terça-feira, 24 de março de 2009

Atordoados...????

Não há que se duvidar dos efeitos devastadores de uma crise sistêmica global, como a que foi deflagrada pela ruptura do mercado imobiliário estadunidense, a crise subprime, como foi incialmente chamada...

Talvez a ausência de imagens dramáticas da crise de 29, com filas de distribuição de comida, migrantes perambulando pelas estradas dos EEUU à procura de meios de sobrevivência, incêndio de grandes montanhas de produtos rurais excedentes(como café no Brasil), etc, etc, nos dê a impressão de que essa crise é menos grave...

Temos o palpite que são crises econômicas estruturais capitalistas, cíclicas, mas de naturezas diferentes, embora à primeira vista, estejamos tentados a acreditar que sejam iguais ou parecidas na sua essência...
Não...Em nossa rasa opinião, a crise de 1929 surgiu no sistema produtivo, e contaminou o mercado financeiro, em efeito dominó...Hoje, a crise é no sentido inverso...
Nela, o instrumento capitalista de alavancagem da produção, o crédito, descolou-se do seu objetivo, virou fim em si mesmo e ruiu...

Não aprofundaremos a análise(inclusive por falta de arcabouço teórico para tanto)...

O que pretendemos, após essa breve introdução(que os jornalistas diplomados chamam de "nariz de cera")é chamar a atenção para a atitude das autoridades governamentais no combate a crise...

Tenho me surpreendido com a idéia tentadora de tecer comentários simplistas, e dizer que há uma paralisia dos líderes mundiais em debelar a crise...
Mas é justamente essa constatação que me assusta, pois ao chegar mais perto das notícias dos analistas especializados, a impressão mais serena é de que o problema é tão grande que essa "paralisia" é de certa forma uma maneira de agir, do tipo: na hora de grandes crise, a melhor decisão é não tomar decisão alguma...

As intervenões clássicas, como a disponibilização de grandes quantias para debelar o enfraquecimento de ativos dos setores financeiros, e para motivar alguns gigantes e escolhidos da atividade produtiva(ramo automobilístico, por exemplo) parecem não surtir o efeito esperado...
Parece, então, que os líderes esperam a crise se auto-ajustar, por inércia...Um resquício poderoso do ideário liberal de que o mercado se auto-regula, mesmo quando fazem intervenções gigantescas...

Na verdade, eu creio que não há muito a fazer, a não ser que as autoridades tivesse a coragem de alterar a estrutura de suas políticas econômicas,  pudessem deslocar o eixo, ou seja: o foco dessas políticas...

Ao invés de tentar consertar o mercado financeiro, que já se mostrou avesso a qualquer tipo de regulação ou imposição de novas regras, e que na verdade, demonstra que só deseja receber os recursos para retomar a mesma lógica na qual operava antes da quebradeira geral, os governos poderiam detinar seus esforços ao setor da economia para o qual deveria estar voltado todo os sistemas: o homem e sua capacidade de produzir...

Não custa lembrar que bancos, financeiras e outras empresas do tipo, são uma conseqüência da atividade de transformar matérias-primas em bens e serviços, e nunca o contrário...Dinheiro é meio, e não fim...

É claro que essa não é uma proposta ou tese de extinção dos meios de crédito, ou de abandonar a própria sorte tais ferramenta importante na sustentação da atividade capitalista...

O fato dos países ditos em desenvolvimento estarem sofrendo menos com os efeitos da crise(no caso de China, Brasil, Índia, Rússia, etc, etc, etc..)enquanto EEUU e Europa estão atolados é quase uma comprovação: onde o mercado de capitais é mais complexo e mais desenvolvido, e portanto influíam mais nas suas economias, essas afundam em queda livre, independente da quantidade de dinheiro que se põe...

Os países mais pobres, que aproveitaram o período de liquidez internacional(dinheiro sobrando) e ajustaram seu parque produtivo, ampliaram seus mercados internos e diversificaram suas pautas de exportações, bem como o destino desses produtos, estão em situação muito melhor que seus pares que pouco ou nada fizeram nesse sentido...

A crise nem de longe mostrou sua pior face, e antes de utilizar a crise na agenda eleitoral, aconselharia aos pretendentes ao cargo de presidente e seus aliados a começarem a estudar alternativas, pois caso contrários suas possíveis vitórias poderão ser de Pirro...

Um comentário:

Raskolnikov disse...

Para corroborar e confrotar nossas intuições sobre política econômica, ter uma visão dos limites do governo Obama, ver artigo do Paul Krugmann de hoje (24/03 Estadão/O Globo): "Política Financeira do Desespero"!
Saudações vascaínas