quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Marina, ambientalistas e militantes dos direitos humanos...

Todos já leram aqui o apreço e a admiração que tenho pela senadora Marina Silva...Primeiro, pela sua história simbólica, e a crença que essa história só foi possível em um ambiente como o PT...Depois, pela sua práxis política, sempre coadunada com seus princípios, congruente e firme...

Não há reparos na biografia de Marina Silva...E essa não é uma assertiva-lugar-comum, do tipo neoudenista zona-sul, bem ao gosto dos vestais, como gabeira(passagem p/ os seus...), e outros imbecis, que ao serem despidos de suas "bandeiras éticas", ficam nus...

Frise-se: reconhecer a necessidade de uma agenda política que vá além da defesa e postulados moralistas, não é rasgar esses valores...Mas é constatar que é muito pouco balisar a ação política por aquilo que deveria ser obrigação, ou seja: ser honesto não deveria ser alardeado como qualidade, pois é, antes de mais nada, pressuposto, uma obrigação...

A banalização do "mal", da "escrotidão" e do "vale-tudo", produziu um fenômeno paradoxal e intrínseco: todos se dizem republicanos...adeptos das práticas republicanas...Ora, ora, são nefastas, tanto a desfaçatez cínica,onde tudo é farinha do mesmo saco, que provoca a indiferença cúmplice, quanto o macartismo sacrossanto dos hipócritas, que exige condutas nos outros que não pratica...

Dito isso, esperamos ter deixado claro que a senadora Marina Silva sempre esteve além desse limitador, desse "teto vestalista"...

Parece-me sincera sua fala, de que sua saída se dá pela impossibilidade de colocar "no centro do poder" a questão do desenvolvimento sustentável, muito embora, resvale um pouco na contradição, quando, em sua mensagem ao presidente Ricardo Berzoini, reconhece que muito já foi realizado...

Aqui reside o cerne do problema...

Para algumas questões, como a ambiental, penso eu, em minha rala e rasa opinião, interesssa muito mais o que é feito, do que é dito...

E Marina disse: muito foi feito...faltou, talvez, que o governo dissesse que renderia e encurralaria os latifundiários, grileiros e desmatadores...Talvez sim, talvez não...

Construir um capitalismo, ou qualquer outro sistema de produção, com premissas de sustentabilidade, em escala global, e capaz de satisfazer as demandas de boa parte da população, aumentando o nível médio de consumo, cristalizado em setores intermediários amplos e fortalecidos(classe média), diminuindo o fosso entre mais ricos e mais pobres, é um desafio que nem as maiores economias e democracias do mundo chegaram perto...

E, mais: nenhum desses países cogitou colocar essa demanda(a causa ambientalista)na pauta principal, antes que seus modelos de desenvolvimentos estivessem totalmente satisfeitos, em todas as suas etapas...

Quer dizer: felizmente ou não, a consciência ambiental, ou qualquer outra consciência humana só existe em função de um único elemento: o ser humano...

A agenda do desenvolvimento sustentável, do consumo racionalizado, da economia de recursos são fortes onde a barriga está cheia, as escolas funcionam, a saúde e a segurança estão garantidas e no Estado garante um mínimo de Justiça Social...

Quando Marina pretende deslocar a questão ambientalista para o eixo central da discussão, embora o faça pelos melhores motivos e intenções, só reforça um tipo de antagonismo direitista-conservador-devastador-desmatador, que utiliza como chantagem, um argumento que encontra eco nas barrigas vazias: dane-se o ambiente, queremos comer, queremos emprego...!!! Esse modelo, perpetua, sabemos todos, a exclusão e a fome...Um ciclo maldito: induzem a exclusão e segregação, ampliam o modelo concentrador-devastador, que depois precisa de mais "devastação-concentração" para permitir que algumas "migalhas caiam pelas beiradas do banquete..."

Dão, também, vazão a outro tipo de argumento chauvinista, que, infelizmente, também encontra aceitação ampla: o ecologismo é a mais nova forma de imperialismo, quando os países ricos, depois de esgotarem seus recursos e o ambiente querem controlar o que fazemos com nossos recursos e ambiente para: evitar que o nível de consumo dos países pobres cresça, e ameace seu padrão de consumo pelo esgotamento desses recursos, que estariam "guardados" como "poupanças estratégicas", e internacionalizar a gestão desses recursos, através de "organismos multilaterais", onde, ironicamente, esses países ricos são sempre hegemônicos...

É lógico que essa dicotomia é falsa, assim como é falsa a dicotomia cantada em verso e prosa pela imprensa marrom e seus acólitos, que dizem ser impossível combater o crime, e respeitar as garantias fundamentais...

Mas deixar de enxergar, por exemplo, que uma polícia-cidadã só existe em uma país-cidadão, e que iniciativas garantistas em um universo de desiguldade e aberrações jurídicas que mantêm ricos fora do alcance da polícia e da Justiça, é como enxugar gelo...Exacerbar os abusos policiais, sem contextualizá-los no discurso da sociedade, que enfim, legitimam e "exigem" tais excrescências é a mais canalha hipocrisia...

O maior avanço implementado nos direitos humanos nas cadeias e na ação da polícia foi quando os ricos começaram a ser presos: retiraram os excessos, as algemas, e daqui e um pouco, nossas cadeias vão ser de primeiro mundo...
Veja uma busca e apreensão em uma favela e em um apartamento na Pelinca...Se a polícia enxerga os dois locais de forma diferente, é porque foi treinada para tanto...Portanto, diminuamos as diferenças, enquanto treinamos melhor o discurso e ação dos policiais...

Isolar esse debate é dar força aos fascistas adeptos das execuções sumárias dos suspeitos-padrão...pretos, pobres, favelados, entre 19 e 24 anos...Cometem, assim, erro de mesma natureza...

Quando desvinculam a causa ambientalista da defesa das reformas e da distribuição de renda, que em alguns casos, provocarão certos danos ao ambiente, os verdes e marinistas dão a "munição" para que suas teses fiquem isoladas...

O ambiente é uma das pedras fundamentais do desenvolvimento humano, mas não é, e nunca poderá ser a principal...O trato com o ambienteestá diretamente ligado ao modelo de economia que queremos...
Queremos carros, petróleo, carroças, bicicletas, computadores, internet...Não se produz impunemente...Nunca...

É essa certeza que irrita tanto os militantes verdes...Por isso eles berram tão alto...Não é para que nós escutemos...É para que eles mesmos escutem...

Que Marina Silva tenha toda sorte do mundo, e que enriqueça nosso cenário eleitoral com os debates que poderá propor...

Mas que agüente o peso das opções que fez, e evite o papel de vítima...Não pelo PT, ou por qualquer outra circunstância, mas em respeito a sua biografia...!!!

Não há consciência ambiental sustentabilista onde o homem está alienado de si e do que o cerca...

Um comentário:

Anônimo disse...

Não acho que a senadora vá fazer o papel de vítima. Ontem, numa entrevista, ela já declarava com toda clareza que divergia de posições da minstra Dilma e que embora em discordância, ambas tinham o direito legítimo de defender suas agendas. Isto faz parte do jogo democrático e ela sabe disto pra além do discurso.
Acho que ela fez uma escolha difícil, mas que lhe dará algum alento para continuar na política. Tive também muita pena do Mercadante, no difícil papel de líder.
Não sou militante mas desde sempre votei no PT e reconheço os muitos avanços de seu governo. No entanto, mesmo sem nenhum ranço moralista há momentos (não poucos)em que a posição do PT no governo é muito incoerente para não dizer decepcionante. Será que os avanços conquistados só seriam possíveis com as alianças e concessõees que vem acontecendo????