quarta-feira, 17 de junho de 2009

Conexões...

Não há nada mais fake do que integrante da classe mé(r)dia tentando escrever sobre a favela...Quer seja ela em nosso Parque Aldeia, na Rocinha ou no Capão Redondo, zona sul de SP...

Não é possivel falar em nome daquilo que não se pertence...O nosso olhar é sempre o do outro, e isso não é ruim, nem bom...é assim...!

O desafio das pessoas, como nós, que desfrutam de artigos, bens e ferramentas de consumo e convivência social com um mínimo de dignidade, de realizar conexões com outros estratos de classe, ou seja, os mais pobres que nós, sem cair na comiseração sentimentalóide, ou no frisson antropológico do bom selvagem, e compreender os muros e diferenças que separam, e definir quais serão mantidos, e quais serão ultrapassados, é uma das preocupações que sempre nos afligiu...

É diferente falar de racismo, sem ter sentido "na pele" o preconceito...É difícil falar de exclusão, quando não se é excluído...

Respeitar a arte popular gerada nesses locais, que ficam a margem de nossa sociedade de consumo, é antes que aderir a uma estética da pobreza, reconhecer seu papel revolucionário e engajadao em portar o grito daqueles que estão na base, ou como li ontem na revista Caros Amigos, nas estrebarias da sociedade...

Respeitar essa arte popular é enxergar que, hoje, felizmente, os "manos" e as minas não precisam mais do nosso crivo para se legitimarem, e por isso, é preciso entender o tempo de afastamento, e o tempo de integração, que não pode ser confundido com desintegração...

Ontem, de volta da Cidade-Maravilha-Purgatório-da-Beleza-e-do-Caos, me deparei com um belo texto do Ferréz, na revista Caros Amigos...Confesso que já tinha ouvido falar do trabalho do Ferréz, da sua luta, e da sua "proposta" de construir alternativas ao massacre idiotizante da mídia tradicional, e da ditadura da indústria de produção de bens culturais para consumo da massa marginalizada...

Me veio logo a cabeça...Como separar uma análise do texto, da sua qualidade, sem contaminar a simpatia que nutro pelo seu "movimento", sem criar uma condescendência inconsciente(ou consciente)pelo fato dele ter reescrito seu roteiro original(cadeia-crime-cemitério)...

Não dá...Ferréz é bom pelo que escreve e pelo que representa...E mais: tanto faz para ele, e para os seus, como nós, os bem nascidos, bem nutridos e bem educados, enxergamos sua arte...
Eles sabem que não ficaremos indiferentes, NUNCA... e isso por si, já basta...!

Na mesma revista está lá uma indicação de mais uma ação revolucionária do Ferréz, a criação do Selo Povo, uma rede de distribuição de bens culturais, produzidos pelas vozes da periferia, que tem um blog, selopovo.blogspot.com/, ancorados pelas marcas Literatura Marginal e 1 da Sul(Capão SP)...

Vale a pena visitar, e caso você se interesse, participe desa rede de distribuição de ARTE POPULAR...




9 comentários:

claudiokezen disse...

Bela reflexão, turco. Nada é mais odioso do que o olhar de comiseração ou de censura da classe média/pseudo-intelectual sobre os fenômenos culturais ou comportamentais das pessoas excluídas em guetos, favelas e similares.

Um abraço.

Gustavo Carvalho disse...

Sugestão de leitura, do mano Ferréz: Capão Pecado!

Cabrunco do Chuvisco disse...

na sua devida proporção:
Ferréz X Xacal
...

Abraço, amigo!!!

até breve

O Reacionário disse...

Ela ela ela silêncio na favela!

Anônimo disse...

Me fez lembrar um colunável da terrinha (empresário do ramo de móveis) que fez Festa da lage em seu niver! Decadência Moral!

Anônimo disse...

Grande Xacal, enquanto a sociedade excluem os moradores das favelas aqui em Campos, assim abandonando e o poder público não investe, por ordem dos mandas chuvas, os seus filhos destes políticos e da sociedade frequentam na compra de drogas.
A comunidade do Madureira enfrente 30 passos da Secretária de família e assistência social, é a CRACOLÂNDIA DE CAMPOS.

Vitor Peixoto disse...

Boas questões, meu grande camarada Xacal!

Peço licença para discordar da seguinte passagem do post:
"Não é possivel falar em nome daquilo que não se pertence...O nosso olhar é sempre o do outro, e isso não é ruim, nem bom...é assim...!"

Mesmo que residual em sua análise, o ponto merece algumas considerações. O suposto de não-pertencimento a um determinado grupo, classe ou qualquer clivagem sociológica não impossibilita análises que objetivam descrições e/ou explicações. Se assim o fosse, os estudos de sucídio estariam dentro de uma impossibilidade lógica. Pior ainda seriam os estudos sobre corrupção (imagina esperar que os próprios corruptos sejam os únicos produtores de conhecimento acerca do tema!), ou mesmo qualquer análise acerca de elementos culturais.
Acrescentaria ainda que a comunicabilidade (um dos principais tropos do pirronismo) estaria gravemente ameaçada caso o suposto de pertencimento fosse levado a sério. Se somente análises realizadas por cada grupo fossem válidas metodologicamente, deveríamos supor que também somente poderiam ser "apreendidas" por membros do mesmo grupo que o produziu. Daí se segue que o princípio de comunicabilidade estaria corrompido.

Como sei que o ponto central não é exatamente este, não tomaria mais o seu tempo.

Deixo um cordial e saudoso abraço,

Vitor Peixoto

ps: Mesmo distante não deixo de vir sempre a este espaço.

Xacal disse...

Caro Vítor,

Talvez minha forma de expressar tenha causado essa distorção...

Quando falo do pertencimento, para a construção de um discurso "legítimo"(isso é temerário, e sempre discutível)é preciso atentar para a natureza do fenômeno ao qual se destina a análise...

o corte de classe, de gênero, e orientação sexual, enfim, de todos os estratos que criam uma identidade, e permitem exclusões e marginalizações, criam condições específicas que não podem ser comparadas a outras especificidades...

ou seja, a corrupção não é uma classificação de grupo...é uma prática, que permeia e oscila por toda a a sociedade e microrredes de poder...

suicídio é também, antes de tudo, um comportamento, que não revela, mesmo que seja possível quantificar sua ocorrência em determinados grupos(por genética e cultura)uma característica que possa ser avistada pelo outro, e portanto, ser utilizada como referência para exclusão(ou inclusão)diluição, aculturação, dominação e ou cooptação...

É claro que podemos, e devemos estudar e criar conceitos que podem e dever contribuir na análise desses problemas...

Mas o ponto crucial é: uma boa análise nossa, e uma boa análise do Ferréz, por exemplo, são incomparáveis pela sua condição de pertencimento, com tudo para o bem e para o mal que essa condição carrega...

Um abraço, e mais uma vez, obrigado por nos brindar com seu arguto argumento...

Anônimo disse...

“Agora o eleitor vai ser identificado pelos seus dados biométricos. Ou seja, na hora de votar, a urna só vai ser habilitada no momento em que o eleitor colocar a digital no sistema que vai identificar ele e liberar a urna para identificação”.
Segundo ele, o novo sistema impedirá fraudes. “Somente, o eleitor comparecendo pessoalmente é que vai conseguir fazer a liberação da urna. Dessa forma, é impossível que uma pessoa vote no lugar da outra”.



LI NUM BLOG.
Só que a partir daí,as "crianças"começarão a coagir as pessoas sem muito conhecimento,que:
-SERÁ POSSÍVEL SABER SE VOTOU OU NÃO,NO CANDIODATO,PELA IMPRESSÃO DIGITAL.........
ESPEREM SÓ...