aprovação automática’ pela ‘reprovação automática’. A escola tem de promover inclusão, mas também tem a função de ensinar.” 

A secretária determinou que todas as 1.062 escolas da rede municipal iniciassem o ano letivo de 2009 com uma ampla revisão nas disciplinas de português e matemática nos primeiros 45 dias. “A ideia é identificar as deficiências de cada aluno para evitar que ele siga sem aprender e venha a ser reprovado no fim do ano”, diz a secretária. “É justamente isso que hoje falta aos ciclos de progressão continuada, um acompanhamento mais individualizado dos alunos, com aulas de reforço para grupos reduzidos e avaliação constante.” 

Para muitos educadores, a medida é um tiro no pé. “Não há nenhum estudo ou avaliação que comprove que o desempenho dos alunos do sistema de ciclos é inferior ao do modelo seriado. Mas há dezenas de pesquisas que mostram como a progressão continuada combateu com êxito a cultura da repetência e a evasão escolar”, afirma Sandra Zákia Sousa, professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP). “Historicamente, a reprovação aparece como um mecanismo de controle disciplinar. Com os ciclos, isso desaparece. O aluno precisa ser motivado. Perceba que o conteúdo não pode ser o mesmo, o professor deve buscar exemplos próximos da realidade dos estudantes. O desafio é maior. Muitos preferem tirar o bode da sala. Se tem dificuldade de aprender, é reprovado. O sistema seriado só é mais excludente, não garante qualidade de ensino.” 

Um dos poucos estudos dedicados a comparar o desempenho dos alunos dos dois sistemas foi publicado, em dezembro de 2008, pelos pesquisadores Sérgio Werlang, Lígia Vasconcellos e Roberta Biondi, do Banco Itaú, e por Naércio Menezes Filho, da USP e do Ibmec. Ao comparar as médias de 23 mil escolas estaduais na Prova Brasil, exame que avalia os alunos da rede pública de ensino fundamental, eles constataram uma ligeira vantagem para o sistema de ciclos. A diferença variava de 0,9% (na prova de matemática na 8ª série) a 4,4% (na avaliação de língua portuguesa da 4ª série). 

Para saber se o resultado não se devia a outros fatores, os pesquisadores incluíram variáveis socioeconômicas na análise, como a renda familiar dos alunos e o grau de escolaridade dos pais. A partir de então, a balança pendeu para o outro lado. Na 4ª série, as notas dos estudantes de escolas seriadas eram 1% superiores, diferença dentro da margem de erro da pesquisa. Entre os alunos concluintes do ensino fundamental, o descompasso foi pouco maior (1,4% em português e 1,8% em matemática). “A conclusão é que a disparidade no desempenho é mínima, se comparada aos avanços na evasão escolar e na economia de recursos para as escolas. A progressão continuada não piora nem melhora a qualidade de ensino”, afirma a economista Lígia Vasconcellos, uma das autoras do estudo. 

Mas, se o sistema de progressão não interfere na qualidade de ensino, o que explica a existência de alunos com 14 anos que mal sabem ler e escrever? Para o educador Miguel Arroyo, professor aposentado da Universidade Federal de Minas Gerais e ex-secretário adjunto de Educação da prefeitura de Belo Horizonte, a calamitosa qualidade do ensino público se deve a fatores como a baixa capacitação dos professores, às salas de aula superlotadas, à estrutura precária das escolas e ao baixo investimento estatal. “A cultura da repetência só tem uma finalidade: selecionar e segregar. Não é à toa que os alunos mais pobres, principalmente os negros, são as maiores vítimas da reprovação”, afirma. 

De acordo com Arroyo, a progressão continuada parte do princípio de que, ao educar, é preciso respeitar os ciclos da vida, como a infância, a pré-adolescência, a adolescência, a juventude. Deve-se, portanto, garantir a todos tempo suficiente para aprender com os colegas da mesma idade. “É absolutamente normal que uma criança possa ter mais ou menos facilidade para aprender um conteúdo. O que não é normal é forçar um adolescente de 14 anos a conviver com uma criança de 6 anos”, afirma o professor. “De que adianta repetir os mesmos conteúdos para ele, da mesma forma como se ensina a uma criança, se ele está em outra fase da vida? Isso seria tão absurdo como dar a mesma dosagem de um determinado medicamento a um adulto e a um bebê.” 

Arroyo é um dos idealizadores da Escola Plural, uma inovadora proposta pedagógica apresentada, em 1994, pela Secretaria Municipal de Educação da capital mineira. O programa modifica a organização do trabalho escolar, propõe o rompimento com os processos tradicionais de ensino baseados na concepção cumulativa e de transmissão de conhecimentos e elimina os instrumentos de reprovação escolar. 

“Isso não significa que estamos aprovando automaticamente uma criança. Para o sistema funcionar, a avaliação é constante. Devemos mudar a forma de lecionar e encarar o aluno”, alerta o educador. “Um menino pobre não tem a mesma leitura de mundo de um menino rico. Um garoto que mora na favela pode ter uma noção muito mais ampla sobre o que é o desemprego e a desigualdade social do que outro que more num condomínio fechado. E esse conhecimento deve ser valorizado pelo professor”, acrescenta. 

O Ministério da Educação não se posiciona nem a favor nem contra os ciclos, até para evitar rusgas com os estados e municípios, que têm autonomia para definir o próprio modelo. Mas, dentro da administração federal, há grandes defensores da progressão continuada. É o caso da secretária de Educação Básica, Maria do Pilar Lacerda, que participou da implantação do projeto Escola Plural em Belo Horizonte. “Eu já dei aula e peguei muitas vezes turmas com alunos multirrepetentes, que estavam diante do mesmo conteúdo pela quarta vez. Qual é o sentido de obrigar um aluno com problemas de aprendizagem a esse suplício, sabendo que ele poderá abandonar a escola? Isso é tão incoerente como um hospital rejeitar pacientes que não se curam rapidamente ou colocar uma faixa na entrada: ‘Aqui só atendemos pessoas saudáveis’. A escola é um direito de todos, e não só dos melhores alunos.” 

Segundo a secretária, um dos maiores desafios da escola, hoje, independentemente do sistema de progressão adotado, é reformular o currículo, repensar os conteúdos mínimos que todos os alunos devem ter. “O nosso currículo é o mesmo de meados do século XX. A escola repassava esses conhecimentos e os alunos eram obrigados a absorver, como se fossem caixas vazias. Buscava-se, então, a média. De que adianta um estudante decorar todos os afluentes do rio Amazonas se, em sala de aula, ele não é capaz de se localizar, saber onde está o Norte e o Sul? Que tipo de conhecimento é indispensável? Está na hora de voltarmos a discutir essa questão.” 

Maria de Salete Silva, coordenadora do Programa de Educação do Unicef para o Brasil, destaca outro aspecto que está sendo negligenciado: a avaliação. “Não importa se o aluno está numa escola de ciclos ou numa escola seriada, a avaliação deve ser criteriosa e fazer parte do dia-a-dia”, opina. “Tão errado como aprovar automaticamente um aluno é reprová-lo indistintamente. A reprovação não educa. Se educasse, o Brasil estaria entre os países com melhor nível educacional do mundo. A avaliação serve para que o professor possa identificar as dificuldades dos alunos e intervir rapidamente, com aulas de reforço e atividades extraclasse, por exemplo.” 

Nem sempre a preocupação dos professores em avaliar constantemente os alunos e identificar com celeridade os problemas de aprendizagem garante a qualidade de ensino. Na Escola Municipal Oliveira Viana, na periferia da capital paulista, os professores montam verdadeiros dossiês sobre os alunos, relatando os conteúdos apreendidos, as deficiências de aprendizado, o comportamento em sala de aula e mesmo problemas de natureza familiar, como a existência de pais alcoólatras ou de um histórico de violência doméstica. Nem por isso é possível evitar situações como a do jovem Ítalo, relatadas no começo da reportagem, que aos 14 anos ainda confunde as sílabas ao escrever palavras simples, como pipoca. 

“Só temos uma sala de apoio pedagógico equipada para dar aulas de reforço na escola. Dos seis computadores da sala, somente três funcionam”, comenta a professora Célia Aparecida Ribeiro Ornaghi, de 50 anos. “Mas conseguimos grandes avanços. O Ítalo tem dificuldades, mas aprendeu a escrever um pouco. O que aconteceria se ele tivesse abandonado a escola?” 

Com 30 anos de experiência no colégio, a diretora Jucileide Mauger diz ter visto muitos de seus alunos trocarem os bancos escolares pelo crime e o tráfico de drogas. “Há dez anos, quando a violência explodiu na periferia e a ONU elegeu o Jardim Ângela como o bairro mais violento do País, eu tinha de negociar com bandidos a vida de alunos jurados de morte. Alguns estudantes entregavam a arma para mim no início das aulas e a pegavam de volta ao sair do colégio, não podiam ficar desarmados.” 

A volta por cima, diz a diretora, só foi possível quando os educadores e líderes de organizações não-governamentais atuantes na região se uniram para colocar os jovens em ambientes seguros, como a escola, que passou a promover festivais de rap. Mais ou menos nessa mesma época, Jucileide tomou a iniciativa de fazer um censo escolar no bairro e convidar quem havia abandonado a escola a voltar aos estudos. “Tínhamos cinco classes noturnas e passamos a ter quinze.” 
Jucileide tem para contar várias histórias de sucesso, fruto de sua iniciativa. “Não faz muito tempo apareceu um rapaz que eu não via há muito tempo. Ele repetiu as séries iniciais da escola, abandonou os estudos e só voltou depois que fizemos aquele censo no bairro. Hoje é chefe de uma empresa de segurança. E veio todo contente me contar que vai iniciar o curso de Direito na faculdade”, conta a educadora, sem esconder o sorriso.
 

 

6 comentários:

Anônimo disse...

hum...
hum...
hum...
hum...
hum...
hum...
Quanta inutilidade.....

Professora Hilda Helena disse...

Eu acho esse discurso meio complicado pois o curso que capacita nossos professores para atuarem na Escola Básica deixa muito à desejar.Os cursos de Formação de Professores estão longe dos que temos nos CEFETs, infelizmente encontramos muitos que são professores assumem turma e estão longe de fazer o sistema funcionar!!!

Ainda pouco estava lendo um artigo
Prof. Ms Neri P. Carneiro (Filósofo, Teólogo, Historiador.)Ele disse uma coisa interessante:
"Quem olha, superficialmente, o sistema escolar brasileiro e as políticas que o norteiam, pode cair em equívocos. Isso porque vemos um emaranhado de siglas que direcionam dinheiro e prevêem a participação da comunidade na vida da escola. O equivoco se manifesta porque esses projetos e programas dão a impressão de que o sistema escolar nacional anda na contramão das posturas e propostas internacionais, de caráter neoliberal, que propõem a não interferência do Estado no cotidiano das relações com o capital e direcionar recursos às escolas seria uma interferência; da mesma forma que a participação da comunidade nas decisões sobre a aplicação dos recursos públicos poderia dar a impressão de que se vive num regime socialista. Na realidade, podemos dizer, esse não é o melhor nem o único caminho para entender as políticas públicas nacionais e sua relação com as políticas internacionais.

As políticas públicas podem ser entendidas como um dos mecanismos pelo qual o Estado age. Isso implica dizer que as políticas públicas são o Estado em ação, ou "a materialidade da intervenção do Estado" como sugere Janete de Azevedo (2004, p. 5). Podemos dizer, também, de modo bem simplificado que as várias tendências e posturas educacionais basicamente se filiam a duas correntes: uma se assenta numa base liberal – hoje neoliberal – (aqui não vamos entrar na caracterização do que seja o liberalismo ou o neoliberalismo, apenas afirmamos que o neoliberalismo é o liberalismo revisado, de onde brota a teoria do Estado mínimo), que vem norteando a teorização e a prática educacional brasileira; e outra provinda dos movimentos populares e que se utilizam de um instrumental marxista para a leitura da sociedade e proposição da tendência educacional que o professor Libêneo chamou de progressista. E, a partir dessas duas bases teóricas se desenvolveram as tendências educacionais que norteias as diferentes posturas educacionais.

O problema, em se tratando da educação nacional é que, concordando com C. C. Luckesi, as posturas de caráter marxista não têm condições de se institucionalizar. Isso porque o Estado brasileiro, como aliás o poder institucionalizado, assenta-se sobre a base liberal – e mais exatamente, neoliberal – e, portanto, não tem como assumir-se como marxista e, consequentemente, as políticas públicas do Estado não podem ser marxistas, pois isso produziria uma situação contraditória e inoperante. Uma vez que o Estado é neoliberal suas políticas são neoliberais.

Entretanto, e esse é nosso problema, ou o problema da educação nacional e consequentemente das políticas públicas nacionais, é que muitas das propostas se fundamentam em teóricos que beberam nas fontes das várias teorias pedagógicas que se fundamentam no marxismo e suas pesquisas e proposições caminham a partir daquilo que se chamou de tendência progressista, ou em teorias que não são essencialmente liberais/neoliberais. Além do mais, nossas escolas são, em essência, tradicionais; entretanto as propostas pedagógicas que emanam dos documentos oficiais respiram pala e a partir da ótica libertadora, libertária, transformadora. Esse, inclusive é o discurso de muitos de nossos teóricos da educação e, podemos dizer, de vários documentos oficiais, haja vista a colcha de retalhos que são os PCNs que comentam várias perspectivas, mas assumem-se como construtivistas. Ou seja o discurso oficial, pode até se apresentar com perspectivas transformadoras, mas no momento da prática o sistema permanece tradicional, pois o estado é neoliberal

Esse é, de modo bem simplificado, o drama do nosso sistema educacional: é tradicional, mas sonha em ser transformador; faz um discurso transformador, mas se manifesta com uma prática conservadora. Fala da necessidade de transformações, mas não consegue nem ser produzir pequenas alterações além de ser extremamente burocratizado. Entretanto nosso país não existe sozinho ou isolado. Somos uma nação que se relaciona tanto com organismos internacionais como com outros Estados. Os Estados com os quais o Brasil se relaciona também se assentam no liberalismo/neoliberalismo. As instituições não são diferentes, pautam-se em posturas assistencialistas e não transformadoras – UNESCO, UNICEF, por exemplo, não possuem caráter revolucionário! Disso resulta essa situação anômala que é tanto nosso sistema educacional como as cobranças que nos são feitas: anuncia-se a necessidade de transformações, mas permanecemos arraigados em vícios ou problemas seculares. Tanto isso é verdadeiro que em classificações internacionais os estudantes brasileiros permanecem, ano após ano, nas últimas classificações. Ou seja, somos uma potência agrícola, comercial, e econômica, mas com índices alarmantes de analfabetismo e ineficiência escolar.

Cobra-se, por exemplo, erradicação do analfabetismo. Mas nossas crianças e nossos professores permanecem mergulhados na insuficiência de rendas. Tanto que já se tornou um refrão a afirmação de que criança com fome não aprende e professor sem dinheiro não se atualiza. O discurso oficial prega a qualidade nas práticas pedagógicas, mas as salas de aula permanecem superlotadas e os professores, essencialmente da rede publica, com salários reduzidos fazem turnos dobrados e, obviamente, por estarem super-atarefados ficam sem tempo de se preparar para as atividades em classe e, obviamente, sem meios de fazer cursos de atualização. Isso significa dizer que nossos professores são bons profissionais, mas não tem tempo nem de preparar boas aulas nem de se atualizare.

Diante desse quadro se impõe a indagação: Como o professor pode se preparar adequadamente para lecionar? Como os estudantes que lhe são confiados, podem aprender se, muitos deles, permanecem em situação de fome endêmica? Mas a indagação principal é: frente a esse quadro, podemos dizer que existe real vontade de se produzir educação que leve em conta os interesses dos trabalhadores, contra os privilégios do poder econômico, representado pelo Estado? Também podemos nos indagar a respeito das políticas internacionais. Como elas se relacionam com a educação?

O mundo contemporâneo não é mais aquele produzido pelo Renascimento e Revolução Francesa/Industrial; menos ainda o Mundo Medieval. Embora em contextos diferentes e perspectivas econômicas diversas, esses dois mundos tinham em comum a concepção de sociedade que pode ser vista como manifestação da vida comunitária. Não foram poucos os teóricos que afirmaram o caráter social e político do homem, desde Aristóteles até Rousseau; além disso o mundo moderno se instalou a partir do desenvolvimento dos centros urbanos. O mundo contemporâneo, ou pós-moderno, como por vezes é chamado, entretanto já não tem mais essa característica. Também aqui não são poucos os teóricos a afirmar que uma das características da sociedade contemporânea é o individualismo – lembremo-nos que T. Hobbes já havia afirmado que o homem é o lobo do homem. Sem contar que Nietzsche afirma a maldade inata do ser humano. Esse individualismo é, aliás, uma das bases do liberalismo: ao mesmo tempo em que afirma a liberdade ou autonomia do cidadão, da empresa, do mercado, nega a necessidade de interferência do Estado. Podemos dizer que o mundo atual, baseado no individualismo, se estruturou principalmente durante o século XX.

Nega a interferência do Estado, pelo menos enquanto está ocorrendo lucratividade ou o mercado está se auto regulando. Quando ocorrem as crises ou perda de lucratividade o liberalismo – da mesma forma que o neoliberalismo – pedem socorro ao Estado para evitar prejuízos das grandes empresas e instituições econômicas. Ao longo dos anos podem ser mencionados vários exemplos de crises que foram minimizadas pela interferência do Estado liberal: crise de 1929, crise do petróleo, na década de 1970, e a atual crise em que os Estados estão se desesperando para salvar o sistema financeiro.

Entretanto o avanço e utilização das modernas tecnologias e a vitória definitiva do neoliberalismo sobre todas as experiências socialistas, provocaram algumas alterações nessa relação. Inicialmente, a partir de uma ótica marxista e, portanto, coletivista, afirmava-se o caráter nefasto do individualismo. No mundo pós-moderno cobra-se, não o individualismo, mas a preservação da individualidade. Volta-se a perceber a importância do coletivo, mas com outra configuração: manutenção do individualismo, mas de forma cooperativo. O sistema escolar, na atualidade "exige, uma articulação precisa entre o grupo e o indivíduo. Ser membro ativo de uma equipe implica dispor de algo próprio para contribuir. A excelência individual não é contraditória com o trabalho coletivo" (Tedesco, 2001, p. 97)

O mundo liberal, portanto, permanece defendendo a supremacia do individuo sobre o coletivo, mas, ao mesmo tempo, as reformulações do mercado de trabalho requerem uma reformulação também nas relações interpessoais e trabalhistas, o que implica dizer que foram desenvolvidas novas abordagens ao coletivo. O mercado de trabalho não valoriza mais o individuo enquanto tal, mas o individuo que sabe se relacionar. Por isso uma das capacidades mais requisitadas é a de "trabalhar em equipe"

Tudo isso repercute no mundo escolar: ao mesmo tempo em que o mercado cobra da escola maior preparação do estudante, extingue postos de trabalho, como mostra Eric Hobsbawm. Assim sendo, se por um lado cresce o desemprego, por outro se cobra mais qualificação dos futuros trabalhadores. E do sistema escolar é cobrado que prepare bem os novos profissionais, que, ao saírem do período de formação escolar não encontrarão postos de trabalho à sua espera. Podemos dizer, enfim, que esse é o drama do mundo contemporâneo: desafiado a crescer dentro de um panorama de crise."

Anônimo disse...

Viva! Viva o copiar e colar

Professora Hilda Helena disse...

Não sei se o anônimo das 21:35 é o mesmo das 7:56!!Mas parece que o assunto o pertuba pois não sei o que o leva a sentir-se obrigado a escrever algo e o pior :não debater a postagem escrita!

Se entendi bem o Xacal resolveu compartilhar o texto por ter achado interessante e eu por estar envolvida com a Educação achei interessante reescrever o assunto visto por outro ângulo!!!

Quando leio algo inútil eu não costumo afirmar a sua inutilidade sem mostrar o porque com alguns argumentos ..mas parece que os anônimo acima não sabe fazer!!!

Xacal disse...

minha cara blogueira e professora Hilda, o sorriso mais belo da blogosfera:

não se incomode tanto com esse tipo de canalhota...da próxima, colocamos algumas ilustrações para esses beócios...que sabe assim entendem algo...?

Professora Hilda Helena disse...

Você é demais Xacal....
Rsrsrsrs!!!!