quinta-feira, 16 de julho de 2009

TrOLha Revival...

Mas um conto da série retrospectiva da TrOLha, nessa semana, onde tem nos faltado tempo para atualizar o blog como gostamos...

Então, não resta alternativa, senão agüentar essa falta de talento presunçosa...

SEGUNDA-FEIRA, 10 DE MARÇO DE 2008

Desde muito cedo, desde quando se deu conta de que era gente percebeu o quão apropriado era o nome do local onde nascera e vivera até então...vegetação que se assemelhava ao mangue, e a caatinga...depende da época do ano...Mas a terra é sempre a mesma, arenosa, fofa, como se pronta a soterrar sonhos...Não que os tivesse em profusão, até por falta de imagens para povoar seu inconsciente...Não havia energia elétrica, nem televisão no pequeno sítio onde morava com sua mão, Deosalina, e suas três irmãs...
Seu pai, Amaro, também fazia parte da família, mas ao que se lembra, pouco ficava em casa.
O único contato que mantinham com o mundo exterior era um pequeno rádio, mas pilhas eram artigo de luxo...
Sua mãe dizia que o trabalho de seu pai exigia que ele viajasse muito...depois veio a saber o porquê...A vida seguia seu rumo monótono, como uma roda de engenho, ou uma pá de pilão...dias socados...sufocados...
No fim de semana, a vida assumia algum ar de solenidade, com a ida a igreja, em São Sebastião, na pequena carroça, que também levava os artigos de comércio com os quais a família mantinha seu parco sustento...um porco, umas galinhas, abóboras, aipim, etc.
A escola era uma idéia distante, ainda mais com a ausência do seu pai...Sua mãe não podia dispensar o braço do filho homem na lida...
Seu destino lhe caía como uma sentença...inapelável...E assim cresceu, cumpriu sua pena sem reclamar...
Em um desses domingos de missa, cruzaram com duas mulheres, a mãe, Dona Lourdes e a filha, Rita de Cássia, como soube depois...Não sabe bem definir, mas percebeu no olhar trocado entre as famílias um sentimento poderoso, que se represava pelo cumprimento educado, mas parecia prestes à explodir, como um estouro de boiada...
Seu modo soturno, arredio dificultava a tarefa de perguntar à mãe sobre aquelas mulheres, e principalmente Rita de Cássia...
Mas perguntou, assim de modo meio vomitado, expelido, como um coice...Não sabe se foi por isso que sua mãe desconversou, não sem antes lhe dizer:
-"Deixa de bestera, cuide de sua vida, e não se engrace com aquela gente..."
Foi o suficiente para tornar uma atração em obsessão...Agora aquele movimento dos animais na "cruza" parecia estremecer seu corpo...
Não tardou e deu um jeito de se encontar com Ritinha...foi através de sua irmã, que estudava com ela...
Aquela semana, a espera pelo domingo de missa assumia novos contornos...a rotina diária parecia que "atrasara o passo"...
Quando viu Ritinha em vestido novo, de cabelo preso com laço de fita rosa, por um momento pareceu que sua vida não era aquela dali, parecia que alguém tinha revogado sua sina e lhe dado um novo propósito...como se tirasse a "canga" que lhe prendia ao moinho, e lhe deixasserm agora viver só de pasto e sombra...
Soube por Ritinha que a rejeição na casa dela também existia, quase com os mesmos termos...
Nos dias seguintes, com o retorno de seu pai, Amaro, sentiu na pele o ódio que as famílias nutriam entre si...Levou uma surra de "dar bicho" quando seu pai soube do interesse dele por Rita de Cássia, filha de Lourdes...
Naqueles dias que se passaram, o nome Espinho parecia adequado a sua dor...
Próximo a uma nova viagem, seu pai lhe anunciou que dessa vez se faria acompanhar por ele...mesmo sob o choro e protestos de sua mãe...
Amaro resmungou: - Tá na hora de tomar "tenença" de homi...chega desse rabicho na barra de saia de mãe, tem que aprender o ofício...
No lombo do burro seguiu se pai, e a viagem parecia a travessia de uma era...tanto pelo silêncio, tanto pela saudade...
O destino era uma cidade próxima, São Fidélis...lá ficou sabendo o ofício de seu pai...Matador de aluguel...

II

TERÇA-FEIRA, 11 DE MARÇO DE 2008

Espinho (continuação)...

Descobriu então que seu pai ganhava a vida, tirando a dos outros...
Por mais estranho que fosse, não sentiu nada em relação a esse fato...Há muito que a violência era a única linguagem pela qual ele e seu pai se relacionavam, aliás, essa era a única linguagem que seu pai conhecia...Batia nos animais, batia nele, nas irmãs, na mãe, etc...
Foi envolto na poeira da estrada e naqueles pensamentos que chegaram ao destino...Pousaram na margem do Rio Paraíba do Sul, cheio naquela época...Uma torrente barrenta e furisosa rasgava entre as duas margens...
Durante dois dias ficaram a espreita da vítima, os hábitos, a rotina...quando ia na venda, quando voltava para casa, depois do trabalho na repartição, essas coisas...Engraçado, já tinha ouvido falar que a rotina pode matar...é verdade.
No terceiro dia, seu pai escolheu um bom local para tocaia, bem no caminho entre a venda e a casa do sujeito...ficaram ali, em cima de uma árvore...uma bela mangueira...não se lembra quanto tempo, mas pressentia que fora todo tempo do mundo...primeira lição, paciência...quando o sujeito apontou na estrada e ficou no alcance da espingarda winchester calibre .22, herança de família, não teve erro...pá, pou...já era.
Apearam da árvore, caminharam até onde caíra a vítima...segunda lição, conferência do serviço...
Dali retornaram para casa...
Na volta, o único pensamento era Rita de Cássia...como faria para vê-la, diante da resistência das famílias...da proibição de seu pai, e pior, como encará-la depois da descoberta de seu novo ofício... Na primeira chance mandou recado por sua irmã Amaralina...
Domingo, enquanto todos rezavam, ele e Ritinha se encontraram...Ela lhe revelou que sua mãe, Lourdes, lhe contara, depois de muita insistência o motivo da "pendenga" entre as famílias...O pai de Ritinha, esposo de Lourdes fora morto pelo seu pai, Amaro...e além disso sua mãe disse que a tradição "passava" de pai para filho, assim foi com seu pai, e assim seria com ele...
Ritinha chorava, e soluçava uma mistura de ódio e frustração...Ele também queria chorar, mas descobriu que sua alma era tão árida que lhe faltavam lágrimas...
Não sabe em que ponto da "prosa" Ritinha secou as lágrimas, respirou fundo e tascou:
-"Só tem um jeito de eu aceitar sua condição. Você tem que fazer justiça...Matar seu pai".
A proposta em si não lhe assustava, pois não tinha ódio, ou qualquer outro sentimento em relação a seu pai...o que assustava era Ritinha...Aquela doce e meiga criatura revelava sua natureza do Espinho...Sua esperança de que naquele fim de mundo havia um ser vivente que fugisse àquele roteiro afundou na terra arenosa...
Durante dias "ruminou" a prosa com Ritinha...Lembrou da sua mãe, Deosalina, recortada pelo tempo e pela infelicidade de viver com um homem como seu pai...Imaginou seu futuro: casamento, os filhos, a mesma sentença, o mesmo destino...E Ritinha ali mastigando o futuro tal qual sua mãe...
Não teve dúvidas...
Falou com seu pai que precisava do rifle para treinar pontaria...Engraçado, foi a primeira vez que um diálogo com seu pai tomava ares de prosa entre pai e filho...a satisfação de seu pai quase dava para "pegar com mão"...Tamanho era o contentamento, que seu pai até lhe dispensara da missa naquele domingo...
E foi aí enquanto todos rezavam, de joelhos, repetindo com devoção mecânica o latinório do padre, que ele entrou na Igreja de São Sebastião e matou a todos...seu pai, sua mãe, Ritinha e Dona Lourdes...Ainda fez uma prece na igreja vazia, depois do corre-corre...Se o padre tivesse ficado até pediria para se confessar...
Arribou na cavalo de seu pai, e se foi ....arrancou, enfim, o Espinho de sua vida...

5 comentários:

Anônimo disse...

Faça uma coletânea de seus contos, logo teremos pronto, seu livro. Vale a pena. Suas histórias não têm BESTEIRA, apresentam lógicas, apresentam sustentações. Ao descrever os fatos você tem a capacidade de formular na mente do leitor a cena em si( poucos escritores têm essa facilidade). Siga meu conselho: faça um livro de crônicas matinais.

Anônimo disse...

O lugrube desejo da desgraça impregna a alma dos párias; procure em seu ãmago um pouco de humanidade e veras que não fostes abandonado pelo Criador; sua sentença de vida não transitou em julgado, logo é possível que a fresta da porta da salvação se abra para sua alma desiludida e possa demonstrar quão inútil é seu ser (até este momento) e que a coexistência deve exigir respeito as diferenças e condescedência com as falhas alheias. Quanto mais vc acredita estar pleno de razão, mais se distancia da Verdade. Desça deste pseudo pedestal e junte-se à humanidade que não lhe persegue, mas sim lhe aguarda!

Seu irmão!

Xacal disse...

caro comentarista,

obrigado pela sua tentativa de "iluminar" meu caminho...

mas aprenda a distingüir a obra de seu criador...

nunca, nem aqui, nem em lugar algum me arvorei dono de qualquer verdade, ou subi em nenhum pedestal, ou pseudo pedestal, nem tampouco arroguei "salvar" almas, como a soberba e vaidade típica de quem se acha "eleito" para catequizar os outros, enquanto ferve em conflitos...

siga a sua fé, debata o que lhe convier, mas por favor, desça desse pedestal de moralidade e boas intençoes, as quais você bem sabe, o inferno(todos os infernos, o meu e o seu)estao cheios...

os meus prováveis recalques com o mundo e com a humanidade sao meus, e deles nao abro mao, pois imagino que eles é que fazem andar para a frente...

fique tranqüilo, estou satisfeito com o que sou, e talvez isso é o que mais incomode gente como você, que nao se conforma em ser o que é...

um fraterno, racional(sempre)e democrático abraço...

Flávia disse...

Mais vez.....sem palavras!!!Amei!!!

Flávia disse...

Complentando meu comentário, penso como o anônimo de 06:31...vc nos coloca na cena da história!!!Parabéns!