sexta-feira, 26 de junho de 2009

Para além do já...

A absoluta falta de tempo, e também de capacidade de disciplinar o pouco que resta, faz acumular na estante uma montanha de livros, começados, números da Carta Capital intocados(acho que são três semanas, sei lá...), e outras publicações...

Olho, com culpa sincera, a biografia de Stálin(de Simon Sebag Montefiore...) que recebi em presente do Gustavo Lemos...Ladeada pelo Ministério do Silêncio(de Lucas Figueiredo...) que chegou as minhas mãos, também presenteado por outro grande amigo, o Gustavo Lopes...Logo embaixo está o ótimo Deus Um delírio(de Richard Dawkins...), que outro enorme amigo, o Ronaldo Lopes, me apresent(e)ou...Como vocês, meus treze leitores vêem, esses poucos amigos meus têm a mania de tentar me alfabetizar no terreno das leituras mais áridas...Digo a eles que se trata de tarefa inglória...O xacal é, e sempre será um parvo...
Resisto às minhas incapacidades, e vou tentado digerir esse conhecimento, gentilmente, compartilhado por esses cúmplices...
Para aliviar o fardo dessa culpa em minha consciência, socorro-me em José Mindlin, dono do maior acervo bibliotecário particular, recém doado a USP, que diz que mesmo que não possam ser todos lidos, os livros devem estar ali, ao alcance da mão, companhia imperecível de conhecimento e saber...Resignados, pacientes, a esperar nossa rendição ao seus contos e encantos...

Tudo isso dito para cumprir o rito da escrita dos diplomados, feito, assim, o nariz de cera, no jargão dos especialistas-jornalistas, tratemos do tema em si:

Em meio a essas divagações, folheio a edição dessa semana, e de outras semanas da Carta Capital, e ratifico o que já desconfiava...Bons conteúdos jornalísticos transcendem a temporalidade, ou : A ditadura da instantaneidade...

Na seção Bravo!, encontro uma ótima resenha do livro de José Cândido de Carvalho, entitulada Dissimulação e Malícia, sobre o relançamento pela José Olympio, com 144 páginas, o livro: Olha para o céu, Frederico...
O responsável pela seção acerta em cheio:

"(...)
Nem o cheiro da cozinha da fazenda pode dar conta dos sentidos e sabores evocados nesse relato marcado pela malícia das metáforas e pelos dizeres populares mais antigos, porém atualíssimos.
(...)
O autor, imoirtalizado por O Coronel e o Lobisomem(1964), compõe um panorama intimista da história do Brasil que desvela as inovações da década de 30."


Primeiro, deixem-me ceder a uma ponta de orgulho bairrista, tão solapado e escorraçado, atualmente, nessa terra de lama e de mediocridade intelectual indigente...

É bom saber que o bom e velho campistês tem sua face universalista...Demarca nossa identidade, e nos conecta com os mundos...
Melhor ainda enxergar o reconhecimento do outro(o estrangeiro), que afinal, é para quem contamos nossas histórias...
"Zé Cândido" é a confirmação de que as certas obras repousam em uma dimensão alheia ao tempo, como unidade de obsolescência...
Por R$ 24,00 reais o campista pode se lembrar que por aqui já vingou gente capaz de escrever nossa história fora da seção policial da mídia...

Para além do agora dessa expansão iliterata e descartável desses nossos blogs(como bem disse Saramago: "escreve-se mais e pior"...), da imbecilidade venal dos caolhos da cidade, do chapa-branca fake das páginas viradas, da arrogância oca e mercenária das folhas de embrulhar peixe podre, do analfabetismo dos o(r)di(n)ários, do marronzismo jet-set dos somos meio assim, do baixo calão cultural de chicos e barbosas das rádios, enfim, para adiante desse nosso cotidiano de merdas:

Olha para o céu, campista...e cuidado com a fuligem...!

3 comentários:

Raskolnikov disse...

Não se angustie por isso camarada, o grande Umberto Eco diz que melhor que uma biblioteca é ter uma anti-biblioteca: segundo ele, quanto mais velho o sujeito fica mais livros não lidos (e assuntos ainda ignorados) ele deve se cercar. Como falava o velho Platão: "O homem que não se sente deficiente não deseja aquilo de que não sente deficiência.”

Anônimo disse...

José Cândido de Carvalho (Campos dos Goytacazes, 5 de agosto de 1914 — Niterói, 1 de agosto de 1989).

São vinte anos da morte de José Cândido.

A PMCG está preparando o que para homenageá-lo?

PS.: Quatro(04) campistas fizeram parte da ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Os imortais são:

1º- José do Patrocínio(08 de outubro de 1853 / 29 de janeiro de 1905);

2º- Teixeira de Mello(28 de agosto de 1833/10 de abril de 1907);

3º- Alberto de Faria(05 de agosto de 1865/29 de novembro de 1951);

4º- José Cândido de Carvalho(05 de agosto de 1914/01de agosto de 1989).

Anônimo disse...

Odorico ou Ponciano?

"Odorico, o Bem-Amado ou Os Mistérios do Amor e da Morte", peça teatral de 1962, foi escrita de um jeito; em 1973(quando foi para a televisão) o protagonista, Odorico, utilizava uma linguagem desconcertante e exótica. Por exemplo:

Os cachacistas juramentados...

Esta obra entrará para os anais e menstruais de Sucupira e do país.

Vamos dar uma salva de palmas a esta figura trepidante e dinamitosa que foi o Seu Nono.

Isto deve ser obra da esquerda comunista, marronzista e badernenta. (Referindo-se às maracutaias descobertas pelos vereadores de oposição à respeito de sua administração.)

É com a alma lavada e enxaguada que lhe recebo nesta humilde cidade.

Vamos botar de lado os entretantos e partir logo pros finalmentes.

Como dizia o poeta Castro Alves: "Bendito aquele que derrama água, água encanada, e manda o povo tomar banho". (Durante a inauguração de uma bica em um vilarejo de Sucupira.)

A origem!
O que aconteceu entre 1962(peça de teatro) e a minissérie(1973) que fez com que a linguagem mudasse tanto?

Resposta: O livro "O coronel e o lobisomem" foi escrito em 1964.

O escritor José Cândido de Carvalho acusava Dias Gomes de inspirar todas as falas de Odorico no coronel Ponciano de Azeredo Furtado, personagem principal de seu romance O Coronel e o Lobisomem, de 1964.

A maneira de falar de Odorico Paraguassu é totalmente tirada da obra do escritor campista. Cópia mesmo. É só ler. Odorico ao falar lembra Ponciano de Azeredo Furtado, o coronel medroso de Zé Cândido.