domingo, 13 de setembro de 2009

A barbearia de Seu João...

O local é um pequeno istmo de tranquilidade em uma área conflagrada pelo caos urbano...Um pequeno enclave de tolerância e encontro...

Sim, naquele espaço de pouquíssimos metros quadrados é possível caber gente de todo o tipo, quase sempre em harmonia, idéias, opiniões, debates, e muita conversa fiada, mediada por um senhor de cabelos cor de neve, fios ralos, cuidadosamente penteados, em combinação perfeita com o alvíssimo avental branco, que demonstram um asseio que transcende a aparência, e expõe, para aqueles que acreditam, uma alma limpa...
Com as mãos habilidosas e meticulosas, Seu João segue seu ofício de barbeiro...Não é um barbeiro comum, pois sua vocação não é cuidar apenas da aparência, mas das pessoas que mais precisam de sua ajuda...
Quem tiver pressa, não vá a Seu João...ali, o tempo passa em outro compasso...Seu zelo, sua vagarosidade no manejo de suas "ferramentas" são uma terapia de paciência, que nos fazem render poucos minutos com o cuidado a nós mesmos...Algo que, freqüentemente, esquecemos...

Seu apelido dá a exata dimensão do seu celibato: Seu João péla-porco...Seu João não rejeita "cliente", e corta, escanhoa e asseia o "couro" daqueles que habitam lugares que ficam três andares abaixo da sarjeta...

E não se engane...O tempo de Seu João é democrático...O tempo "gasto" com você, doutor, juiz, padre ou policial que forma nosso belo quadro social, como dizia Raulzito, é o mesmo com todos aqueles "invisíveis"...Lá, em Seu João, os "fantasmas excluídos da sociedade" aparecem no espelho...

Seu João "reina" nesse pequeno espaço, na esquina da Felipe Uébe com Saldanha Marinho, onde carros e pessoas se enfrentam em um balé mortal e suicida, agências de carros impõem sua vontade sobre pessoas pedestres...
Ali, na barbearia de Seu João, esses pedestres exilados das calçadas se encontram, na esquina onde caminhões com destino ao Porto do Açu, em altíssima velocidade sobre toneladas de peso, tornam o ato de atravessar a rua uma "loteria" onde o prêmio é a vida, em probabilidades assassinas...
Quando não há cabelo e barba por fazer, alguns "estacionam" ali, quem sabe em busca de algum tipo de asilo...Algum real para aplacar qualquer desespero...Seu João não julga...ele, simplesmente, ajuda...

Há os notívagos, quem sabe em busca de melhorar "a cara", antes de chegar em casa, após dias de excessos...Há pais e filhos, onde as "relações" se firmam em cumplicidade, e a tradição se renova em novos clientes que chegam...Como a ida ao futebol, a barbearia de Seu João é um local de "rito de passagem"...
Há as mães, pais, e outros parentes e cuidadores de pessoas com doença mental, que os confiam a paciente tesoura e navalha de Seu João...Como um ritual de socialização, trazem seus entes amados, e Seu João lá, entre uma tesourada e outra, uma palavra, um gracejo, um afago...
Há os moradores das "comunidades" próximas, que cruzam as "fronteiras da pobreza", e naquele espaço podem reatar os laços com a parte da cidade que lhes foi negada, como uma "embaixada de inclusão"...

Há de tudo um pouco...médico e louco...E toda essa "convivência" não se dá por tratados(salvo os de natureza tácita), nem por "estudos e arrazoados acadêmicos" ou intervenções do poder...Se fosse possível assim definir, acontece espontaneamente...Mas não há dúvidas...É seu João o esteio desse frágil e delicado Universo sem crise...

Mas não pensem que Seu João é um "santo", e que páire sobre os homens como uma "entidade"...Não, não senhor...Seu João é especial, justamente, porque exerce sua "santidade" como ser humano que é...Seu João vive DE seu ofício, mas aprendeu a ir além...Ele vive PARA seu ofício...Vive para si, e pelos outros...

Recentemente, Seu João, atingido pela inevitabilidade que nos ronda, a morte, deprimiu-se com a ausência de sua companheira...Manteve seu "santuário" fechado por alguns dias...Não há detalhes, pois a discrição de Seu João é generosa...ele guarda seu sofrimento para si...

Hoje, passo pela barbearia de Seu João, ele retornou a atividade, e eu tenho certeza:

Longa vida a Seu João...

6 comentários:

Anônimo disse...

um conto real...

Anônimo disse...

Fica Xacal!

Anônimo disse...

Quando criança, achava seu João muito parecido com o ator Walmor Chagas; claro numa versão menor, porém sempre nobre.

Xacal disse...

é isso ai, acertou em cheio...eu procurava uma referância para definir a cor do cabelo de seu João...é isso aí, o Walmor...só que os cabelos do Seu João estão mais ralos...

um abraço...

Anônimo disse...

Se vc encerrar o espetaculo que é este este blog, no lugar de aplausos receberás porrada. Quem sabe apelando para violencia, tão em voga, consigamos demover de sua mente a idéia de nos deixar orfãos deste espaço. Tente a sorte, heheheh...

Mracio Pereira

Walnize disse...

Xacal,
Quando em criança via meu pai fazendo a barba em casa e ficava ali parada admirando.Já velho e sem condições dele mesmo se ajeitar o levava ao barbeiro...Esta sua belíssima crônica me transportou ! Fecho os olhos e revejo"meu Papai Noel"
Walnize Carvalho