segunda-feira, 30 de março de 2009

Mundo Livre s/a...

Há uns quinze ou vinte anos atrás, me disseram que a Histótia tinha acabado...Não haveria mais lutas de classe, o mundo não seria mais dividido entre ricos e pobres, e o mundo, um lugar onde o livre mercado deveria florescer, não teria mais fronteiras para produtos e pessoas...Esse fluxo permanente e sem restrições traria automaticamente a riqueza para os países pobres...

As denominações esquerda e direita, no campo político careceriam de sentido, e passariam ao campo da "arqueologia"...

A demolição do Muro de Berlim simbolizava o fim  das barreiras ideológicas que atrasavam a Humanidade de seguir o caminho do progresso...

As virtudes absolutas do mundo privado sobre o Estado, deficiente, burocrático e ineficiente eram inquestionáveis...Quem ousasse discordar era execrado de qualquer debate, que aliás foi substituído por um consenso opressor e monolítico...

Confesso que nessa época fiquei confuso, e faltava-me estofo teórico para combater essa onda...Aturdido, recuei, e me limitava a observar que esse "mundo maravilhoso", na verdade, não acontecia...
Pobres ficavam cada vez mais pobres, e ricos cada vez mais ricos...Os avanços tecnológicos, ao invés de aproximar as diferenças e encurtar distâncias, aumentavam o número de excluídos...
Mesmo assim, me chamavam de pessimista, de extremistas, ultrapassado e anacrônico...

O mercado financeiro e o circular frenético de dinheiro, produtos e serviços crescia na mesma proporção que levas e levas de imigrantes que buscavam e sonhavam com as "terras prometidas" eram barrados nas alfândegas...
Não há mistério...como as riquezas se movimentavam em direção ao norte, as populações marginalizadas correm ao seu encontro...

Bom, eu não acreditei no fim da História, mas uma boa parte do mundo acreditou, e a julgar pelos comentários publicados aqui, há aqueles que ainda acreditam...

Fico a imaginar como está a cabeça desses pobres crédulos...
O privado virou público, e implora recursos do erário dos países para sobreviverem ao caos da maior crise capitalista desde 1929...
A História, que não tinha acabado, cobra agora o custo da heresia daqueles que ousaram decretar seu fim...
Mas o que era esquerda e direita ainda ressurge misturado, pois esses últimos recorrem aos princípios dos primeiros, como estatização, financiamento público e intervenção estatal na economia...
O que era um dogma, quase uma religião virou um "inferno" onde se queimam bilhões e bilhões de dólares para pagar a conta de um banquete, onde a maioria, que agora sofre, nunca passou da "cozinha"...

Para ilustrar o drama atual que o mundo vive, com cores dramáticas e trágicas, a notícia de que ao menos 21 pessoas morreram tentando entrar na Itália, vindas da Líbia em barcos clandestinos...Foi confirmado que no primeiro barco havia 253 pessoas, de onde 23 sobreviventes foram resgatados...Um segundo barco mantinha 342 pessoas que permanecem desaparecidas na costa Líbia...Há informações, conforme consta na página eletrônia do El País, que outros barcos deixaram a Líbia com mesmo destino...

Mas há por aí os que ainda acreditam que a diferença entre riqueza ou pobreza se deve a uma questão de caráter, ou mal caráter, preguiça ou esforço para o trabalho, ou quem sabe, uma predestinação divina...Acreditam também que toda forma de reparação é esmola, ou paternalismo, ou que tentar igualar as oportunidades é oprimir o honesto, branco e trabalhador contribuinte...!

Quem sabe esses imigrantes não sejam "parasitas" que desejem "a vida boa da Europa" ou "covardes" que não queiram enfrentar a dureza de seu país natal...?

Dá para pensar no desespero dessa gente que arrisca  vida para escapar da miséria...?

E o mundo sem fronteiras, onde está...? Ahhhhh, deve estar na propaganda da TIM...!

7 comentários:

Anônimo disse...

Fukuyama tornou-se famoso com o artigo, depois transformado em livro, "O Fim da História e o Último Homem". Além de defender a sua ideia hegeliana de um modo muitíssimo superficial, a própria ideia sempre me pareceu implausível e fundamentalmente sonhadora.

Axl disse...

Análise precisa, texto brilhante.
"A TroLhA" é um oásis no cerrado das idéias na blogosfera.

Fazendo um parêntese, a Justiça Brasileira recentemente decidiu que o empregador tem o direito de controlar os horários que seus empregados vão ao banheiro!

Os ideais de liberdade, em uma sociedade mais igualitária e justa, foram para as cucuias...

Xacal disse...

Axl,

Os casos estão adstritos apenas aos operadores de telemarketing...

A alegação é que a permanência do operador junto ao terminal é imprescindível para a atividade, daí o maior controle...

Mesmo assim, fica difícil imaginar que tais controles não gerem questionamentos sérios, do ponto de vista médico, ético e social...

Um abraço...

Anônimo disse...

Isso já acontece no telemarketing há muito tempo. E muito perto de nós. Mais do que imaginamos.

Xacal disse...

É, caro comentarista, mas agora o controle foi instucionalizado pela Justiça do Trabalho

Raskolnikov disse...

Ideologia é didaticamente isso: "falsa consciência" no formato de explicação universal e definitiva!
Com a palavra Fukuyama: “A imperturbável vitória do liberalismo econômico e político significa não apenas o fim da Guerra Fria, ou a consumação de um determinado período histórico, mas o fim da história como tal. Isto é, o ponto final de evolução ideológica da humanidade e a universalização da democracia liberal ocidental como forma final do governo humano.” Podemos constatar diariamente o inexorável triunfo e a "imperturbável vitória" do liberalismo.
Pergunta que não quer calar: a atual crise econômica é uma anomalia ou é a confirmação de uma lógica inscrita no próprio sistema?

Xacal disse...

com a palavra o bom e velho barbudo...está lá no Capital, é só procurar...