quarta-feira, 27 de maio de 2009

Para além dos estereótipos...Aos nossos mitos e heróis, nossa devoção...!...


Desde a Antiguidade, a idéia humana da criação de mitos, atende sua necessidade de referenciar fenômenos os quais desconhece a natureza...

Dessas representações, a que nos chegou com mais força foi a mitologia grega, e por vários e óbvios motivos, a saber: A Grécia é considerada um dos berços do pensamento ocidental, embora não o único, e porque a tradição religiosa cristã, e outros monoteísmos, bebem na fonte grega para sistematizar suas denominações e dogmas, a partir da livre apropriação de conceitos consagrados pelos gregos...o mais importante deles: a humanização dos deuses...

Assim, a idéia de personificar as divindades, santos, anjos, e todas as outra formas de materialização dos entes espirituais é de forte influência grega...No entanto, como as religiões são sistemas muito mais complexos que a adoração dos deuses do Olimpo, e como tais, elas (as religiões) sejam inerentes ao processo de diversificação das redes sociais de interação humana, e que de certa forma,  se servem e serviam a normatizar condutas e comportamentos, para auxílio e exercício de alguma forma de poder temporal, foi necessário abandonar o viés da imperfeição que caracterizava a humanização grega de suas divindades...

Ou seja, a infalibilidade de deus, materializado em seu filho e seus apóstolos (na denominação monoteísta cristã)se adequava a idéia de uma Igreja hieraraquizada fortemente, e destinada a mediar conflitos em sociedades que já nasciam sob o signo das desigualdades...Junto a purgação dos "pecados" pela expiação da culpa no sofrimento e dor...

Eis que esses conceitos de heroísmo construiram boa parte da sustentação filosófica de várias culturas, e mais tarde, sua antítese, o anti-heroísmo também foi largamente utilizado em outros setores, com objetivos determinados...Não é a toa que o fanatismo serve tanto às religiões, como a adoração dos heróis dos jogos e artes...

No show bizz, por exemplo, a idéia do anti-herói, ou bad-boy, ou bad-girls, regados a excessos, liberdade e libertinagem, consagrados na tríade sexo-drogas-rock'n'roll, caiu como uma luva para vender a idéia de eterna constestação para consumo de uma faixa de clientes...Hoje esse "princípio" se estendeu a todas as áreas do entretenimento e da produção de bens culturais...Pensando bem, essa idéia já existia há tempos, presente, por exemplo, nos excessos boêmios da juventude lapiana e talentosa no início do século XX...Agora, ela se hegemonizou como fim em si mesma, ou seja, não como resultado de inconformismo, mas sim como pré-requisito para o recinhecimento público...

Penso nisso tudo quando, pois ao chegar em casa hoje, após um breve passeio pelas cercanias da Riviera Pelinca, adquiri em uma banca de jornal, em frente a agência do banco dos Setúbal, uma jóia rara, não pelo ineditismo, mas pelo exuberante conteúdo...

Um DVD produzido pela TV Cultura/SP, com as imagens do programa Ensaio, de 1973, com Elis Regina...

Eis que escrevo sob o impacto do reencontro com "pimentinha", na faixa Atrás da Porta, da lavra do duo Chico Buarque/Francis Hime...

(...)

Pausa para retirar um "cisco" do olho, que insiste em precipitar fluído lacrimal sobre o teclado...

(...)

Adentra Canção do Sal, de Milton Nascimento, o bardo das Alterosas...

Sobre Elis tudo já se escreveu... e ainda é pouco...

Mas o que me intriga, e retorno ao eixo principal desse raso raciocínio, é como o show bizz cria, potencializa e, literalmente, explode seus mitos, em roteiros suicidas, como se a tragédia dessas almas geniais e torturadas pelos limites impostos pela realidade medíocre que os cerca, fosse sempre o alimento perfeito para a fornalha dos negócios e lucros...

É certo que nem todos têm a "legitimidade da dor" para cumprir essa via crucis autodestrutiva como Elis, Janis, Hendrix, Raulzito, Cazuza, e tantos outros...
Nos debilóides e mal dotados, personagens destinados a ocupar a faixa destinada a um consumo rápido de bens culturais, esse figurino e papel de insatisfação é sempre fake, e revela só a vulgaridade impotente e prostituída...

Tanto faz, em ambos os casos, o desfecho previsível é sempre a tragédia da tristeza ostrascista, ou tragédias tristes...

No caso de nossos heróis, o mais paradoxal é que a "autenticação" de sua "imortalidade" se dá, justamente, através de mortes traumáticas...

Quanta saudade da estereotipada e heróica Elis, com sua divina imperfeição humana...

E como ela canta agora: "É com esse que eu vou...", de Pedro Caetano...

Fecha o pano...

2 comentários:

Walnize disse...

Caro Xacal,
Como você bem disse:"Quanta saudade da estereotipada e heróica Elis,com sua divina imperfeição humana"...
Em retribuição a este "presente":um post belíssimo deixei em seu email mais um pouco "dela".
Walnize Carvalho

Tetê disse...

Mr. X,

como pode o menino ser homem feito de cavanhaque?

como pode o menino saber que Elis
ainda vive?

[...]

entre mitos e mitologemas, ritos em mistérios renovados, ao conjunto de preceitos éticos e morais
a religião,
construída de tabus e totens,
assim nasciam os deuses... e assim são feitos os meninos deuses.


Como Walnize,
também agradeço pelo presente.


E sim,
bendida seja a luz que te guia, toten Xacal!