domingo, 4 de outubro de 2009

Um minuto para Mercedes...



Em uma região onde somos ensinados, desde pequenos, a cultuar símbolos culturais exógenos, o nome Mercedes Sosa quase não causa espécie...
Não, esse não é um lamento de culturalismo chauvinista...
A riqueza das culturas é sua possibilidade de reciclar tradições, e permear novos olhares...O problema é que a cultura, é expressão, também, e principalmente, da luta de classes, e da sobreposição de interesses hegemônicos...Como em tudo na vida, não há "uma cultura neutra", a não ser para fascistas e neonazistas...Mas, na América Latina, conhecemos mais sobre a Guerra de Secessão, do que dos conflitos de libertação de nossos povos...

Talvez, só isso, a massificação anglófila da cultura e seus bens, explique o fato de termos, por décadas, em nossa grade curricular escolar fundamental, o ensino sistemático de inglês, em detrimento de línguas irmãs(latinas), e em particular, devido ao fato de sermos "cercados" por habladores de español, essa imposição cultural não fizesse sentido algum, mas faz sentido, todo sentido é claro, se olharmos para nós mesmos: cucarachos comedores de hamburgueres...Cheios de aproach...

Os neologismos que se revelam em letreiros e templos de consumo, e por outro lado, a "dificuldade" de nos "comunicarmos" com nossos vizinhos, são, quem sabe, causa-efeito de nossa política anti-regionalista, que só agora, parece estar em ritmo de mudança, para desespero de nossa elites conservadoras, acostumadas a subserviência aos patróns anglo-saxões...Morrem de medo de perder a tutela de bwana...

Eu, felizmente, consegui "escapar" um pouco a esse "cerco"...
Assim, uma memória forte de minha infância é a voz de Mercedes Sosa...Sabe-se lá o motivo, na casa de meus pais, e da minha família, em geral, grassava um ambiente de pluralidade cultural generosa...É verdade, ouvíamos de tudo um pouco...Essa "intuição" familiar permitiu aguçar um pouco o ouvido, apesar de todo o "massacre" cultural na Escola, e nos lugares e eventos de lazer...

Mercedes Sosa(na infância) é para mim, junto com Astor Piazzola(já mais tarde), o som de minha inciação na latinoamericanidade...Há outros, é certo...

A América Latina e o sofrimento secular dos seus povos, perdem um pouco o timbre de sua voz...

Descanse em paz, Mercedes...


Fotos: El País...

5 comentários:

Paulo Sérgio Ribeiro disse...

Belo (e verdadeiro) texto, Xacal. Curiosamente, é apenas uma suposição, os regimes autoritários favoreceram, mesmo a contra-gosto, uma relativa proximidade de seus intelectuais ao expatriar suas frações não-alinhadas. Darcy Ribeiro e Glauber Rocha e tantos outros talvez personificassem isso nos anos 1970. A "integração latino-americana", a despeito de todos os interesses divergentes associados àquele processo, requer uma reconstrução da memória política do exílio que dialoga com distintas tradições nacionais no Cone Sul.

Gervásio Neto disse...

Espetacular, Xacal!!!
Acordo mais triste hoje. Ouvi muito Mercedes na minha infância e lendo este texto só tive mais certeza de sua importância para o povo latino.
Obrigado por nos presentear com esse texto!

Anônimo disse...

"Volver a los 17", com Milton Nascimento, no insuperável LP "Gerais"...

Joca Muylaert disse...

Caro Xacal,

Realmente a notícia joga a gente pra baixo. Suas palavras são a expressão da verdade e nos faz mais resignados com esta triste partida.
Antes de ler o seu post tentava postar Volver a Los 17, porém minha "ampla" intimidade com o blog não permitiu. Mas em seu texto me senti contemplado. Permita-me
Bom domingo.

Anônimo disse...

Volver a los 17

Volver a los diecisiete
Después de vivir un siglo
Es como decifrar signos
Sin ser sabio competente
Volver a ser de repente
Tan frágil como un segundo
Volver a sentir profundo
Como un niño frente a Dios
Eso es lo que siento yo
En este instante fecundo.
Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Como el musguito en la piedra
Ay, sí, sí, sí.
Mi paso retrocedido
Cuando el de ustedes avanza
El arco de las alianzas
Ha penetrado en mi nido
Con todo su colorido
Se ha paseado por mis venas
Y hasta las duras cadenas
Con que nos ata el destino
Es como un diamante fino
Que alumbra mi alma serena.
Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Como el musguito en la piedra
Ay, sí, sí, sí.
Lo que puede el sentimiento
No lo ha podido el saber
Ni el más claro proceder
Mi el más ancho pensamiento
Todo lo cambia el momento
Cual mago condescendiente
Nos aleja dulcemente
De rencores y vilencias
Sólo el amor con su ciencia
Nos vuelve tan inocentes.
Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Como el musguito en la piedra
Ay, sí, sí, sí.
El amor es torbellino
De pureza original
Hasta el feroz animal
susurra su dulce trino
Detiene a los peregrinos
Libera a los prisioneros
El amor con sus esmeros
Al viejo lo vuelve niño
Y al malo sólo el cariño
Lo vuelve puro y sincero.
Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Como el musguito en la piedra
Ay, sí, sí, sí.
De par en par la ventana
Se abrió como por encanto
Entró el amor con su manto
Como una tibia mañana
Al son de su bella diana
Hizo brotar el jazmín
Volando cual serafín
Al cielo le puso aretes.
Y mis años en diecisiete
Los convertió el querubín.
Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Como el musguito en la piedra
Ay, sí, sí, sí.