segunda-feira, 27 de abril de 2009

Casa Grande, Senzala, e dependências de "empregada"...

Hoje é comemorado o dia da trabalhadora doméstica, e por serem em sua maioria do gênero feminino, é quase imperativo que a inflexão dos vocábulos cedam a elas...

A trabalhadora doméstica, ou empregada doméstica(na fala popular e politicamente incorreta), na forma como temos aqui em nosso país, é uma herança dos tempos escravocratas, tão bem definidos nos postulados de Gilbrto Freyre...

Assim como a mucama, as cozinheiras, e outras escravas da "casa" eram incorporadas ao cotidiano da Casa Grande, gozando da intimidade dos senhores, e por muitas vezes, funcionando como parte do "acerto" miscigenante que uniu raças, mas deixou intactas as relações de poder e de exclusão, as trabalhadoras domésticas também foram, por muito tempo, tratadas como "da família", embora essa condição quase sempre implicasse em ser "quase-propriedade", ou um "quase-utensílio", do qual se usufruía a utilidade, conferia proximidade(por motivos óbvios), mas se negava qualquer reconhecimento ou direito...
Como as escravas, as trabalhadoras domésticas foram, e boa parte até hoje são, responsáveis pela iniciação sexual dos filhos do patrão, quer por escolha(em alguns casos, é verdade), quer por coação, mas sempre dentro de um contexto onde a posição social é bem nítida...  
Em outras situações, o assédio é do próprio empregador, e a vergonha, ou medo, ou quem sabe tudo isso junto, faz com que a maioria silencie sobre tais fatos...
Há, é claro, os casos onde a opção em "servir" aos patrões é uma tentativa de ascender socialmente...Mas ainda assim, não se desfazem os laços opressores que roubam os sonhos e a dignidade de quem se dá para fugir da miséria...!

Não é demais lembrar que boa parte das trabalhadoras domésticas ainda é submetida aos caprichos das famílias, e desconhecem limite para carga horária...No campo dos direitos trabalhistas sua submissão e exploração ainda é aviltante...

Lógico, que nem toda a relação trabalhista é ruim, e há casos de ótimo relacionamento, sem supressão dos direitos...

Mas infelizmente, esses casos ainda são minoria...


No entanto,a todos às trabalhadoras e trabalhadores domésticos do Brasil, congratulações pelo seu dia...

8 comentários:

R. Bitty disse...

Xacal,

mesmo com um pouco de atraso quero registrar que não teve preço ver a cara de tacho de um blogueiro que se acha aqui da cidade, ao ouvir da jornalista Jane Nunes em seu programa, os maiores elogios ao blog A trolha e seu idealizador.

Não sei se soube do fato, mas foi muito legal!!! Logo ele que volta e meia quer te dar uma cutucada.

Parabéns pelo visual arrojado e texto sempre atual e cortante!!!

Raskolnikov disse...

A luta pelo pleno emprego deve envolver o combate a todas as formas de precarização do trabalho. Um dos maiores desafios de nossa sociedade consiste na formalização e na inclusão na seguridade social da grande massa de trabalhadores informalizados. Além disso, é fundamental embate político contra o ideólogos do "custo Brasil": como se as garantias sociais e trabalhistas fossem um ônus intolerável para o investimento produtivo! Uma Nação só existe de fato com soberania e cidadania, por isso a rede de proteção social construída no Governo Lula é fundamental. Quando os críticos liberais/oportunistas do "Bolsa Família" aparecem clamando pela "porta de saída" do sistema, de imediato surge a imagem patronal subordinadora da nossa tradição: o lugar de pobre é pelo "elevador de serviço", que só desce!

Roberto Torres disse...

Pois é Xacal, a possibilidade real de melhoria que a regulamentacao jurídica traz de vez em quando me provoca uma reflexao bem delicada. Em que medida podemos imaginar a dignidade humana na condicao de empregada doméstica? Claro que devemos faze o maximo possivel em busca disso.... mas, se ela pode ser definida como uma funcao na sociedade cujo principal traco e servir o outro fazendo atividades que ela despreza, em que medida ela pode ser o que é, com direito e lei na pratica, e nao ser socialmente rebaixante? Em que medida o "habito natural" de ter empregada domestica nao revela tambem o outro "habito natural" de levar a vida sendo assistido por um outro que é reduzido à uma condicao bem inferior?

Xacal disse...

Caros comentaristas,

R.Bitty,

Não se poderia esperar outras postura do falecido dotô, quanto a Jane Nunes, mesmo com controvérsias, admiro sua coragem de se oferecer para o debate público...Também já sabia que ela era uma das nossas treze admiradoras...

Raskol...

Concordo contigo..quase sempre...!


Roberto Torres...

Esse é um tema delicado...a sociedade e as estruturas econômicas estão cheias de "profissões indesejadas"...

O serviço doméstico não é uma exclusividade do Brasil,e a Inglaterra, por exemplo, tem uma tradição com seus mordomos e toda a sorte de serviçais,ligados a idéia de monarquia...

O problema do Brasil, é que nosso serviço está vinculado a uma tradição de "intimidade alienante", como descrevemos no texto,onde a consciência de classe ´substituída por uma falsa noção de ser "quase da família"...

Não creio, e sou sincero, que não há funções socialmente rebaixantes, e sim um rebaixamento das funções em razão de classe...

Afinal, o que são comissárias de bordo senão trabalhadoras domésticas do ar...?

Anônimo disse...

Xacal, você resolver reformular e dar novas tintas na casa. Ficou "clean" demais, cara! Quase me ofuscou. Como o que interessa é o texto e dele não abro mão, tratei de acostumar os olhos.
Um abraço.
Um dos treze

Roberto Torres disse...

A classe nesse sentido,como signo de rebaixamento através do qual algumas funcoes sao rabaixadas, poderia entao ser deduzida da intimidade alienante onde, no fundo, se nega à empregada o espaco de sua própria intimidade, o espaco de protecao e retirada do seu ser do domínio arbitrário de sem regulacao do patrao. Sem dúvida a implementacao da lei combate isso.

Xacal disse...

Roberto,

creio que temos um consenso...

um abraço...

Xacal disse...

Caro Roberto,

Temos um consenso então...um abraço...