sexta-feira, 31 de julho de 2009

Da série: Contos da TrOlha...Inédito...

Depois da série TrOLha Revival, saiu esse inédito...

O predestinado...

Doutor Fausto, era assim que o chamavam, não tinha concluído sequer o segundo grau...Isso só realçava sua biografia, com a impressão que todos tinham que era um gênio, e que gênios prescindem de escolaridade...Foram anos e anos de trabalho na sua organização, até que atingisse o topo, e pudesse estar ali, naquele pedacinho de Olimpo empresarial, com secretária poliglota, elevador privativo, e enfim, o sonho de todos: a chave do banheiro da diretoria...

A vida imita a arte, e essa última já se incumbiu de simbolizar, em vários filmes, o signo de distinção e status que acarreta o simples fato de dar uma cagada exclusiva, com louça de primeira, espelhos impecáveis e enormes, mármores italianos, secadores de mão, sabonetes líquidos com essência e odores das melhores ervas, e enfim, papel higiênico macio como lençol de seda...

Doutor Fausto sempre imaginara esse momento, desde que assistia aqueles filmes requentados da sessão da tarde, época em que os melhores banheiros que frequentava eram os dos shoppings nos quais começou como "auxiliar de serviços gerais", eufemismo de rh para limpador de privada...

Por isso, sua ida ao banheiro da tarde/noite de todas as sextas-feira, no crepúsculo de mais uma semana de expediente na organização, era um ritual semi-sagrado...
Reservava a melhor parte dos jornais, e ou das revistas para essa leitura...Nenhum texto que lhe provocasse uma concentração inibidora de suas necessidades fisiológicas, mas também nada tão banal que não merecesse a atenção em um momento de tanto sossego e prazer...

Como cada box do banheiro permitia dependurar suas roupas, e mesmo diante de sua quase-mórbida obesidade, o espaço, de tão generoso, permitisse essa manobra, Doutor Fausto aproveitava o encerramento de suas sobrecarregada agenda, e se despia, para melhor cumprir seu ritual...

Era como se ali, naquele espaço, pudesse ser ele mesmo...Sem as máscaras organizacionais que mediam disputas, traições, desvios...Nem em sua casa se sentia assim, pois lá também encenava um papel, mesmo que o roteiro não fosse tão árido...

No banheiro dos diretores de sua organização encerrava-se sua trajetória de poder, com exclusividade, privacidade, naturalidade...Onde mais poderia se sentir tão acima dos outros que ocupavam os andares, e banheiros destinados a contingentes enormes....?

Inacessível, a não ser para poucos, mantinha ali naquele toillete mais distância de todos que aprendera a desprezar...Como afirmação de sua "liberdade" desligava o aparelho de telefone celular...

Pode ter sido essa a sua desgraça...

Seu castelo, seu túmulo...

Depois de cumprido seu ritual de despir-se de sua "armadura Armani", o "guerreiro" foi vitimado por um acidente vascular cerebral, enquanto folheava um número da Vogue, e começava a forçar a natureza, através de ondas peristálticas...

O ataque não lhe matou de imediato, mas imobilizou braços e pernas...Sabia que era o fim...E pode ver com lucidez, do início ao fim...

Não se sabe quanto tempo permaneceu ali, imóvel, lúcido, moribundo e agonizante...a respiração lenta, não denunciava sua presença...

Assim, pode ouvir quando dois dos diretores de outros setores da organização entraram para aliviar sua bexigas...Eram dois diretores recém-promovidos, e nada sabiam desse seu ritual...Conversavam animadamente, e o assunto era ele, o Doutor Fausto...Na pauta do pequeno colóquio, seus colegas deixavam claro o que pensavam dele, com uma sinceridade que só os descuidados têm...
Desde suas limitações físicas, até sua arrogância desmedida, alimentada por uma agressividade primitiva, que destoava dos PhDs, MBAs, e outros títulos acadêmicos que lustravam currículos de seus pares...

Dizem que à beira da morte vemos nossa vida passar como um filme...O Doutor Fausto ouviu a sua tragédia ser contada com narração...

Soube que sua mulher o traía, e pior: detalhes das apimentadas trepadas, e de gostos que desconhecia...

O golpe que ela arquitetava para desviar seus bens, para viver com o novo eleito, que ali no banheiro cantava sua vitória...

Soube que sua secretária poliglota tinha outros usos para sua língua, e que não se restringiam a falar outros idiomas...Logo ela, para quem destinava a melhor parte do seu tempo, adornada com presentes caros, como o relógio de ouro 24 quilates, cravejados com diamentes lapidados por joalheiros em Israel...

Ali, sentado, nu, como viera ao mundo, e prestes a dar o último suspiro soube que o pior não era ouvir tudo isso, mas sim não ter a força e o tempo necessários para se vingar...

Se a morte é o que iguala a todos, pensava, uma morte com requintes de crueldade apenas se realizava para quem fez por merecer...E ele sabia que cada movimento que deu na vida, para chegar aonde chegou, e da forma meteórica que chegou, teria um preço...

Pensava como seria a imagem que todos teriam ao encontrar seu corpo, ali, pelado, e em cima de um monte de merda...

No fim, se conformou em descobrir que por pior que fosse sua humilhação, ele não estaria vivo para encará-la...

Foi seu último consolo...

Na segunda-feira, o "auxiliar de serviços gerais", ou limpador de privadas que chegou ao topo de uma das maiores organizações do País, foi encontrado por um de seus pares...Não um diretor, e sim outro limpador de privadas...

6 comentários:

Ava disse...

Xacal... Que louco!
Que imaginação mórbida...rs

Mas a vida é assim...nada de purpurinas e paetês....

E não ter tempo para arquitetar uma vingança, talvez seja pior que a própria morte...rs

Bem, devo confessar que prefiro as fadas e duendes...
Mas que seu conto é muito bom, não tiro seu mérito...rs

Beijos!

Anônimo disse...

XACAL,
FALE ALGO EM UM TÓPICO SOBRE AS ABERRAÇÕES DESSA NOSSA PREFEITURA,PARA PODERMOS DIZER O QUE ESTAMOS SENTINDO.
ESTOU ACHANDO QUE VOCÊ MUDOU DESSA CIDADE.
Rsrsrsrsrs...

°•~ ∂ąnnι °•~ disse...

Xacal, sinistro esse conto!

E que imaginação!!!

Quando teremos um conto com final feliz?


Bjs!


=)

Xacal disse...

Minha cara Danni...

Se é final, não pode ser feliz...A felicidade, assim cimo deus, é uma invenção nossa, para que possamos dar conta das nossas ignomínias e finitude...

A única possibilidade de "final" feliz, seria o fim da dor, da angústia e dessa sensção recorrente de que não somos nada, ou quase nada...

O problema que é essa a única possibilidade de "eternidade" que temos: a infelicidade...!

Xacal disse...

editando: "(...)a felicidade, assim como deus(...)"

Ana Paula Motta disse...

Maravilhoso, imaginação progidiosa e narrativa envolvente. Ah, os contos do Xacal...