sábado, 21 de fevereiro de 2009

Jornalismo de coleira: algumas considerações...

Hoje, como todos os dias 21 de cada mês, alguns blogs se reúnem sob um mesmo tema e produzem textos, e ou imagens com diversas interpretações desse assunto em comum...

Pela primeira vez a TrOlha, como um dos integrantes dessa rede informal, conseguiu "emplacar" um tema: Jornalismo de coleira e a política goitacá...

É verdade que a mídia em geral, o que chamamos de conglomerados de comunicação, são empresas destinadas ao lucro...Logo, óbvio concluir que os interesses comerciais-financeiros pesem bastante sobre decisões "editoriais"...

Nos parece, no entanto, ingenuidade, atribuir, a um ou outro determinado fator, exclusividade na relação que determina as prioridades de um veículo de comunicação...

Beira a má-fé, tentar estabelecer um "fatalismo econômico" que diz: "é o dinheiro que manda, e pronto...somos todos reféns, ou de anunciantes privados ou das verbas públicas das administrações..."

Outro romantismo ingênuo, ou cinismo velado(talvez um pouco de cada), é atribuir aos profissionais de imprensa(os jornalistas) um condição de resistentes, que tentam a qualquer custo resistir a essa sentença a qual estão condenados: a liberdade "de empresa" sufoca a liberdade de imprensa...

Não...! Nem nos anos mais sombrios das ditaduras mais sangrentas ao redor do mundo houve uma cooptação e adesão tão descarada dos jornalistas, como os de coleira do pântano goitacá...
Nos regimes autoritários, ceder as pressões é muito mais justificável, afinal, ser independente pode custar a vida...Difícil é ser independente em regimes onde prevalece, nunca de forma absoluta, é verdade, a liberdade de expressão...
O jornalista de Campos dos G. não é um caso à parte de todos seus colegas ao redor do mundo...A despeito de todas as possibilidade tecnológicas, a qualidade dos textos e das matérias é sofrível, porque os jornalistas fazem, como seus patrões, suas escolhas: aderir é deixar de ler, de se informar, qustionar quase nunca, e sempre repercutir o que já vem pronto...Essa é a receita para domesticar a sociedade, e nos fornecer o álibi ideológico que aplaque nossas consciências: "Não tem jeito, é assim mesmo, e sempre será...!"

Assim, nas palavras dos jornalistas de coleira diplomados temos um quadro perfeito: as empresas jornalísticas são "vítimas" do arbítrio dos "tiranos" anunciantes(públicos ou privados), e os "pobres" jornalistas, por sua vez, são obrigados a ceder a esta cadeia de coerção irresistível, onde a população leitora que contente: melhor algum jornalismo a jornalismo algum, ou: melhor ficar na coleira que passar fome...Todos são vítimas, e o algoz é sempre o outro...

Pode ser, pode não ser...

Primeiro é bom que se diga: Como li em um texto no blog outroscampos.blogspot.com, um país com quase 200 milhões de habitantes, e que somados seus 300 maiores jornais não contam com mais de 7 milhões de leitores já revela o caráter elitista e de classe da comunicação social brasileira...A informação, boa ou ruim, não se destina a maioria, e sim a um grupo(os famigerados "formadores de opinião"), que na visão conservadora tacanha da mídia local tem o dever de "decodificar" os "sagrados textos" de seus veículos, como forma de perpetuar um esquema de dominação e concentração de riqueza do qual são sócios há mais de dois séculos...
No Brasil apenas cerca de 3.5% da população alcançam uma tecnologia que está em vias de extinção...
Isso é exclusão com todas suas vísceras de fora...sem retoques...Mas não é um processo "natural", uma "combustão espontânea"...São conseqüências de modelos, e a implementação de modelos é sempre volitiva...

Campos dos G. não é diferente, e por aqui também prevalece uma lógica concentradora...As escolhas, e é bom que se alerte os "românticos do cinismo", são autônomas na maioria dos casos...
Empresas decidem como vão ganhar dinheiro...Órgãos de imprensa fizeram as suas: ganhar dinheiro com a multiculturalidade, a diversidade e o acesso democrático a informção de boa qualidade, ou o embotamento e massificação da patuléia, através da repetição dos "mantras" os senso comum, e de histeria coletiva...? Ficaram com a última hipótese...!
Por aqui esse arbítrio se expressa na aposta de um modelo político que privilegie a "domesticação" da mídia, aumentando o "valor agregado" de matérias "favoráveis"...E não se enganem: essa "domesticação" é uma via de mão dupla...
Se é em parte verdade que a notícia é refém do caixa, nos jornais do pântano goitacá, o seqüestrador da "liberdade de imprensa" é o erário, com o incrível volume de recursos despejados nessa região por conta dos royalties...

A imprensa local jogou todas as suas fichas em um modelo de cidade que dependa totalmente dos recursos públicos e da troca de favores entre os envolvidos...A privatização da esfera pública é a tônica nessa cidade...

Não é à toa que tenhamos três jornais e que todos somados não "sejam" um...
São variações de um mesmo problema, e só existem pela completa impossibilidade de "articular" e fundir interesses...Existem "artificialmente", muito menos pelos leitores, e muito mais para demarcar o campo dos interesses dos quais se filiem...
É um fenômeno nosso, que tem contornos específicos, embora apresente traços gerais também...
O jornal considerado "mais autônomo" sobrevive às custas de uma aberração jurídica que o concede "exclusividade" para publicar o Diário Oficial...
Nos outros dois vértices dessa relação triangular, apresentam-se, de uma lado um jornal que sempre escolheu se colocar a disposição de quem detenha a caneta e a chave do cofre...a nossa folha de embrulhar peixe, que só exerce sua "independência" quando as portas do paraíso das verbas públicas estão inacessíveis...
Lógico que é muito mais fácil manipular e distorcer a realidade, criar teses, e depois influenciar para que se comprovem, e assim sustentar o ambiente perfeito para uma relação promíscua...
Isso não é uma fatalidade, repetimos, é uma escolha...
Seria muito mais árduo estar a serviço da fiscalização do uso do dinheiro do contribuinte, para que a sociedade e a região se desenvolvessem de forma sustentável, e que a "prefeiturização" das relações sócio-econômicas fosse reduzida ao mínimo necessário...? Claro que seria...
Mas aí estaria a oportunidade de que houvesse, pelo menos, vários grupos e setores interessados em mediar suas demandas nas empresas jornalísticas, o que de forma transversa, aumentaria a força e a pluralidade dessas "pressões" sobre as redações...Deixariam de ser "putas" de um cafetão só...

Já o grupo O(r)di(n)ário é um caso típico...Uma verdadeira empresa fantasma...Já explico...
Respondam:
Como sobrevive um grupo de comunicação em um ambiente táo árido, e com poucas, ou quase apenas uma fonte de financiamento(o poder público)...?
Ora, ora, porque se trata de uma empresa onde o interesse comercial está totalmente submetido a um projeto pesssoal de poder, e não importa se o "caixa" permaneça deficitário, permanentemente...Ele existe apenas para trombetear as qualidades de um grupo, e a caçada inquisitorial aos inimigos...
Mais uma vez, ao contrário do que pregam "os românticos do cinismo", no ordinário, os jornalistas e os "donos da empresa" não estão "reféns" do caixa...Nesse caso, a condição de existência do veículo é uma só: servir ao "chefe", a qualquer preço...É mais uma vez uma decisão, aqui de viés político...

Como se vê, há muito mais nuances entre o "cinismo romântico" e o determinismo econômico fatalista do que nos querem fazer crer...

O problema para esse estilo de argumento, que reduz a realidade a superficialidade digerível e manipulável, é que ele acaba por encarcerar seus formuladores quando mudam os atores do cenário, e as relações de "camaradagem" têm que ser substituídas por algum tipo de jornalismo...
Correm desesperados para recuperar a "credibilidade" antes perdida pelo "aluguel" da sua autonomia, e aí descobrem que perderam "o jeito" para praticar algo além do copiar as matérias ditadas por quem sempre as pagava, ou produzir matérias que "enquadrem" os maus pagadores...

Paradoxalmente, perdem os leitores que já tinham se conformado com essa "rendição", e que rejeitam tanta "combatividade" em quem não tem o "psique-du-rôle" para tanto, e soa "fake"...

Esse é o caso da folha de embrulhar peixe e do ordinário, que trocaram momentaneamente de papel...
Tristemente, o monitô-aí na bocada, que agora é empurrado para a concorrência,parece ter feito sua escolha: a coleira, a despeito de tentar se vender com algo que se equilibre entre um adesismo político orgânico e a oposição oportunista...!

Todos continuaremos a perder, e se juntar os três, continuaremos sem nenhum...!
Entre a coleira e o passar fome, resta a quem tem dignidade aprender a caçar...!

6 comentários:

Tecnenfermaginando disse...

xacal, xacal...

rasguem-se todos! xacal mandou bem!

aproveitando pra desejar um carnaval de prevenção pra vc!

:)

Xacal disse...

Querida Teresa,

Ótimo Carnaval para você e todos os seus...

Prevenção sempre...!!!

Jornalista Envergonhado disse...

Sou jornalista de Campos e não milito em órgãos de comunicação há alguns anos. É impossível não concordar com as palavras de Xacal. Aliás, Xacal seria uma excelente aquisição para qualquer veiculo de comunicação. Fez uma análise perfeita, retratando com fidelidade o quadro que vem se desenhando sobre o jornalismo local há vários anos.
Ao ler o texto de Xacal, é quase impossível não sentir vergonha. É exatamente essa a realidade. Ética e isenção há muito tempo foram abolidas da grade curricular da Fafic. Os jornalistas de Campos - com raras exceções, uma categoria em franca extinção - estão servindo ou aos três únicos jornais citados, ou à prefeitura, ou à Câmara Municipal. Irremediavelmente encoleirados, até mesmo por uma questão de sobrevivência.
O texto de Xacal merece ser amplamente discutido por alunos do curso de Comunicação Social da FAFIC e até mesmo pelos profissionais já formados e atuando no mercado de trabalho.

Apesar do dedo na ferida, parabenizo Xacal pela brilhante análise que, com certeza, mexeu com vários profissionais que ainda tem um pouco de discernimento.

Um excelente carnaval a todos!

Anônimo disse...

Xacal,
Belo artigo.
De minha parte, anteriormente leitor assíduo dos jornais, passei apenas a ter uma "vista d`olhos" sobre eles na internet, pois não mais os compro.
Me informo, efetivamente, nos blogs e principalmente no seu que é o primeiro que "abro".
Ademais,em cima do que disse o comentarista "Jornalista envergonhado", trata-se, em Campos,em minha opinião, de um curso que em breve tempo deverá ser extinto por falta de interessados.
Aliás, ao que se comenta, na Folha as matérias e colunas são assinadas a duas mãos e elaboradas a quatro, o que bem descaracteriza a autonomia do profissional.
Adivinhem de quem as outras duas?
Feliz carnaval!

Anônimo disse...

Feliz Carnaval!!!

Anônimo disse...

Isso tudo sem falar nos programas de rádio, onde temos de um lado as emissoras do "Reporter de Um Milhão de Ouvintes" e do outro o pessoal da "folha de embrulhar peixe", que passou a transmitir um programa que está sempre "De Olho na Cidade".

No mais, este cenário interiorano se replica em todo o Brasil, e é facilmente percebido quando se compara o noticiário da Rede Globo e o de algumas emissoras mais "independentes".

Um abraço