terça-feira, 13 de outubro de 2009

Movimento "cansei" da planície...

De certo que os acidentes da BR-101 são trágicos, e trazem muita tristeza a todas as famílias envolvidas...Isto ninguém discute...Mas há algumas informações que passam (propositalmente será..?)despercebidas...

Dias desse, ouvi, em um desses programas de rádio, "pilotado" por algum desses radialistas de coleira, uma entrevista com um policial rodoviário federal, que tratou do assunto, dentre outras coisas...

O policial disse, em alto e bom som: 70% dos acidentes acontecem em trechos onde há boas condições de tráfego(visibilidade, trechos retos), quando há boas condições climáticas, boas condições da pista de rolamento(sem buracos)durante o dia, e nesses incidentes, o motivo é a imprudência de um, ou mais condutores...Ele ainda completou: no período no qual a BR101 foi mais castigada pelas chuvas e esteve mais esburacada, houve um decréscimo histórico de incidentes e vítimas, devido, é claro, a diminuição da velocidade...

Isso por si só já deveria bastar ao bom senso, para que entendamos que o problema não é a via, e sim os motoristas...

Nossa sociedade se acostumou a sacrificar milhões de vidas no trânsito, subverteu a lógica do espaço urbano em torno do transporte privado(automoveis de passeio), danificou, irreversivelmente seu ambiente, tudo isso, em detrimento de um fato irrefutável: a enorme maioria das pessoas não tem carros, e é em nome dessa maioria que deveria ser dado prioridade dos recursos públicos(impostos)...

Em uma cidade que vive com níveis de IDH subsaarianos, com a corrupção institucional que enfraquece a Democracia e suas entidades, sem transporte público decente, e com tarifas intermunicipais monopolizadas(sabe-se lá, por 1001 motivos)e caríssimas, parece piada que carros e estradas mobilizem seus maiores esforços para pressionar esse ou aquele ente de governo para "alargar" suas estradas, onde possam, finalmente, trafegar em desabalada carreira em seus bólidos último tipo...

O pior é ver gente esclarecida embarcar nessa versão BR 101-cansei...Querem estradas melhores, mas não querem pagar por elas(pedágio), como se já não bastasse todo o dinheiro que governos gastam com a indústria automobilísticas e com os proprietários de carros(manutenção e abertra de novas vias, socorro as vítimas de acidentes, internações hospitalares, pensões e indenizações, etc, etc, etc), eles querem nos fazer crer que ainda é preciso mais dinheiro para manter o conforto e a "segurança" dos condutores...

O paradigma é outro: para tornar as ruas e estradas mais seguras, só diminuindo o número de veículos...

Engraçado como nossos neoudenistas são radicais, não...?

14 comentários:

Roberto Torres disse...

Acho que nesta questao do transporte fica facil de ver como que o "mal", a contradicao maior da sociedade esta nela mesma e nao em um Estado que esta sociedade sempre costuma apontar como esta fonte de desgraca. A falta de sustentacao politica para um sistema de transportes publicos que mereca este nome vem de todo "cidadao de bem" que acha natural usar o carro para tudo. Imagine a impopularidade que nao cairia um candidato a prefeito que propusesse controlar a circulacao em nome do transporte publico?

George Gomes Coutinho disse...

Acho que um indício disto pode ser detectado no debate sobre o que fazer com o canal Campos-Macaé, onde a proposição era da ampliação da motorização da cidade tornando o canal um estacionamento.

Na contra-mão do processo de diminuição da circulação de carros nos grandes centros comerciais das cidades...

Por fim, mais uma vez temos o Xacal botando o dedo na ferida: a questão é a dificuldade brutal de coação dos péssimos motoristas e a punição destes, o que torna o poder público na verdade cúmplice da barbárie no trânsito.

Me parece simplesmente espantoso que não façam a conexão óbvia com o desrespeito cotidiano aos sinais de trânsito na cidade e os acidentes na BR-101!

Anônimo disse...

Olha, concordo que grande parte dos motoristas que trafegam na BR-101 não são, digamos assim, nenhum "Schumacher", e que o desrespeito as leis básicas, não só de transito, são cotidiano em Campos.

Entretanto, na condição de viajante costante desta estrada, posso afirmar que a maioria dos acidentes são causados sim por imprudencia, porém dos motoristas profissionais, os caminhoneiros.

Sei que tem várias questões envolvidas nisso, mas uma forma real de diminuir este quantitativo seria sim a duplicação da estrada.

Por simplesmente a culpa no motorista é simples demais.

Roberto Torres disse...

Com certeza a duplicacao e decisiva. E incrivel como naturalizamos o desvalor da vida, que mostramos quase abertamente no transito arriscado.

George Gomes Coutinho disse...

Duplicação sem regulação sobre o transporte rodoviário e tampouco atrelado a um movimento de educação para o trânsito que consiga modificar a percepção dos diferentes usuários (motoristas, motociclistas, pedestres...) terá apenas um efeito cosmético sobre o números.

Anônimo disse...

Xacal, concordo com parte de seu texto, e ainda vou fazer outros comentários à respeito, mas um ponto em específico que você escreveu eu não entendi:"Querem estradas melhores, mas não querem pagar por elas(pedágio)..." Você é a favor da privatização das estradas?

Xacal disse...

Comentarista, sou favorável que os condutores e empresas que utilizam as vias paguem por isso, nos pedágios,s ejam eles públicos ou privados(concessões)...

Anônimo disse...

É na frieza dos números de acidentes e vítimas no trânsito que estão estes "outros". São as vítimas da imprudência, da imperícia e da negligência dos milhares de "eus" que dirigem sem responsabilidade. Que bebem "um pouco" e se acham capazes de dirigir, colocando a vida dos outros em risco; que não respeitam sinais de trânsito; que excedem a velocidade; que ignoram que cada "outro" tem um rosto, uma família e uma história triste para deixar.

Anônimo disse...

Acidentes de trânsito são evitáveis em 99% dos casos e acontecem na maior parte das vezes por falha humana, entre as quais imprudência, imperícia ou negligência do motorista.

Gustavo disse...

Bem, como tá cheio de especialista em transporte aqui, vou aproveitar e perguntar:

- Se o motorista é o grande culpado, ja que corre muito, então porque nas autobhans alemãs, onde não existe limite de velocidade e os motoristas também aceleram tudo, os índices de acidente são mínimos?

Anônimo disse...

1001, uma empresa aérea de transportes terrestres.

Xacal disse...

Caro Gustavo,

Primeiro, sua informação carece de dados estatísticos sólidos, quem te disse que os índices de incidentes são pequenos....?

Bom, ainda que assim consideremos, um índice de acidentes são pequenos, há de se questionar sobre o índice de letalidade deles, e outros fatores, como a diferença tecnológica dos veículos fabricados lá(dispositivos de segurança: freios ABS, air-bags, etc,)que são obrigatórios e aqui são apenas opcionais...

Outro fator que você desconsidera, é que no texto, não colocamos a "culpa" no motorista...o enfoque é mais amplo, e você não percebeu...

trata-se do modelo de sistema de transporte público, privado e de carga que escolhemos...pedir a simples duplicação de uma rodovia é apenas um paliativo, caro e ineficiente, pois veja que a niterói-manilha já está obsoleta...

até quando duplicaremos, triplicaremos, quadruplicaremos as rodovias e vias...? até que não reste espaço, senão para carros...

o que apresentei são dados da PRF: morre-se por imprudência, em trechos bons da rodovia, onde não há curvas ou outro dificultador da condução...isso é fato...

as autobahns alemãs são construídas para usuários que foram rigorasamente educados para utilizá-las, há regras e fiscalizaçõa rígidas para essas regras, pedágios caríssimos, que bancam a manutenção e o próprio custo de construção dessas vias...

o que eu disse aqui, e repito: se os motoristas querem autobahns, que paguem por elas...não é justo é gastar o imposto de quem não tem carro(a maioria)porque alguém quer brincar de piloto de F1...

na sua própria pergunta está o eixo da questão que propomos...

Gustavo disse...

Xacal, nào questionei você, nem seus comentários. Questionei os comentaristas, que simplesmente colocaram a culpa nos motoristas (como o que diz que 99% dos acidentes são causados pelos mesmos). Ora, isso só acontece na Alemanha, onde as vias são praticamente perfeitas e o acidente realmente em 99% dos casos são culpa do condutor.

Além da educação, é preciso sim ter tecnologia (tanto dos veículos quanto das vias). Por isso defendo, mesmo que pagando mais, a duplicação da via. É uma forma de ao menos mitigar os riscos. Quem usa a BR-101 sabe que ela está funcionando com carga bem acima da projetada, reflexo inclusive do crescimento da economia brasileira.

Eu concordo plenamente, querem autobhan ou Highway, então paguemos por isso.

att

Roberto Torres disse...

Nao se trata de por a culpa no motorista. Claro que nossas estratas sao ruins e perigosoas. Mas nao se pode negar que o existe um especie de "habitus automobilistico no brasil", que tem a ver sobretudo com o grau de respeito incorporado pelo espaco publico, e que se manifesta abertamente no transito. Acho que a especificidade do caso brasileiro, se for o caso de comparar com a alemanha, fica facil de ver observando o comportamento no transito urbano. Em sinais, na relacao entre os motoristas pela ocupacao dos espacos etc.

Eu nao sou especialista em transporte. Mas ate onde sei este aqui nao e um debate entre especialistas. E nem o assunto se resume a transporte, mas abrange tambem possiveis explicacoes para o comportamento humano na esfera do transporte.