sábado, 18 de julho de 2009

Peixe fora d'água...

foto: blog do Roberto Moraes...

Antes de mais nada, essa não é uma reclamação que busca a estreiteza, e ignorar que o PT, hoje, mantém uma intensa interlocução com os setores empresariais...

Lá se vai o tempo, quando os petistas tinham urticárias desses ambientes, como o auditório da ACIC, e em contrapartida, essas entidades de classe nunca imaginariam receber a legenda da estrala vermelha em suas dependências, para o que quer que fosse...

A presença de lindberg farias na acic, para um debate com a militância sobre sua pré-candidatura é um exemplo do dinamismo de nossa democracia, é verdade...

Mas não deixa de causar certo incômodo, quando assistimos um evento dessa impostância, afinal pela primeira vez o PT no RJ tem uma candidatura digna desse nome, ainda que não seja para valer, se apresentar a comunidade campista pelo viés de classe do empresariado e não dos trabalhadores...

Sindicatos como o dos Comerciários, Petroleiros, dentre outros, deveriam SEMPRE ser a alternativa primeira para reuniões desse tipo...Isso para não mencionar os bancários, categoria da base do presidente petista local...
Empresários, industriais e comerciantes sempre serão bem-vindos, mas há uma diferença quando recebemos em "nossas" casas(as "casas" dos trabalhadores e movimentos sociais), e quando somos "recebidos" em territótio alheio...

Ou alguém imagina, como me confidenciou uma grande e felpuda raposa política petista, que esses detalhes não mais importam...? Acabou a luta de classes...?
Não é isso que leio nos jornais...!

Se é verdade que essa luta de classes se expressa de outras formas, ignorar a sua existência é condenar a classe trabalhadora e os setores menos privilegiados ao eterno papel de coadjuvante da História...

Isso se torna mais grave quando temos um operário-torneiro-mecânico na Presidência...

Sinceramente, com todo respeito a acic, e outras entidades patronais, evento de pré-candidato petista nesses locais é totalmente fora de propósito...

19 comentários:

Anônimo disse...

O Grande Espetáculo da Farsa

Maria Lucia Victor Barbosa


Não há dúvida de que o PT surpreendeu enormemente, sobretudo, em dois aspectos. O primeiro refere-se á diferença entre o discurso e a prática no que tange a macroeconomia. Depois de décadas de oposição ferrenha ao que era considerado como forma monstruosa do capitalismo como o FMI, a Alca, o neoliberalismo, a globalização, além do ódio aos Estados Unidos, ao alcançar a presidência da República o PT se converteu à economia de mercado de forma ortodoxa.

Tal comportamento de antigos adeptos do socialismo trouxe a banqueiros, empresários e investidores um grande alívio, mas desconfianças capitalistas ainda repercutiram em 2003, ano cujo crescimento foi zero. Era a herança maldita do próprio PT.


Em 2004 o governo petista já havia conquistado a confiança dos mercados para horror de parte dos militantes e parlamentares. A expulsão de dissidentes, arquitetada em moldes stalinistas pelo então todo-poderoso “primeiro-ministro” José Dirceu deu início ao processo de desintegração da sigla, e o nascente PSOL da senadora Heloísa Helena começou a atrair petistas insatisfeitos e desiludidos com o que entediam como farsa.



Havia também abundantes escândalos iniciados com Waldomiro Diniz. Foram todos abafados, como foi silenciado o assassinato de Celso Daniel. Pairando atrás do prefeito petista a sombra de uma máfia enquistada na prefeitura, que achacava empresários do transporte coletivo. Ao se queixar do pagamento de R$ 40.000.00 mensais aos cofres municipais de Santo André, uma empresária deve ter lido nos jornais o comentário do presidente Luiz Inácio: “quarenta mil é troco”. Estranha afirmação do mais importante integrante do partido da ética.

Com a mudança da presidência do STF e a nomeação de novos juizes, o governo ser fortaleceu através do Judiciário. Outro traço chavista. Entretanto, a vitória de Severino Cavalcante para a presidência da Câmara abalou o domínio do Executivo sobre Congresso e esfacelou a base aliada.

Mais terrível, porém, foram as denúncias do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) com relação ao mensalão e outras maracutaias. Ministros e dirigentes do PT foram atingidos. Caiu primeiro José Dirceu, enquanto Gushiken foi escondido debaixo do tapete. Caiu Genoino por causa de uma cueca cheira de dólares. Caíram outros importantes dirigentes do PT.

No momento a CPI vira suas baterias contra Marcos Valério, instrumento do mensalão. É pedida sua prisão preventiva e o bloqueio de seus bens. Os mandantes de Marcos Valério continuam tão livres, leves e soltos quanto Waldomiro Diniz, quantos os assassinos de Celso Daniel.

De repente, descobre-se um tucano e um membro do PFL supostamente envolvidos em caixa 2, aliás, justificada pelo presidente da República em entrevista concedida em Paris. Alegria no Palácio da Alvorada: vamos investigá-los e fazer com que se esqueça do que nós fizemos.

Na continuidade da farsa, o presidente da República parece ter descido de uma nave espacial. Nada sabe, nada viu, nada ouviu. Ele continua a fazer o que gosta, além de viajar: discursos, agora em tom ainda mais populista. Qual novo Hugo Chávez, Luiz Inácio se volta para as massas proletárias e clama contra as elites que ajudaram a elegê-lo e que o sustentam no poder. Seria esse o comportamento de um empresário responsável ao saber que funcionários de sua empresa estão roubando seus clientes? Sairia esse empresário na rua ou aceitaria participar de encontros sociais?

Justiça, porém, seja feita. O PT como oposição foi fantástico. Como governo é o maior espetáculo da farsa já havido em nossa história, pois tendo gerado o governo mais corrupto de todos os tempos se apresenta como inocente. Muita gente acredita.

Anônimo disse...

O LINDEBERG FARIA fazia parte daquele grupo de "radicais" do PT, como Heloísa Helena, Babá, e outros.

Os que possuiam caráter e ombridade foram expulsos do PT, o Sr. LINDEBERG FARIA continuou no PT.

Preciso dizer a razão de sua escolha ?

Seria interessante dizer qual foi o acordo que O LINDEBERG ajeitou com o PT para romper com Heloísa Helena: ser candidato a prefeito de Nova Iguaçu; não vale nada!

Provisano disse...

É Xacal, os tempos mudaram... vale hoje o pragmatismo em detrimento de valores ideológicos de outrora.

Em priscas eras, como bem dissestes, a porta de entrada seria algum sindicato de trabalhador mas, o viés hoje é outro, vale mais como disse o pragmatismo só que, dinossauro que sou, assim como cachorro mordido de cobra, tenho medo até de lingüiça (assim com trema).

Sou saudosista sim e também meio supersticioso, acho que essa (pré)campanha começou com o pé errado (o pé-direito, no caso do PT, deve, qualquer campanha, começar com o pé-esquerdo é o mínimo que se espera de um partido de esquerda).

Não vai dar certo, é capaz de nem acontecer, conforme sua análise, deve ser uma candidatura só para inglês ver, mas, esperemos o desenrolar dos acontecimentos para ver no que vai dar.

Na minha rasa opinião, essa seria uam candidatura interessante para o crescimento da legenda do Partido dos Trabalhadores, que sofreu, à nível nacional, desgastes naturais pelo exercício do poder via os dois mandatos de Lula.

Anônimo disse...

"Ou alguém imagina, como me confidenciou uma grande e felpuda raposa política petista(...)"

Uma raposa me leva a outra!

Raposa Serra do Sol

Seria interessante lembrar que(durante seu mandato de deputado federal) o ícone do movimento estudantil Lindeberg Farias, ex-cara pintada, ex-presidente da UNE, ex-comunista do PC do B, ex-radical do PT, ex-quase-Psol, ex-deputado federal e atual prefeito de Nova Iguaçu, Rio de Janeiro, foi relator de uma comissão parlamentar sobre a terra Raposa Serra do Sol, onde apoiou a meia dúzia e arrozeiros e a politicagem anti-indígena de Roraima.

Pela direita, já se espera tal comportamento, mesmo com o nosso sentimento de indignação! Do Oiapoque ao Chuí, em uníssima voz ideológica e em nome do desenvolvimento, as elites são radicalmente contrárias ao reconhecimento dos direitos da maioria da população excluída e marginalizada. E vão mais além, agem para retirar qualquer possibilidade de direito à terra, emprego, salário digno e assistência.

Mas, o que não se espera é posições direitistas de personalidades que construíram sua trajetória política arrotando compromisso com os pobres, transformação da sociedade e dizendo-se defensor dos direitos da maioria dos cidadãos.

Anônimo disse...

SAUDADE NÃO TEM IDADE

Cara pintada, cara pálida ou cara de pau?

O relatório do deputado federal Lindberg Farias (PT/RJ), que propõe decepar 45% da Terra Indígena Raposa/Serra do Sol, habitada há vários séculos pelos índios de Roraima. Ele alega que parte dessa terra deve ficar com os fazendeiros e plantadores de arroz, que a invadiram muito recentemente, porque “eles são responsáveis por 60% da produção agrícola local”. Considera ainda que a posse da terra pelos índios constitui “um perigo para a soberania nacional”, copiando dessa forma o discurso dos militares na época da ditadura.


O deputado federal, eleito pelo Partido dos Trabalhadores, cujo programa defende claramente o direito dos índios sobre o seu território, mudava de lado e passava a representar o interesse dos grileiros, dos grandes fazendeiros e dos invasores das terras indígenas. O que é que ele ganha rasgando o programa do seu partido, traindo seus eleitores e prejudicando um dos setores mais frágeis e mais injustiçados da sociedade brasileira?

Anônimo disse...

Não sendo Garotinho ou Cabral, poder vir qualquer outro,pois esses dois governarão o RJ durante 12 anos, chega de continuismo.

Marcos Valerio disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Xacal disse...

bom, eu até gostaria de responder uma a uma cada sandice escrita, mas vou me ater aos comentários que julgo mais pertinentes para enriquecer o debate democrático:

os debates sobre a demarcação da reserva raposa do sol são interessantes, embora superados...o governo decidiu e a corte suprema, o stf, já pacificou a questão...

o que precisamos é evitar o discurso canalha dos que querem promover a grilagem e invasão de terras amazônicas de um lado, e de outro, o discurso pseudo-ambientalista, que na verdade só deseja imobilizar nossas possibilidades de explorarmos as riquezas do subsolo...é disso que se trata aquela terra...o resto é conversa de boa-noite no JN...

essa questão(da ocupação da Amazônia)ainda renderá muita polêmmica, e devemos evitar os simplismos...

já quanto a questão do purismo ideológico, alegado pelo sérgio provisano, tenho a dizer que: meu caro sérgio, não há espaço para se fazer politica sem ceder e admitir que alianças terão que ser feitas com todos os setores da sociedade...

acho que o PT não fez mais nem menos do que poderia...

se queremos discutir o fim da militância política aguerrida, ideológica e enganjada, é preciso discutirmos o fim dessa manifestação(a militância), que foi substituída pela "industrialização das campanhas eleitorais", com a irrigação permamente de dinheiro nos processos eleitorais...

quando me queixo da apresentação do pré-candidato na acic estabeleço um contraponto a correntes do partido que tendem "naturalmente" a cortejar esses setores patronais, como se quiséssemos sempre nos justificarmos por existirmos e sermos de esquerda: quase um complexo de culpa, que exige sempre um pedido de desculpas...

mas não duvido da seriedade dos companheiros...eles só tem uma visão distinta do processo político, a qual eu respeito, porém não concordo...

um abraço, e obrigado pelo comentário...

quanto aos idiotas com essa lenga-lenga de mensalão e o governo mais corrupto da história, nem merecem tegiversação...

quando trouxerem alguma crítica séria e consistente, estamos aí para debater...

só um detalhe: o pt não se elegeu rompendo com suas bandeiras históricas: foi a socieade brasileira que disse o que queria do pt...ou alguém se esqueceu que perdemos três eleiçõs quando apresentávamos um programa "revolucionário"...?

a mudança programática do pt foi explicitada a sociedade na carta aos brasileiros, e no amplo espectro de alianças articulado para a chegada ao planalto...goste-se ou não...

já disse e repito: todos do pt,pelo menos a maioria, gostaria nde alianças com os "puros"...mas o problema que eles só servem para passeatas...para a governabilidade mesmo, nada...não avançam e não elegem deputados, portanto, só podemos utilizá-los como "grilos falantes", ou nossa voz da consciência crítica...

para garantir votos no Congresso, temos que "beijar" a mão dos conseradores, pois a proposta "limpíssima" e "imaculada" de nossos pessolistas e outros vanguardistas ainda não atingiu as massas...será por que...?

ahh, deve ser porque de vez em quando, um vestal, como o gabeira, é pego com a mão na massa...

aí, como não detém outro capital político para além do moralismo udenista, morrem de inanição e vergonha...!

um abraço...

esse projeto que foi e continua a ser chancelado com a maior popularidade da história...e com resultados econômicos que blindaram nosso país maior crise econômica desde 1929, enquanto os "doutores" do demotucanato quebrarm o país em três oportunidades, sem que essas crises chegassem nem perto da que se enfrenta hoje...

Provisano disse...

Xacal, não há o que agradecer, comentar no seu blog, é sempre um desafio, pois suas postagens quase não deixam margem para comentários, a não ser que eles sejam em direção oposta à sua forma de enxergar o tema.

Concordo com a questão central do post e, devo repetir, que minha colocação não foi no sentido puro e inocente de que só devemos fazer política com uma ótica apenas ideológica. Hoje, os tempos são outros, admito. Qualquer partido que almeja o poder (e isso é o que todos, sem excessão querem) tem que fazer aliança ou alianças mas, mantendo o foco de que deve haver limites éticos para reger essas alianças.

Esses anos que Lula vem governando, houve avanços sociais indiscutíveis, com a redução de forma bem visível dos abismos sociais que existiam entre os mais e os menos favorecidos.

Visões de setores mais conservadores da sociedade que gostariam de que esses abismos se aprofundassem cada vez mais, para terem mais controle sobre essas camadas da população, a fim de se perpetuarem no poder e aumentarem mais suas riquezas, levam a, sempre que possível, "requentarem" essas denúncias, muitas delas que já tiveram suas soluções decidadas à nível do judiciário e portanto não cabe mais discussão.

Outras que não tiveram continuidade, são, para mim, até prova em contrário, fofocas, boatos, escândalos pré-fabricados com o fim de criar factóides e dificuldades para quem governa.

Isso para mim, não é fazer oposição de forma consciente, ética, com debates de temas que envolvam o interesse público.

Anônimo disse...

Xacal,
Se os comentários viessem de fato de puros, eu diria: "Aos puros o reino do céu"...
No entanto, eles vêm de oportunista, ora querendo promover siglas, ora usando análises econômicas para esconder uma enorme dor de cotovelo, fruto da incapacidade de se mostrar como alternativa de qualquer natureza, inclusive ideológica.
Nesse caso eu só posso dizer: QUE SACO!!!

Anônimo disse...

Gente, será que o Lindberg veio convidar Hélio Anomal como o Vice dele. já perdeu as eleição!

Xacal disse...

caro comentarista das 00:03, de hoje...

não há pretender "comentários puros", pois cada argumento leva em si um interesse, qualquer que seja, e que deve ter a medida de sua legitimidade definida pela veracidade ou não dos fatos...

ou seja, é claro que todos têm o direiro(e até o dever) de criticar o governo lula, ou qualquer outro qualquer...

o que devemos evitar é o cinismo de desancar uns, e tentarmos esconder as mesmas falhas dos que gozam de nossa simpatia, e ou preferência...

esse é o problema...

creio que um debate democrático passa pela discussão de todas as possibilidades...

as alternativas de poder são verdadeiramente consolidadas quando expomos suas fraquezas para dirimí-las...

o elogio pelo elogio só produz aberrações como os napoleões da lapa, ou os telhadeiros de vidro...

um abraço...

Anônimo disse...

Xacal, ontem, lendo o blog de Josias de Souza, me deparei, especificamente com a nota "Aviso....", com a extrema semelhança coma forma de visão que voce tem.
Acredito que valha a pena dar uma olhada.
Aquele abraço.

Xacal disse...

talvez a única semelhança, seja o tom ácido dos textos...

mas os propósitos(embora eu não conheça os dele)sejam diferentes...

aqui se trava luta política...por lá, o ofício de desqualificar essa luta política...

mas o que pude observar é que há um blog que é conhecido por "copia e cola", que retira boa parte de "sua matéria-prima" do blog do josias, e não cita a fonte...

em escroque mesmo...

atendente de telemarx disse...

Valério Arcary
Historiador, professor do Cefet/SP

A tendência objetiva da evolução capitalista para tal desenlace (uma crise última) é suficiente para produzir muito antes uma tal agudização social e política das forças opostas que terá de pôr fim ao sistema dominante […] Se, pelo contrário, aceitarmos, como os “especialistas”, que a acumulação capitalista pode ser ilimitada, desmorona para o socialismo o solo granítico da necessidade histórica objetiva. Nós nos perderíamos nas nebulosidades dos sistemas e escolas pré-marxistas, que queriam deduzir o socialismo unicamente da injustiça e perversidade do mundo atual e da decisão revolucionária das classes trabalhadoras. (Rosa Luxemburgo)



A crise econômica deu um salto de qualidade em 2008, com a falência do Lehman Brothers e a confirmação de que os EUA estavam atravessando a mais séria recessão desde os anos trinta do século XX [1]. A quebra do Lehman Brothers detonou uma semana de pânico no mercado financeiro mundial, e esteve na raiz da decisão do governo Bush de intervir, nas semanas seguintes, na seguradora AIG. Na seqüência, o secretário do Tesouro dos EUA Paulson anunciou, também, uma intervenção nas empresas Freddie Mac e a Fannie Mae, duas das maiores empresas de financiamento imobiliário, porque seriam “grandes demais para quebrar”.

Todos os indicadores econômicos, do primeiro trimestre de 2009, sobre a retração da atividade industrial, redução do comércio mundial e resgate estatal emergencial de corporações ameaçadas de falência, como a General Motors – entre outras – e bancos como o Citi Group – entre muitos outros – permitem concluir que se trata da recessão mais séria depois do final da Segunda Guerra Mundial. Quando a crise é inserida nas hipóteses de cenários previsíveis, liberais e keynesianos não descartam a possibilidade de uma depressão mundial. Economistas insuspeitos quanto a antipatias pelo capitalismo, como Joseph Stiglitz e Edward Prescott, admitem que a economia norte-americana pode ter pela frente uma década inteira de estagnação, como o Japão nos anos noventa [2]. Os marxistas não podem ser, portanto, acusados de catastrofismo.

Ainda assim, as hipóteses que este texto defende podem ser consideradas incômo-das por aqueles que acreditam que o capitalismo sempre conseguirá ampliar os seus limites históricos. A possibilidade de capital realizar as reformas que garantam a regulação do sistema reduziu-se e é, hoje, mais difícil que no passado. O “relógio” da história – as forças de inércia que mantém a estabilidade do sistema muito tempo depois que ele entrou em decadência – pode adiar a sobrevida do capital, porém, não indefinidamente. A crise mundial confirma que socialismo permanece mais necessário do que nunca. Nunca houve, portanto, revoluções prematuras. Nenhuma ordem política-econômica sucumbe antes que as condições sociais de seu colapso estejam maduras. A revolução política e social chega sempre, na verdade, atrasada ao seu encontro com a história. Mas, não porque as revoluções sejam retrógadas. Ao contrário, as revoluções são o recurso que os sujeitos sociais explorados e oprimidos recorrem para impor as mudanças, quando as reformas revelam-se impossíveis. A revolução social contemporânea, as primeiras revoluções da “maioria”, como cunhou Engels, mesmo quando parecem protelar os seus prazos, são sempre pioneiras daquilo que virá.

atendente de telemarx disse...

Desemprego ou inflação?
O epicentro da crise continuam sendo os EUA, mas o contágio global foi fulminante e atingiu a Europa e o Japão, já no segundo semestre de 2008. O Brasil não foi poupado e aqueles, que se dedicaram durante meses a defender a tese do descolamento, refugiam-se, discretamente, no elogio da redução das taxas de juro pelo Banco Central, confortando-se com o argumento de que poderia ser pior. O quadro já é suficientemente grave, contudo, para colocar na ordem do dia a discussão sobre o futuro da atual ordem mundial.

O mais importante, como ponto de partida de uma análise séria, é que a crise confirma o prognóstico marxista sobre os limites históricos do capital. A crise é um processo de regulação destrutivo. É um processo, também, cego, porque incontrolá-vel. Em outras palavras, a própria crise é a demonstração de que o capitalismo não é regulável. Não se trata somente da desvalorização de capitais fictícios: ações depreciadas, créditos irrealizáveis, títulos inegociáveis. A recessão é um ajuste que exige destruição de forças produtivas, portanto, desperdício de capital imobilizado em fábricas e desemprego em massa para que o sistema encontre de novo um equilíbrio interno.

A propaganda de um capitalismo invencível, trombeteada nos vinte anos que nos separam da queda do muro de Berlim, desmorona como um castelo de areia. A gravi-dade da crise já mudou a relação de forças entre as classes. Derrota de Bush nos EUA, rebelião juvenil culminando com greve geral na Grécia, greve geral de um mês em Guadalupe, mobilizações de massas em Madagascar, mobilização de massas dos profes-sores em Portugal, dias de greve geral em vários países da Europa, resistência operária contra o desemprego com ocupação de fábricas, são sintomas das mudanças.

atendente de telemarx disse...

Está ameaçada a supremacia dos EUA no Sistema Internacional de Estados?
A indústria dos EUA diminuiu, proporcionalmente, o seu peso no mercado mundial em comparação ao período do pós-guerra. A evolução desfavorável desse indicador, entre outras variáveis, tem alimentado discussões sobre o seu declínio relativo, e a capacidade maior ou menor dos EUA manterem a posição de supremacia no sistema internacional de Estados. Wallerstein, Arrigui, e Gunder Franck, entre outros, defenderam que uma lenta decadência da hegemonia norte-americana teria se inici-ado nos anos setenta [7]. No entanto, em comparação com a etapa política entre 1945-89, o papel dos EUA como defensor da ordem imperialista desde 1991, aumentou, como se verificou nas guerras dos Bálcãs, do Afeganistão e do Iraque.

A responsabilidade que cabe a Washington na coordenação internacional da resposta à crise, preservando o privilégio de ser o Estado que pode emitir a moeda de reserva mundial, será colocado à prova. As vantagens relativas dos EUA, a partir de 1945, explicam a sua superioridade no sistema de Estados e Obama não deixará de defendê-la, a qualquer custo. Em primeiro lugar, os EUA ainda são, comparativamen-te, a maior economia nacional. Sua produção industrial deixou de corresponder a metade da capacidade mundial instalada como em 1945, mas seu PIB de estimados US$14 trilhões em relação a um PIB mundial de aproximadamente US$55 trilhões corresponde a mais de um quarto da riqueza mundial.

Não obstante, esse recuo relativo foi compensado pela importância do seu capital financeiro. Ela é avassaladora: o capital financeiro dos EUA opera em escala mundial e seus fundos de investimentos controlam corporações em todos os continentes. Controlam parcelas gigantescas dos PIBs das maiores economias do mundo, em espe-cial, na China. No entanto, a estabilidade do sistema de Estados que garante a segu-rança dos negócios é muito menor do que antes de 1991. A restauração capitalista na ex-URSS e na China foram derrotas do proletariado mundial – derrotas históricas, em especial, dos trabalhadores russos e chineses. Mas, paradoxalmente, o sistema de Estados era mais estável entre 1945 e 1989/91, porque os condicionamentos da coexistência pacífica induziam movimentos como a Organização pela Libertação da Palestina, a OLP, nos territórios ocupados por Israel, ou partidos leais a Moscou, como na França e na Itália, a cumprirem um papel de preservação da ordem política.

Não existem, contudo, possibilidades para uma renegociação do alcance de Bretton Woods [8], ou seja, a refundação de um novo sistema monetário internacional. Não existem, porque não interessa a Washington, e sua liderança permanece intacta. Não haverá refundação do capitalismo. Não haverá New Deal nos EUA [9]. O plano de trilhões de Obama não é senão um Proer para salvar o capital financeiro de Wall Street.

Nenhum Estado, na história do capitalismo, renunciou às vantagens de sua posição dominante no sistema mundial sem imensas resistências. As lutas dentro do sistema europeu de Estados pela hegemonia levaram Amsterdã a entrar em guerra com Londres no século XVII, Londres com Paris no XVIII, Paris com Berlim no XIX, e Berlim com Londres no XX. As Províncias Unidas – hoje a Holanda – aceitaram um papel complementar com a Inglaterra, depois de perderem três guerras: selaram o acordo quando, depois da chamada revolução gloriosa, a última herdeira Stuart se casou com um príncipe holandês, que nem sequer sabia inglês [10]. Portugal aceitou um papel de submetrópole inglesa, desde o Tratado de Methuen, nos primeiros anos do século XVIII [11]. A orgulhosa Grã-Bretanha aceitou um papel associado aos EUA, depois das duas guerras mundiais do século XX.

atendente de telemarx disse...

Assim como a desigualdade entre as classes, em uma nação, explica a luta de classes, a disparidade entre os Estados explica uma inserção mais ou menos favorável no mercado mundial. Uma luta constante dos Estados, para preservar ou ganhar posições relativas, uns em relação aos outros, e das grandes corporações, umas contra as outras, foi o centro dos conflitos internacionais dos últimos dois séculos. Uma das obras do capitalismo foi a construção do mercado mundial, a partir do século XVI. Ao longo deste processo foi se estruturando um Sistema Internacional de Estados, a par-tir da organização pioneira de um sistema europeu de Estados. Depois, o sistema as-sumiu dimensões mundiais. Um sistema é um conjunto, em que o todo é maior que a soma das partes. A medida da saúde do sistema não é, no entanto, dada pela força do capitalismo nas suas fortalezas históricas, os EUA, por exemplo. Nenhum sistema é mais forte do que seu elo mais fraco.

atendente de telemarx disse...

Assim como nos anos trinta, a vaga revolucionária anti-imperialista do pós-II guerra, que sacudiu a Ásia e a África, na luta pelas independências nacionais, levou ao poder regimes, como o de Nasser, no Egito, ou o de Ben Bella, na Argélia, que preservaram o capitalismo, mas procuraram se apoiar na mobilização nacionalista popular, por um lado, e, de outro, na presença da URSS, no Sistema Internacional de Estados, para conquistar espaços mais independentes.

A onda de revoluções, que sacodiu a América Latina, entre 2001/2005, reabriu, necessariamente, discussões estratégicas sobre o futuro da luta socialista. Partidos associados aos ajustes neoliberais da década de noventa foram, uns após os outros, sendo derrotados, levando ao poder Lula no Brasil, Evo Morales na Bolívia, Daniel Ortega na Nicarágua, Rafael Correa no Equador, além da reeleição de Hugo Chávez na Venezuela. Fernando Lugo foi eleito no Paraguai. O processo de luta de classes que permitiu derrubar mais de dez presidentes eleitos na América Latina, mas foi absorvido, até o momento, nos limites dos regimes democrático-eleitorais, poderia avançar até que limites? Governos nacionalistas, com políticas sociais compensatórias, poderão estabilizar os seus países, mesmo depois que se inverteu a tendência do ciclo econômico e que a crise mundial precipita o continente em uma nova recessão generalizada? O capitalismo andino de Morales não deverá ter um futuro muito superior às experiências dos governos militares no Peru, no início dos anos setenta. Chávez não parece querer ser um novo Fidel. As diferenças entre o castrismo dos anos sessenta e o chavismo remetem à relação de forças no Sistema Internacional de Estados. Cuba não pode ocupar, face à Venezuela, o papel que a URSS ocupou em relação a Cuba. Ao contrário, é tal a fragilidade de Cuba, que os planos de restauração capitalista “a la chinesa”, em Havana, fazem a pequena ilha do Caribe que alimentou tantas esperanças depender, crescentemente, da Venezuela.