terça-feira, 28 de abril de 2009

Nem sempre o final é feliz...

Nosso colaborador/leitor e companheiro Gustavo, Don Cabezza, Lopes nos envia oportuno artigo do Delfim Neto, aquele que a Dilma teria planejado seqüestrar, de acordo com as viúvas da redentora e do ffhhcc...

A notícia e a versão

24/04/2009 14:11:33

Delfim Netto

Um dos fatos mais surpreendentes das análises financeiras que invadem nossa televisão às 7 horas da manhã, mostrando o que aconteceu nas bolsas de valores no Oriente, é a convicção com que fornecem explicações aparentemente razoáveis a partir de suposto conhecimento científico. Nada contra a quantidade e a qualidade de informações objetivas sobre o comportamento dos mercados. Destas sempre um pouco mais é melhor. Quando, entretanto, a informação objetiva é fornecida escondendo um contrabando opinativo, seria preciso deixar isso claro ao receptor e chamar a sua atenção para o fato de “que ela deve ser usada com moderação”. 


É necessário dizer que isso nada tem a ver com a competência ou a habilidade do analista. É resultado da própria natureza do sistema econômico e da sua complexidade. Há algum tempo, o avanço dos estudos da dinâmica de sistema no campo das ciências naturais (meteorologia, biologia e física newtoniana) vem mostrando que mesmo os que aparentam simplicidade podem desenvolver comportamentos surpreendentes e inesperados. Sabemos hoje que modelos econômicos dinâmicos ingênuos podem também exibir comportamentos tão ou mais surpreendentes e inesperados quanto os das ciências naturais. 

As análises midiáticas são frequentemente condicionadas pela ideologia hegemônica politicamente correta, construída desde meados dos anos 80 do século passado, em resposta às inadequadas políticas econômicas então executadas. Estas, juntamente com a perversa estrutura do poder político internacional construído durante a Guerra Fria, haviam levado a economia mundial à estagnação e à inflação. 

No fundo, a mansa ideologia hegemônica que exsuda das análises correntes é que os mercados quando deixados a si mesmos (sem a intervenção do governo) têm a extraordinária virtude de conduzir ao equilíbrio a oferta e a procura, o que maximiza os benefícios de todos os participantes. O problema é que o reconhecimento do papel fundamental do bom funcionamento dos mercados para a eficácia produtiva e de sua compatibilização com a liberdade individual não leva, necessariamente, à aceitação desse conto de fadas. Aliás, nem a mão invisível de Adam Smith acreditava nele. 

No momento em que mostraram a sua cara as extravagâncias da desregulação, que até setembro de 2008 era o que exigia o estado-da-arte da “ciência” dos tais analistas, ela colapsou. Todos agora defendem, “cientificamente”, mais regulação, mais Estado, mais controle. Os mais ousados filosofam mesmo sobre “a necessidade de uma profunda modificação da arquitetura do sistema capitalista”. A confusão é geral porque a tragédia que estamos enfrentando deriva da desregulação do sistema financeiro, estimulada pelo próprio Estado. Quando Henry Paulson tomou posse como secretário do Tesouro dos Estados Unidos, em 2006, a crise atual já era intuída, mas ele afirmou que vinha para completar a desmontagem do excesso de regulação do sistema financeiro dos anos 80, que continuava prejudicando o desenvolvimento econômico. 

A eficácia dos mercados de bens e serviços depende da qualidade do mercado financeiro em dois sentidos: 1. Porque o processo de desenvolvimento econômico é pouco mais do que a soma de inovação com crédito. Ele acontece quando uma nova ideia se transforma num novo produto, graças aos riscos tomados por algum banqueiro para financiá-lo. 2. Porque é a fluidez do crédito que garante a reprodução do circuito econômico. Como o funcionamento de todo o sistema depende das expectativas dos agentes (dos consumidores, dos produtores e dos banqueiros) e o crédito depende da confiança construída entre eles, deve ser claro que o circuito econômico só voltará à regularidade quando se restabelecer a confiança (no fundo, a volta do crédito interbancário). É isso que tentam os bancos centrais do mundo, inclusive o nosso, ainda que tardiamente e sem convicção sobre a sua musculatura. 

É preciso deixar claro que, mesmo quanto à construção teórica do equilíbrio dos mercados de bens e serviços que produziriam a “felicidade geral”, há sérias dúvidas. Em certas condições, podem existir preços que os equilibram simultaneamente, mas encontrar os mecanismos que nos levam a eles é outra coisa. É muito perigoso aceitar o conto de fadas que, deixados a si mesmos, os mercados produzem o máximo de bem-estar. A grande verdade prática, por outro lado, é que os últimos 250 anos provam que os mercados (com seus problemas) podem produzir o desenvolvimento econômico com relativa eficácia e dentro de um regime de plena liberdade individual. 


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