sábado, 17 de outubro de 2009

Fora do ninho...

Desde pequeno, desde quando passou a ter consciência de si, e de tudo o que cercava, as coisas lhe pareciam estranhas...Todos em sua casa sussurravam...Não percebia afeto, como observava em outras famílias, com outras crianças...

Na sua casa, era quase um temor reverencial...Como se ele fosse feito de uma porcelana finíssima, pronta a se quebrar e espatifar-se em milhões de pequenos pedaços, sem chance de reparo...Era algo sufocante...

As visitas diárias do médico, e depois de uma enfermeira, lhe deram a dimensão que possuía alguma doença...Embora nunca lhes dissessem qual, ele sabia que suas obrigações implicavam em toda a sorte de restrições, e um ritual diário: todas as noites, lá pela 7 ou 8 horas da noite, lhe ministravam um comprimido, ele dormia, e acordava, no outro dia, com fortes dores nas costas, onde ostentava sempre dois enormes curativos...

Assim foi durante anos e anos...Sentia-se forte, disposto, mas as prescrições médicas contrariavam qualquer esforço, qualquer contato com o ar livre, longe de casa, sem a supervisão da família...Na escola, seguia alheio a tudo e a todos, nada lhe interessava muito, e também não despertava o interesse de ninguém...

Mas a rotina não cedia...Todas as noites, a mesma enfermeira que já conhecia desde os primeiros anos...os remédios, aquele sono pesado, os curativos, e as dores lancinantes na outra manhã...Analgésicos, anti-inflamatórios e claro, tranquilizantes, muitos deles...um coquetel de várias cores e tamanhos...

Estava decidido...

Naquela noite, fingiu tomar o medicamento...Sorrateiro, e talvez beneficiado pela crença de seus pais que tudo estava sob controle, saiu pela janela e fugiu...

Tinha muito medo, não tinha rumo...Só um desejo: a liberdade, e a vontade de saber o que tinha, ou, o que era...

De carona em carona afastou-se para onde imaginava-se a salvo de sua família, embora não estivesse a salvo de suas dúvidas: sobreviveria...?

Fez de tudo um pouco, trabalhou em postos de gasolina, office-boy, auxiliar de pedreiro, manteve os estudos em uma escola noturna, e assim, assumiu o controle de sua vida...

Dia a dia, vigiava suas cicatrizes, e horrorizado, via nascer dessas feridas, coisas estranhas, que não sabia o que eram...Mas o medo de que elas pusessem em risco sua vida, ficava mais fraco, à medida que nada sentia, senão o incômodo pelo crescimento daquelas "coisas"...Ninguém sabia de nada...
Fez o que pode para escondê-las, e cobria com um sobretudo, que aumentava o ar de mistério em torno de si...Ouvia os cochichos, como em sua casa, e às vezes, imaginava, que esses cochichos acompanhariam-no até o fim de seus dias, como vozes alucinatórias...

Quando essa nuvem de suspeição ameaçava lhe sufocar, mudava de cidade...Sem avisos, sem amigos, sem retorno...

De tão grandes,as roupas não eram mais suficientes para escondê-las...Agora, toda uma operação complexa de amarração, para sufocar seu aleijão...ainda assim, o volume assemelhava uma corcunda, e o peso, acentuava seu andar curvado...Um corcunda...

Agora entendia um pouco o temor de seus pais...Ninguém entenderia aquilo...No entanto, não os perdoava pelo silêncio e pela falta de verdade, para que ele mesmo, pudesse escolher o que fazer...Talvez essa "mentira", mantida por anos pelos seus pais, o impedisse de assumir para si e para os outros o que era, como era, e o que queria...Anos e anos nessa condição, minaram
sua coragem, como se estivesse acomodado a uma "gaiola", e mesmo com a "porta aberta", insistisse em permanecer "preso"...

Naquele dia, trabalhava como servente de pedreiro em mais um arranha-céu da cidade...
No andaime do 18º andar, o vento era fortíssimo....Apesar de todos os insistentes avisos e ameaças do encarregado, não prendia o cinto...Não temia a altura...E isso era desde pequeno...Quando podia, escalava coisas, móveis, árvores, etc...Para desespero de sua família...A idéia de se prender ao cinto de proteção era quase uma contradição a sua própria existência, até porque, sua vida era uma história de ataduras, amarras, e viver exilado em si mesmo...

Um movimento brusco, o vento, caiu do 18º andar...Tentou em vão se livrar de suas roupas, e das ataduras que envolviam seu corpo...Não deu tempo...Morreu estatelado na calçada...No IML, a surpresa, o escândalo, logo abafado pelas autoridades, pela família e por todos que temiam que uma verdade daquelas viesse à tona...

Enterraram-no rápido, sem velório, e antes, cortaram suas enormes asas brancas...

14 comentários:

leitor novo disse...

que texto lindo !! é seu?

Anônimo disse...

Xacal, se eu fosse você não perderia essa oportunidade de ganhar nuns bons trocados da prefeitura:

"A Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL) abriu as inscrições para o Concurso Nacional de Contos José Cândido de Carvalho. O concurso foi criado em 1989, ano da morte de José Cândido, como Concurso Nacional de Contos.
Este ano a FCJOL está oferecendo R$ 10 mil em prêmios, valor que será dividido entre os autores dos cinco melhores contos. As inscrições terminam no dia 15 de novembro."

Gosto muito dos seus contos!

Xacal disse...

o texto é do xacal...

caro comentarista, sinceramente, não tenho talento para tanto, mas ainda que tivesse, não me submeteria a qualquer evento ou concurso patrocinado pela pmcg...eles não tem credibilidade para nada...

um abraço...

Anônimo disse...

Você a cada dia me surpreende. Parabéns.

Herval Junior disse...

Belíssimo texto em prosa, um conto,né?.Mais uma das suas...
Abraços!

Xacal disse...

caro Herval,

grato pelo comentário generoso...

era para ser um conto sim...

um abraço...

Di Donato: disse...

PQP nesse vc matou a pau.
BOM PRA CARA...............mba!!!

Anônimo disse...

bom demais... aliás vc é tudo de bom... não deixe a gente órfão de vc não. Repense a sua decisão de encerrar seu blog.
beijos e tenha um bom fim de semana
"helena"

Rose David disse...

Nossa! Bonito demais. Talentoso, hein? Parabéns!

Amarinho da Baixada disse...

Estimado Xacal,

Lindo, conciso,breve sem perder a qualidade do texto.

Corrobora com o comentário da "Helena", não nos deixe orfão.

Vc é uma referência das minha leituras diárias.

Admiro e respeito seu senso critico, mordaz e objetivo.

Bom dia.

Amarinho da Baixada

Jorge do Cajú disse...

Plágio da obra "Menino de Asas", de Homero Homem, clássico infanto-juvenil da literatura brasileira lançado pela Coleção Vagalume!

Sem essa, Xacal...

Xacal disse...

Caro Jorge do Cajú...por que o apelido, será que é por causa da castanha enfiada em se c*...?

bom, vamos lá:

não conheço a obra(embora tenha começado minha paixão por leitura com essa coleção)...

Muito me lisonjeia que eu tenha escrito algo que faça você se lembrar dela...

a idéia de asas não foi criada Homero Homem...já estava lá em Ícaro, na Bíblia, ou se você preferir, até na cultura pop: existe no filme Mutantes 2, um garoto que tem asas...e as amarrava,foi de lá que "copiei" a idéia da amarração delas, por exemplo...
Há conceitos e idéias, como você pode perceber, que são comuns a várias culturas e gerações...

De resto, como sempre disse aqui, em vários posts, o xacal não é um "escritor ou criador", é no máximo, sim, você talvez tenha razão, um plagicombinador(na concepção e definição de Tom Zé para o termo)...

Portanto, sua afirmação, se tinha a intenção de ofender, provocou um sentimento diverso: como disse, fico orgulhos de fazer lembrar os melhores, pois uma "boa cópia" é muito melhor que uma "idéia original medíocre"...

um abraço, Jorge, e cuidado com essa castanha, hein...?

Xacal disse...

editando: "(...)enfiada em SEU c*?

Anônimo disse...

Você é bom até nas respostas mal criadas que dá!
Adorei sua resposta para o anônimo das 11:46!