segunda-feira, 20 de abril de 2009

A morte prematura das tradições...

Nenhuma tradição é imortal, e do ponto de vista cultural, algumas manifestações podem sucumbir, ou assumir novos contornos com a assunção de influências ou adaptações...

Logo, esse processo está em permanente movimento, e não há como deter essa dinâmica, por mais que exista um clamor preservacionista para manter intactas e "puras" determinadas formas de expressão de uma comunidade...

No entanto, há situações onde o Estado, extrapola o tênue limite entre fomento e dirigismo, e acaba por precipitar a imposição de novos valores e ingredientes esógenos a certas manifestações culturais...

Um bom exemplo desse fenômeno, em nossa planície pantanosa, foram as festas das localidades, geralmente associadas ao calendário religioso, e que assumiam o formato de quermesses...

É claro que ninguém em sã consciência poderia imaginar que tais estruturas permanecessem intocadas, frente ao avanço tecnológico, ao modo de agir e pensar dos freqüentadores dessas festas, e por que não dizer, do próprio apelo que a religião hoje tem sobre as comunidades....

Mas é inevitável perceber que tais mudanças foram, e muito, aceleradas pela intervenção do poder público, que deformaram e transformaram totalmente essas "festas", que hoje, em quase nada lembram aquelas outras, de onde deveriam "evoluído"...
Poderíamos dizer que houve "uma queima de etapas", que as desfiguraram...

Com os milhões de royalties que foram despejados nesses últimos anos, e com a implantação de um modelo de gestão política que utiliza as festas populares como oportunidade singular de desvio de recursos para a menutenção dos esquemas de poder, as festas do interior, com suas barracas de comidas típicas, comércio de itens relacionados ao cotidiano do campo, roupas, diversão, e outras, foram dizimadas em favor de um evento único: os shows pagos à peso de ouro, que trazem no seu entorno apenas um tipo de "barraca": a de venda de bebidas alcóolicas...

Assim, a parte profana das festas(esportes, alimentação, artesanato local, diversão, etc), que, de certa forma e com a tolerância dos clérigos, harmonizava com a parte religiosa, hoje estão totalmente afastadas, e porque não dizer, em contradição, o que subtrai dessas festas sua autenticidade...

Ouvi, nesse domingo, o relato de um morador de Morro do Coco, onde aconteve a festa da padroeira, Nossa Senhora da Penha...

Essa pessoa me disse: 
"Sem os shows da prefeitura, a festa morre... A festa se resume em frente ao palanque oficial dos shows... Antes, a festa era aguardada com ansiedade, vestíamos a melhor roupa, para passear entre uma babel de barracas, cada qual com sua especialidade... Havia o desfile das Escolas, a gincana, o jogo de futebol, a corrida de bicicletas, e por fim, no último dia, a procissão... Cada parte agregava mais toda a comunidade, pois todos prestigiavam a todas as modalidades de diversão e devoção...Hoje em dia, só os shows lotam, e todas as outras partes da festa minguam..."

Como se vê, a comunidade não é capaz de competir com  a força "avassaladora" dos rios de dinheiro do poder público, que assim, afogam qualquer chance de cultivar e repassar suas tradições para permanecer viva em sua História...

Uma pena...

Um comentário:

Renato disse...

Xacal,
só para complementar suas constatações,lembro da festa de Santo Antônio em Guarus de Nossa Senhora de Fátima no IPS e de São João Batista no Capão,que perderam sua força e tradição a partir dos "shows" oficiais chegando ao ponto ser renegado toda a parte "profana" por parte da igreja por conta do descontrole,desorganização e violência gerados por estes eventos.
Lembro ainda que fato idêntico aconteceu com as festas Juninas da COESA,do ásilo do Carmo e São José Operário.
Um abraço,Renato Gonçalves.