terça-feira, 7 de julho de 2009

TrOLha revival...

Aí vai outra amostra da série retrospectiva-introspectiva(uii...)da TrOLha...

Esse aí é um dos primeiros contos publicados pela TrOLha...Reproduziremos também, e é claro, a reação dos treze leitores(as), que à época, eram muito menos, mas não menos importantes...

SEGUNDA-FEIRA, 3 DE MARÇO DE 2008

Revelações...

Aquela manhã de sábado prometia...
Um sol para cada um, perfeito para uma visita à praia...
Essas lembranças exauriam sua paciência...Junte-se a tudo isso a necessidade de acordar cedo, e a fome do jejum, exigidos pelo exame de sangue...Havia um clima de descontentamento no ar provocado pela leniência dos atendentes do laboratório, que também pressentiam o dia de lazer perdido em favor das obrigações profissionais...O ruído de seu estômago quase podia ser ouvido por todos...
Quando nada parecia apontar para um desfecho agradável, eis que entra ela...
Cabelos ruivos longos umedecidos, e soltos, que sugeriam um banho recente...Pele branca sob um vestido verde, solto o suficiente para não tolher aquele andar, e marcante para delinear formas generosas...As costas nuas, salpicadas por sardas que conferiam um ar juvenil, que era ressaltado por um rosto expressivo onde estavam cravejadas esmeraldas que lhe serviam de olhos...
A mulher não era excepcional, mas dadas as circunstâncias era uma presença incomum...Uma exceção àquela monotonia matinal...
Durante os momentos seguintes deu-se o jogo mental de olhares disfarçados, para evitar uma rejeição e também o desaconselhável encontro com a reprovação do marido que a acompanhava, como um apêndice incômodo...
Enquanto esperava sua vez de ser atendido pode ouvir quando ela se aproximou da atendente ao balcão todos os dados de Sandra, como o telefone e o endereço...E mais, pode sentir aquele cheiro de mulher recém-asseada que seus cabelos já tinham denunciado...Como o lugar comum dos escritores aquilo era um hálito de sensualidade comportada...
Como se por encanto até seu pavor de agulhas e exames de sangue sumiram naquela presença "luxuosa e luxuriante"...Foi despertado pelo chamar do painel de senhas...Cumprido o ritual de atendimento, retornou e não mais viu Sandra...
A sua imagem o acompanhou até em casa, e martelou em sua cabeça por dias à fio...Imaginou um telefonema, arquitetou planos e estratagemas...Lances e contra-lances como um xadrez onde a conquista daquela rainha fosse o único objetivo...
Sua condição de policial, que servia na Delegacia da cidade permitia uma aproximação a pretextos diversos. Ora uma falsa intimação, ou até melhor: uma visita para perguntas sobre um suposto crime nas redondezas de Sandra...
Com o andar do cotidiano, aquela idéia fixa foi esvaindo como areia de uma ampulheta...Apenas uma mancha de memória, guardada no baú do desejo incosnciente...nada mais...
Mas o improvável rodrigueano resolvera lhe visistar naquele plantão exaustivo de terça-feira...
Após inúmeros atendimentos e registros, com a formalização automática e impessoal de toda sorte de desgraça humana, sua noção de realidade estava tão turbada que nem percebeu Sandra no balcão, a esperar sua vez de atendimento...Mas os sentidos primitivos que alimentam a percepção dos apaixonados denunciou sua presença pelo cheiro inconfundível, armazenado nos recônditos de sua lembrança...Naquele flashback, uma torrente de adrenalina percorreu o corpo numa velocidade e intensidade tanta que doeu-lhe até os rins, e fez um enorme esforço para conter a animação e trazer Sandra até sua mesa para atendê-la, sem que os outros pudessem denotar seu interesse exagerado...Esforço inútil, mas quem se preocupava?
Além da excitação da presença de Sandra, havia ainda, a curiosidade que corroía sua razão...
-O que a trouxe aqui? Perguntou de uma forma tão sincera, que a sentiu corar...O tom da sua voz devia tê-la acuado, como se a estivesse despindo...Recuou, e retomou uma postura mais profissional, que afinal de contas, fornecia o álibi para uma aproximação e uma defesa segura para o caso de uma rejeição...
Ouviu com atenção o relato de Sandra, e soube o que já pressentia, e no fundo, até torcia para que fosse: um estremecimento conjugal, levado a cabo por uma discussão mais áspera e algum tipo de ameaça...
Um companheiro de profissão já lhe dissera que os momentos de maior fragilidade tornam as mulheres "presas" fáceis: Hospitais, velórios e delegacias eram os ambientes perfeitos para uma cantada, por mais mórbido que pudesse parecer...Abjetava aquela idéia, mais por culpa "cristã" do que pela oportunidade de rejeitá-la em uma situação real como aquela...E na prática a teoria é outra...Da Delegacia para o primeiro encontro não se demorou...E todos os encontros eram como se fosse o primeiro...O problema conjugal que afastara o marido viera a calhar...A flexibillidade de horários que sua profissão permitia também...
Nesses primeiros momentos de um casal, a forma de auscultar e descobrir o outro é muito mais pelo tato do que pela palavra...E que procura deliciosa...Tão boa que nem fazia sentido encontrar nada, desde que a procura continuasse...
Nunca havia mencionado o primeiro "encontro" naquele sábado, e por mais tolo que parecesse...aquela pequena infidelidade assumia contornos trágicos no pensar paranóico dos amantes recentes...Imaginava imperdoável esconder todo o "modus operandi" que arquitetara, e mesmo com aquele breve intervalo de "esquecimento", até a ida de Sandra até a Delegacia, não o eximira de culpa, que crescia e entalava como um bloco de concreto no esôfago...Percebia em Sandra também um ar cúmplice, como se também escondesse algo, ou ainda, fizesse algo errado...Atribuía tudo isso ao casamento em crise, e uma possível lembrança de seu compromisso conjugal ainda mal acabado...Essa percepção incomodava pelo ciúme, mas reconfortava por equiparar ele e Sandra na categoria de pequenas infidelidades...
Tinha resolvido, naquela tarde contaria a Sandra, desde que ele revelasse o que ela trazia sob segredo...Uma troca, um jogo da verdade...O problema é que nem sempre estamos preparados para a verdade...
Enquanto Sandra tomava banho, percebeu um envelope com o timbre do Laboratário, e imaginou ser o resultado do exame que Sandra havia feito quando a viu pela primeira vez...O envelope ali fortaleceu sua necessidade de contar, e forneceu uma entrada para o assunto...Mas também aguçou sua curiosidade...Seres humanos são por natureza curiosios, agora imagine um que exerça a curiosidade como instrumento de profissão...
Não resistiu e abriu o envelope...Não acreditou, leu, releu...como se quisesse mudar o conteúdo do que estava escrito...Não tem idéia de quanto tempo ficou a mirar o papel, e não percebeu que Sandra o olhava...
Seu desespero, seu ódio, medo, impotência se acumulavam como a imobilizar qualquer reação...Isso era o mais próximo do estado catatônico que havia experimentado...
Não entendia como a mulher que imaginou como a mulher de sua vida até o fim, tinha lhe trazido o fim da vida...Sandra estava contaminada com o vírus da AIDS, e lembrava ter ouvido longe sua voz a dizer que a contaminação chegara pelo marido, e esse era o motivo da separação...Ouviu, ou pensou ter ouvido, e isso não importava mais, que Sandra, no início pensou em revelar tudo, mas ela não sabia explicar o fascínio que a possibilidade de condenar outro a morte lhe causou, um verdadeiro beijo da morte...uma dádiva...Sandra ainda relatou, metodicamente, como se estivesse em um depoimento, que esperava uma reação fatal do companheiro que estava prostrado à sua frente, já com a arma na mão...Nada mais justo, comentava..."Eu tirei sua vida"... dizia ela, nada mais justo que tire a minha.
A equação apresentava um resultado perfeito, expresso nos sinais dos tiros que adicionaram dois corpos a eternidade....

3 COMENTÁRIOS:

FÁBIO SIQUEIRA disse...

Muito bom Xacal!
Ando meio inclinado a testar algo parecido. Não sei se falta tempo ou disposição - ou coragem?
Acho que vc me animou, embora não sei se terei tanto talento.
Continue a escrever, mas não publique tudo aqui! Deixe algo pra ser publicado pelo alter ego.
Ouvi hoje de uma doce criatura que a Literatura pode ser fortemente transformadora - talvez mais que a política (o adendo é meu!)
Sucesso e parabéns pelo texto!
Abraço.

InTheLight disse...

Grande Xacal "Fonseca",

Belo texto. Daria um roteirinho bacana. E essa Sandra... que gostosa...E filha da puta...
Enfim, que mulher!!!

Xacal disse...

Caros amigos,

Muito grato pelos comentários generosos...Veremos se o raio cai duas vezes no mesmo lugar...


2 comentários:

Ava disse...

Juro que achei que vc era profesor de matemática...

Mas vejo que não...rsrs

Nem sempre sonhamos o possível...

E nm sempr amamos o possível...rs

Xacal sempre odiei a frase " falta de tempo..."

Hoje me vejo assim...

Não tenho tempo para ler seu conto agora...

Mas volto a noite para ler...

Beijos!

Raskolnikov disse...

"É um mundo arcaico de vastas emoções e pensamentos imperfeitos!"