domingo, 6 de setembro de 2009

Da série: Contos da TrOLHA

O último condenado...

O ano era 2089...Na administração municipal, napoleão XXII, herdeiro da dinastia da lapa, que há cerca de 30 anos pacificara sua disputa com a linhagem dos telhadeiros de vidro...Era semana de eleições, e ele olhava as paredes daquela pequena cela, com apenas uma pequena janela gradeada, a cerca de 2 metros do chão, uma abertura que apenas era suficiente para deixar entrar um pouco de luz, mesmo assim, por alguns momentos pela manhã...A umidade era tão grande, que quase podia ser apanhada com as mãos...Naquele espaço de 6 metros quadrados, uma pia, uma cama, e um "boi"(privada), embutida no chão...Não havia lâmpada...

Naquele ano, como em todos os outros, nos quais havia corrida eleitoral, ele havia planejado executar seu pequeno plano...Mas sempre lhe faltava coragem, e agora entendia bem o porquê...Estava ali por dois dias, mas pareciam dois séculos...
Aquela cela se destinava a manter sob custdódia os que cometiam crime eleitoral...Os que ousavam macular o delicado equilíbrio de regras, que sustentavam os pleitos, após anos e anos de uma guerra sangrenta, que havia custado a vida e a viabilidade de gerações inteiras...

Mesmo com riqueza abundante, a cidade de Campos dos G., ostentava os piores níveis sócio-econômicos do país, e a expectativa de vida não alcançava 48 anos, em média, para os homens, e 53, para as mulheres...

63% de analfabetos, 323 mortos por homicídio por cada grupo de 100 mil habitantes, e pior 342 crianças mortas para cada mil nascidas...

Junto a tudo isso, uma cena política marcada pela violência, com chachinas e conflitos armados em plena luz do dia...

Diante de tudo isso, as autoridades federais cercaram a cidade com uma enorme fortificação...Para evitar o êxodo das pessoas que fugiam amedrontadas, e que esvaíam a cidade de mão-de-obra qualificada...E que inchavam outras cidades... Queriam também, os federais, impedir que o modelo local se expandisse para outras unidades do Estado...

Os pobres, que mesmo diante de um quadro tão dramático, insistiam em tentar "a sorte" na cidade, vindos de outras cidades da região, em situação parecida, eram mantidos do lado de fora do portão, e só alguns eram sorteados para trabalhar durante o dia, e expulsos para fora dos limites, para fora do portão...Assim, dormiam ali, aos pés da muralha, e acabaram por formar uma "nova região metropolitana", uma periferia ainda mais precária...

Ele pensava nisso tudo, e como a vida naquela cidade se tranformara naquele inferno...Dentro da muralha, as casas dos mais ricos se escondiam atrás de outras muralhas...pequenos feudos, contidos em um grande feudo...

Não sentia culpa pelo crime que cometera, mesmo que isso lhe custasse a própria vida...Na sua cabeça, viver daquela forma, naquela cidade, não fazia muito sentido mesmo...

O sistema eleitoral da cidade institucionalizara um processo que se consolidara desde o final do século XX, precisamente em 1989, com o início da dinastia dos napoleões...
Os partidos se dividiam de acordo com os interesses de grupos econômicos, e uma vez no governo, loteavam a Administração em fatias proporcionais aos votos que conseguiram...Essa divisão atendia a uma referência da atividade econômica que desejam explorar na "administração"...

Haviam, assim: o partido dos empreiteiros, dos grupos de comunicação e seus jornalistas, dos médicos, dos advogados, do setor do lixo e reciclagem, dos agentes funerários, e muitos outros...
Cada um levava um lote que correspondia a quantos votos fosse capaz de comprar...
O eleitor não ia a uma seção eleitoral...Ele comparecia, no espaço de uma semana(o período eleitoral) nas "lojas credenciadas" desses partidos(grupos econômicos), e ali, em um sistema antropométrico de identificação(validação datislocópica e escaneamento de retina), trocavam seu voto por uma determinada quantia de dinheiro, que era tabelada...
Uma vez registrado o voto, não era mais possível realizar outro negócio...

No final, a apuração: somados os "votos", cada grupo(partido)exploraria seu ramo de negócio com o dinheiro público, na proporção correnspondente no Orçamento dos votos que conseguira comprar...Não havia debate público, e só a propaganda permitia aos "eleitores" decidirem qual setor venderiam seu voto...O prefeito, uma espécie de gerente geral, saía de uma reunião dos grupos vencedores...A dinastia napoelão estava invicta no poder há exatos 100 anos...
Cabia a esse "mandatário" determinar quando seriam os "sorteios"...Havia "sorteio" para receber atendimento médico, para freqüentar escolas, ou para receber uma ração de comida...

É lógico que o sistema trazia "efeitos colaterais"...Como no caso de grupos que se espalhavam por outras atividades, embora isso fosse vetado...Os grupos mais "fortes" economicamente, tentavam incorporar o espólio de outros, para expandir seus "negócios", e em outros casos, havia grupos fantasmas, que na verdade, apenas se colocavam na disputa para venderem sua "posição" depois, em uma espécie de "leilão informal"...
Normalmente, essas "disputas" eram resolvidas de forma violenta...
Não havia polícia, nem qualquer esfera estatal de coerção...Cada grupo matinha sua milícia armada, e guardava militarmente os "direitos" de cada setor: havia a milícia dos grupos de comunicação(que censuravam, e aniquilavam fisicamente quem ousasse contrapor seu monopólio da informação, por exemplo), havia também a milícia dos empreiteiros, do médicos e dos advogados, etc...Geralmente, essas milícias refletiam o conflito desses grupos, e o banho de sangue era inevitável...A paz, quando acontecia, era armada...

Pensava em tudo isso, e aguardava o passar do tempo sincopado pelo gotejar da torneira da pia...Monocórdio...Sabia que seu crime exigia a pena de morte...O medo corria pelas suas veias como seu sangue ardesse, como uma larva...Buscava consolo no heroísmo, mas o medo da morte lhe roubava essa glória...Só a inevitabilidade do fim lhe conferia algum consolo...

A torneira da pia gotejava...cada minuto escorria pelo esgoto do tempo...

Chegava a hora...As acusações seriam lidas em rito sumário, e logo depois a execução, que há muito tempo não era utilizada como apenamento....

Ao herdeiro da dinastia da lapa, napoleão XXII, caberia a leitura do rito, e a decretação da sentença, o que era apenas uma formalidade destinada a funcionar como intimidação aos que pensassem em adotar atitude desafiadora semelhante....

Ao vivo, pela rede de TV, em todas as escolas, repartições, lojas, enfim, todos os locais mantinham seus aparelhos receptores ligados...

Ao réu, programada para morrer, apenas uma chance de apelação...Nos aparelhos receptores de imagem, após a leitura das acusações, os telespectadores, podeiam votar pelo controle remoto, pela convolação da sentença de morte em degredo eterno, ou prisão perpétua...O tempo reservado era 60 minutos, enquanto os preparativos para a execução da pena eram adotados: religiosos, caso solicitado, úlima refeição, etc, etc...

Entrou no recinto de sentença...Acorrentado as mãos aos pés...Sentou no banco dos condenados...

Ouviu ali o inventário de seus crimes:

Percorreu todas as lojas credenciadas a captar votos, munido de um contrato, onde se comprometia a vender seu voto, sem nenhuma contrapartida financeira, desde que os "donos" das lojas credenciadas,s e comprometessem a:
-Inclusão dos grandes contingentes de marginalizados, dentro e fora dos muros da cidade;
-criar conselhos de participação comunitária;
-publicar os números do Orçamento;
-restituir a Câmara Municipal, que deveria legislar e fiscalizar a ação do poder executivo;
-resituir o funcionamento das leis de concorrência pública, para compra de bens e serviços por parte do Orçamento Público;
-distanciamento dos interesses econômicos da gestão do Orçamento;
-impedimento de gasto de dinheiro público em verba publicitária em grupos privados de comunicação;
-concurso público para contratação de servidores públicos;
-restituição da Polícia, e da Justiça como órgãos de persecução criminal e fiscalização de cumprimento da lei;
-Enfim, instituição de Leis que funcionam contra todos;

Foi sentenciado a morte...Aguardou, sem sucesso, a clemência dos telespectadores, que confirmaram sua execução...

Foi morto em um grande tonel de petróleo bruto incandescente...


Conto baseado em uma tira da Graúna do Henfl, publicada ontem, dia 05.09.2009, no jornal o globo...

5 comentários:

Claudio Kezen disse...

Gostei deste lado Kafka, Xacal...

Anônimo disse...

Xacal,
Já me manifestei, em outra oportunidade, da necessidade da sua permanência.
Vejo agora que não exagerei.
A sua presença, sempre, se mostra indispensável e salutar para, pelo menos, se desenvolver o bom senso.
Por que você não atende o pedido de muitos?
Aquele abraço!

Anônimo disse...

Apesar de ser uma recente leitora deste blog, tb vou pedir: Fica Xacal!

Anônimo disse...

Sim. Muito bom. E ao lado daquela pequena cela, um rapaz de apelido xacalIII, filho de um blogueiro petista, corrupto e covarde, que lá pelos anos de 2009/2010, afastouse da hipócrita "resistência" a tudo e a todos. Corrupto sim, de si próprio, por não ter dado certo na sua medíocre vidinha petista, e ter se vendido barato para entrar na política, vendendo seu próprio filho, seu infeliz herdeiro.

Marcelo Freitas disse...

Viva a democracia! Até mesmo imbecis, como o anônimo acima, conseguem espaço na blogosfera. Melhor seria mandá-lo dar o rabo ao capeta. Mas para quê, se já sabemos que fez isso há mto tempo?
Essas infelizes aves de rapina que tanto mal estão fazendo a Campos...