domingo, 4 de outubro de 2009

E=mc²

Foto:Juarez Fernandes/Monitor Campista

O fato é passado...E na montanha-russa do mundo da informação, agilizada pelos meios virtuais, qualquer minuto é eternidade...

A expressão mais lírica dessa premissa talvez seja a letra de Parabolicamará, de Gilberto Gil...

Mas evitamos o comentário antes, para melhor visualizar todo contexto, e quem sabe, tecer uma análise "menos emocional", em que pese a dramaticidade do tema: vidas humanas, que têm "peso" e "valor" distinto na mídia e na sociedade...

Como já dissemos aqui, nossa intuição nos leva a crer que a multiplicidade de meios aguçou a crise do jornalismo mundial, mas seria ingênuo dizer que é só um problema de velocidade...A internet, os blogs e outros "veículos" apenas realçaram, com contornos eloqüentes, uma contradição que SEMPRE esteve presente no jornalismo, uma espécie conflito ético "fundador"...
A lógica anti-democrática da grande imprensa sempre esteve presente em todos os seus atos...
A diferença é que a percepção dessa orientação ficava, poucas vezes, a cargo da historiografia, e quando muito, da memória desgastada...Como sabemos,a História não é generosa com os perdedores, e se levarmos em conta que a "grande mídia" sempre esteve ao lado dos que venceram, prejudicados estarão os meios para fazer um correto "julgamento" de sua conduta...

Mas agora, como em uma nova teoria da relatividade, dessa vez, aplicada a comunicação social, a velocidade "deformou" a "matéria", e trouxe novas perspectivas para o observador...
Temos, então, a impressão de que confiamos menos na mídia...Mas isso é "relativo"...Não mudou nossa percepção sobre mídia, mudou a nossa capacidade de enxergar o quê está por detrás dela...

Paradoxalmente, a mídia não aponta uma "solução de curto prazo"...Não enxerga a assimetria na qual está metida, e busca combater com meios regulares as guerrilhas virtuais...Cairá vencida...

O que a grande mídia ainda pode oferecer(mais profundidade, e o abandono do mito da imparcialidade), ela rejeita, por "arrogância", típica de quem desfrutava de poder, e privilégio, e que se debate em perdê-los, e ou por incapacidade de enxergar e projetar o cenário que se apresenta...Essas duas hipóteses, não excludentes, somam-se a outra impossibilidade estrutural: a grande mídia não pode romper os laços com o poder econômico, pois ela mesma faz parte desse setor da sociedade, logo, como alterar o discurso, e mergulhar em uma auto-crítica que lhe confira credibilidade...?

É quase impossível entregar o "monopólio da verdade"...Grandes "impérios" já ruiram frente ao desafio de "reciclar" suas posturas...Com a mídia, não há bom agouro no horizonte...

Na última semana, aconteceu um fato grave em nossa região...Gravíssimo, aliás, que passou quase que despercebido pela grande mídia local, e com certeza, não foi tratado com a "profundidade" desejada...Mais uma vez, examinados os fatos, descobrimos as iniqüidades jornalísticas a serviço do grande capital e de uma "solidariedade de classe"...

A morte de uma trabalhadora rural, Cristina F. Santos, 49, carbonizada em uma lavoura de cana-de-açúcar, se noticiado como deveria, colocaria em maus lençóis uma atividade econômica que já goza de pouquíssimo prestígio...Não cabe aqui entrar no mérito das inabilidades do setor sucroalcooleiro...Todos que lêem a TrOLha já tem uma noção de nossa opinião...

Mas o fato é:

Ninguém soube, não se sabe o motivo, onde se deu a incidente, que resultou na morte da trabalhadora...Onde foi o fato...? Essa não é a primeira lição do "jornalismo"...? Responder: onde, como, quando e por que...? Quem são os donos, ou posseiros da terra na qual morreu uma trabalhadora rural...? Quem faltou com o devido cuidado...? Será que os vereadores e autoridades, tão rápidos para "apurar" as condições da morte trágica de um dos seus(incidente de trânsito na BR101, com o vereador do PT), não são capazes de demonstrar o mesmo fervor e indignação cívica frente a um fato tão grave, e solicitar os "laudos", os nomes e os "culpados"...?

Bom, fica a nítida percepção que em meio a discussão de subsídios do governo federal ao setor(preço mínimo da cana), espremido pela exigência de "modernizar" seus processos(quem sabe, chegar ao século XX, com o fim das queimadas...?), as denúncias de toda a sorte de violação de direitos humanos, etc e tal, houve um "abafamento" do trágico incidente...
O único "incêndio" que mídia e latifundiários parecem querer "abafar" é sua flagrante(do latim flagrare, ou queimar)irresponsabilidade com vidas humanas...

Fica a nítida outra percepção : que o setor canavieiro, não todo, é claro, mas ao menos seus representantes, buscam se esconder atrás das "couraças midiáticas", proporcionadas pelo "compadrio promíscuo", ao invés de vir a público, expor seus problemas, e, corajosamente, legitimar a busca de soluções junto com toda a SOCIEDADE, que afinal, paga com seus impostos a manutenção de seus lucros:os custos dos impactos ambientais, as estradas, os hospitais para acidentados e para quem sofre com as queimadas, as ambulâncias, as pensões e previdência para descendentes dos mortos e inválidos no exercício das atividades laborais, sem mencionar, é óbvio, os subsídios diretos, como preço mínimo para a tonelada da cana...

O setor da cana é estratégico...Produzem dois itens indispensáveis ao Homem: açúcar, e agora, biocombustível...Mas aqui, na planície goitacá, agricultores e industriais ainda se portam na forma oposta a importância que reivindicam...Sua interlocução é a força, como se portassem tacapes...

Depois reclamarão da péssima "imagem" que detêm junto a opinião pública, que já não é mais refém das manipulações óbvias dos seus jornalistas de coleira...

Afundam assim, como afogados em um último abraço, os dois setores que representam nossa decadente oligarquia...A mídia e os senhores da casa grande...

3 comentários:

Ana Paula Motta disse...

É incrível, mas só hoje eu fiquei sabendo dessa história através da minha família e agora leio seu post.

Anônimo disse...

HIPOCRISIA

Em Campos, o digníssimo presidente dos verdes(PV) é contratado para defender uma empresa que pratica queimadas e que nos últimos dias acabou vitimando uma trabalhadora.

Isto é o que podemos chamar de verdadeira identidade ideológica político partidária.

Anônimo disse...

É, Xacal, você deu um banho de humanidade, firmeza de opinião e indução ao leitor com o seu comentário nesse post. Abaixo os princípios relativos do Jornalismo: que, quem, quando como , onde e porque...
Para o mundo virtual, isso já não é tão importante.Para os criminosos, mais um ponto de partida ou de prosseguimento de caminho. Bóia fria é gente, minha gente...