segunda-feira, 6 de julho de 2009

A América Latina sangra pelas veias abertas de Honduras...


As últimas notícias chegadas de Honduras nos autorizam a dizer que um fim trágico é o mais provável desfecho para uma crise que se arrasta há semanas, e que teve no golpe de Estado que depôs o presidente eleito, Manuel Zelaya, o seu momento mais crítico até agora...

A TrolHa observa com muito cuidado e apreensão o desenrolar dos fatos, e reconhece a dificuldade em tecer análises sobre realidades tão desconhecidas, e evita ceder a tentação dos reducionismos e analogias, que, quase sempre, ratificam a farsa da pretensão de repetir fatos históricos, para efeitos de comparações...

Embora esteja claro que a crise hondurenha é um assunto localizado, e que tem especificidades próprias, não podemos afastar de todo a perspectiva de que se trata de uma ruptura que atinge a toda a América Latina, e de forma mais dramática pode ameaçar a consolidação democrática regional, e afetar seu delicado equilibrio geopolítico...

Existem muitas variáveis em jogo, e claro, nossa análise se prende ao que acreditamos, portanto, se desejam imparcialidade, procurem outro blog...

Há algumas constatações fáticas que nos ajudam a situar nosso pequeno palpite...

A economia da mídia PIG, o "cuidado" com a cobertura, a ausência de editoriais inflamados, o silêncio de alexandres gracinhas e pitonisas como mírians leitões, e etc, já apontam para uma solidariedade velada com seus parceiros do PIG hondurenho...Nada parecido com o interesse recente na Venezuela, Bolívia, Equador, ou até mesmo as aventuras sexuais do ex-bispo Fernando Lugo, presidente do Paraguai...

Por aqui, na mídia PIG local, nada...Não se sabe se por desinteresse, falta de capacidade, ou estratégia definida, ou de tudo isso um pouco...

Isso por si, já nos revelaria que os interesses republicanos e democráticos do povo hondurenho estão sufocados sob essa cortina espessa de indiferença...

Mas não podemos ceder ao mesmo reducionismo que criticamos...É tentador dizer: se eles(a mídia PIG) estão desse lado, então o lado "correto" é outro...

Essa é uma parte da "verdade", mas não toda ela...

Como dissemos, há elementos comuns em vários países latinoamericanos, embora cada processo político se desenvola de maneira específica...
Séculos e séculos de intervenções externas, justificados pela união dos interesses das elites locais com los patróns de Wall Street e Europa, rivalidades regionais, instabilidades econômicas cíclicas, dentre outros fatores, criaram um ambiente de permanente tensão para as instituições latinoamericanas do Estado de Direito...

Recentemente, a inflexão à esquerda, com exceções no Peru, Colômbia e México, trouxe de volta à baila velhos problemas:
Como implementar e ampliar as agendas progressistas, diante do assédio dos conservadores, e dos estamentos jurídico-normativos elitistas e verticalizadores, sem, no entanto, ceder a tentação de acelerar as etapas, e ou romper com as regras já estabelecidas...?
Como costurar um consenso possível entre a maioria da população que elegeu governos para darem conta de suas urgências em combater a marginalização e pobreza, as quais estiveramcondenadas, e os ressentimentos delas decorrrentes, com os privilégios seculares das elites que não estão dispostas a incorporar essas massas excluídas, que terão que arcar com o ônus dessa inclusão...?
Como fazer as alianças necessárias para a governabilidade, sem "vender" as "bandeiras históricas", e sem deixar de aprofundar as formas de organização popular que dão sustentação a esses projetos(ou pelo menos, deveriam)...?
Enfim, como manter a frágil trama desses tecidos sociais já agastados...?

Os acontecimentos recentes nos mostram que não é tarefa fácil...

Em Honduras, como em qualquer outro país, resiste o desafio de sabermos os limites entre as sanções exigíveis para que a normalidade institucional se reestabeleça, como as previstas pela OEA, e a ONU, e afastarmos intervenções desnecessárias, que na verdade, só consolidariam o cisma na sociedade hondurenha, bem como fariam repercutir as desavenças entre vizinhos, fermentadas por anos e anos de incidentes diplomáticos e ódios xenofobistas...

Outra dificuldade é que a credibilidade dos órgãos multilaterais se encontra sob permanente dúvida...
O histórico de alinhamento desses organismos internacionais aos interesses geopolíticos dos países ricos, enfraquece sua condição de arbitragem de conflitos dessa natureza...

Enfim, é preciso evitar o quanto possível a inclinação por chamar os xerifes do Norte(os EEUU) para atuarem como polícia da América Central...Seria um retrocesso, e caso fosse necessária, seria uma ação com custo altíssimo para nossa autonomia...

Bloqueios e sanções econômicas, também, por suas vezes, flagelam e punem muito mais os pobres do país, do que lhes garante a restauração dos mandatos que les sufragaram nas urnas...Essas sanções poderiam ser mais um "golpe" para quem já sofreu o golpe...

Ficam algums certezas: Não haverá solução fácil, e o golpe em si é a confirmação de que a rearrumação das forças políticas em Honduras requer uma operação coletiva de todos os líderes latinoamericanos...A forma como enfrentaremos o problema hondurenho influenciará novas crises que ainda estão por vir...

E como dizem os músicos da Mundo Livre S/A:

"a senha para a sobrevivência consiste numa resposta equilibrada para o recorrente conflito..."

PS1: Leia a ótima cobertura no blog das powerpuff girls, estouprocurandooquefazer.blogspot.com/...
PS2: Esse texto é dedicado a Jane Nunes, uma "internacionalista solidária"...


Foto: El País...

2 comentários:

Jane Nunes disse...

Muito Obrigada! Muito Obrigada! Muito Obrigada! Lutemos pela Liberdade!
Beijo Grande!

Cristina Lima disse...

Parabéns pela análise e pela dedicatória!!