sábado, 24 de outubro de 2009

Último ato...

Não há nada que mais coloque em prova o que o Homem imagine de si, e da sua vida, aqui compreendidos como conjunto de valores que acumulou, e que media sua atuação como ser social, do que idéia da morte...Do fim...

Se essa morte é ornada com características de sofrimento(incidentes trágicos, ou prolongadas doenças), a incapacidade do Homem de manter certa dignidade frente a esse episódio é ainda maior...

Aqui, não diferimos de nenhum outro animal, e nos comportamos de forma irracional, o que em nosso caso assume contornos mais dramáticos, à medida que na impossibilidade de agir "só" instintivamente, seria correto dizer que racionalizamos o pânico...E por isso sofremos ainda mais...

Se queres testar o caráter do Homem, coloca-o em duas situações: Dê-lhe poder, ou lhe confronte com a morte, sua, ou de alguém que julga próximo...Alguns trairão a todos e a tudo que acreditam(ou dizem ter acreditado), passarão por cima do bom senso, ateus viram crentes, crentes, revoltados com a "(in)justiça divina", deixam de crer, e por aí vai...

Mas ressalte-se: esse é um sentimento HUMANO...que, em suma , está na raiz de sua eterna dúvida, que, paradoxalmente, lhe impulsiona para frente...

Acontece que, na sociedade de consumo e da massificação cultural, não basta sofrer por si e pelos seus familiares...A morte, como todo ato humano, precisa de uma embalagem mercadológica...Uma espetacularização...

Claro, desse processo, vêm uma série de outros subsidiários, mas que confirmam o caráter "publicitário" do sofrimento, que dentre outras coisas criou a obrigação a comiseração e solidariedade por estranhos, apenas por que eles ocupam, ou imaginam que ocupam, um papel de maior relevância na pirâmide social...

Assim, esse sofrimento privado foi alçado aos meios de comunicação, trazendo à tona nossas piores bizarrices...

Como por exemplo, na morte de um vereador local...

Na presença de tão triste e inesperado incidente, todos foram levados a aceitar e cumprimentar os que tentavam "agilizar" não só sua retirada do local, o que aliás é compreensível, humano e desejável...Mas o "agilizar" se estendeu a uma série de interferências de "autoridades" e "ex-autoridades", com ligações, e toda a sorte de gestões para tratar de forma "distinta" um ser humano, como outro qualquer um de nós, seres humanos...

Assim, a morte e o sofrimento de uns(os mais afortunados, influentes, etc)torna-se mais uma etapa segregadora da sociedade...

Aos críticos, os rótulos de "insensibilidade", "falta de solidariedade", e as perguntas mais cretinas: "e se fosse você, ou um dos seus...?

O que não enxergam, pois a comoção lhes turva os princípios, como já dissemos, é que a memória dos nossos ficaria muito melhor se lutássemos por tratamento digno para todos, para evitar um outro sentimento que acomete aos que estão do lado de baixo da pirâmide: sentirem-se lixo até quando morrem, pois para os figurões, a rapidez, laudos imediatos, assessores de imprensa e notas no jornal...para eles, uma cova rasa qualquer...a privacidade da indiferença...

Enfim, essas carpideiras modernas tratam a morte como uma coisa pública, e reclamam privacidade quando espetáculo é criticado...


7 comentários:

Jane Nunes disse...

Jornalistas noticiam fatos.Mas o fato de serem jornalistas não os torna seres humanos diferentes dos demais, que se sensibilizam ou não com as circuntâncias de determinadas mortes nem faz dessas pessoas carpideiras, na medida em que não estão estão chorando, e muito menos sendo remuneradas.
abs

Xacal disse...

claro, jane,

jornalistas são seres humanos, embora se esforcem sempre em NÃO AGIR como tais...

a dúvida é saber se eles estão entre os seres humanos mais ou menos coerentes com o princípios e valores que pregam(e exigem de todos), mas que se dissolvem com a tal da "sensibilização"...

é essa "cordialidade"(passar pelo coração, que vem de cordial, como diria Sérgio Buarque de Holanda)que sufoca conflitos, abafa críticas,e constrói privilégios...

para alguns, a atenção, para outros a indiferença...

é claro, não se pode "condenar" quem, de forma, supostamente humanista, corre a socorrer em auxílio de alguém...ressalto: não é uma questão pessoal...nem com os extintos, nem com suas carpideiras da rede...

o problema é querer, por causa desse gesto(cordial), aparentemente desprendido e altruísta, reivindicar uma isenção das críticas sobre os efeitos que tais "intervenções cordiais" causam na sociedade...

como se dissessm: a morte não é um ato político, pare de criticar...respeite os mortos...

ok, ok, ok, mas ajuda "chapa-branca", notícias, etc e tal, nada mais é que um símbolo de politização classista da morte...

como disse: para alguns, as trombetas do paraíso, para outros, a privacidade da indiferença...

quanto a questão carpideiras, lembre-se que por princípio, não se fala de chorar por dinheiro...considere esse "chorar" metafórico... e feito por vantagem pessoal qualquer, como por exemplo, parecer ser uma pessoa sempre solidária e desprendida, embora esperemos os aplausos óbvios, enquanto refutamos as críticas dos "arrogantes"...

e afinal, ninguém é obrigado a discutir os aspectos políticos da morte dos seus...claro...

mas também não pode exigir que outros não o façam, ainda mais quando fazem questão de "hoamnegeá-los publicamente", e não no recato do luto privado...

um abraço...

Anônimo disse...

Perdão Xacal mas, morte é morte seja lá de quem for e deve ser respeitada.Há de convir que os parentes não gostam de ver o seu ente querido, que acaba de partir, sendo massacrado politicamente ou socialmentte por quem quer que seja.Sendo motivo de crítica ou de brincadeiras sem graça...Pode ser pobre , rico, marginal mas a morte sempre significa alguma coisa no coração de alguém. Sensibilidade não se compra se nasce com ela,e cada um tem a sua em níveis deferentes.

Xacal disse...

Caro comentarista,

Não podem reivindicar respeito aqueles que tornam a morte dos seus, um espetáculo bizarro, onde mais uma vez, querem impor ao mundo sua condição "distintiva de classe"...

Como disse, e repito, quem quer recato, tem que praticá-lo...

Caso contrário, se tornam a passagem dos seus um evento público, que tomem para si as homenagens e o escárnio...

Meus pêsames...

Mário Andrade Câmara disse...

Concordo contigo!

Anônimo disse...

Nem sempre é a familia que faz da morte um espetáculo bizarro.Existem pessoas que faturam com notícias e comportamentos bombásticos com a morte de pessoas que apenas conhecem.Aí está a falta de respeito e dignidade do ser humano.

Anônimo disse...

Caralho! Isso tá rendendo ainda? Buáááááááááááááááááá!!!!!!!!!