domingo, 1 de novembro de 2009

Da série contos da TRoLHA: Revival...

Um pequeno repeteco, para encher esses dias de preguiça...

SEXTA-FEIRA, 9 DE JANEIRO DE 2009

Da série: contos da TrOlha...

O lado de dentro do espelho...

A dor de cabeça era insuportável...assim como o cheiro de suor e outras excreções humanas...O confinamento das vozes naquele recinto fechado tornava tudo ainda muito mais sombrio...
Abriu os olhos, e não entendeu nada...Como viera parar ali...?
Se lembrava de ter ido visitar seu irmão...
Fazia oito anos que não o via, desde que ele fora preso por latrocínio...Depois de assaltar uma lanchonete, seu irmão disparou quatro vezes contra a caixa...

Ele e seu irmão sempre foram muito diferentes, embora fossem gêmeos idênticos...Desde cedo, o mundo parecia um lugar pequeno e monótono para Cosme, enquanto ele, Damião, seguia sua vidinha pacata e rotineira...Sempre aluno dedicado, embora não contasse com a sagacidade e rapidez de raciocínio de Cosme...Um empregado zeloso das suas funções, mesmo que o salário não o incentivasse para tanto...
Damião vivia assim, sem grandes ambições, mas sem grandes frustrações...
Já Cosme era a dor de cabeça de sua mãe, uma viúva que fazia todos os malabarismos possíveis para prover o lar...Ficara sem o marido ainda muito jovem, e não cogitara casar novamente, ainda mais com dois filhos...
Volta e meia, Dona Zilá acabava em Delegacias para "safar" Cosme de alguma "embrulhada"...

Dessa última vez, não houve jeito...Cosme fora condenado a 14 anos, dois meses, e 34 dias de reclusão em regime fechado...

Desde então sua rotina se guiava pelos dias de visita na cadeia...
Sua mãe insistia para que visitasse o irmão, e por ciúmes, raiva, despeito ou tudo junto, não entendia bem como sua mãe se dedicava tanto a uma pessoa tão má como seu irmão...
Nunca fora vistitá-lo, e sua mãe lhe cobrava por isso...Fiel ao seu estilo pacato, não discutia, inventava uma desculpa, e quem sabe...iria na próxima...

Quando sua mãe adoeceu, e já no leito de morte lhe fez jurar que iria visitar o irmão, não teve como negar...

Como não era homem de descumprir a palavra dada, tomou as providências para se cadastrar como visitante no presídio...
Morava em Irajá, e o complexo prisional de Gericinó, em Bangu, nem era tão longe...Mas a viagem de ônibus pareceu uma travessia do Atlântico...Não que tivesse pressa, ao contrário...No entanto, queria acabar logo com aquilo...

Abriu os olhos definitivamente, e tentou se sentar...Não conseguiu...A cabeça doía, e pareceia que carregava dez toneladas dentro dela...Mesmo deitado naquele beliche infecto pode ver onde estava...E não acreditou...Estava em uma cela de cadeia...
Seu raciocínio se misturava e fluía como uma enxurrada...Daquelas que acontecem quando o valão enche e carrega tudo em volta...Não conseguia se "agarrar" a nenhum pensamento...A impressão que tinha era que se "afogaria" na sua própria imaginação...

Quando conseguiu se levantar e ajustar as idéias no lugar(se é que era possível) realizou o que acontecera...Seu irmão o drogara, o famoso "boa noite, cinderela", e fugira dali, deixando-o preso em seu lugar...

Respirou fundo e tentou se acalmar...Afinal, assim que pudesse, chamaria algum funcionário e desfazeria essa situação...
Descobriu logo que cada um naquela cela e naquele presídio, provavelmente, tinha uma "estória" mais crível que a sua para contar...Como sempre ouvira: ali, todos são inocentes...

Para sua "sorte", seu irmão como ladrão, gozava de bom conceito dentro da cadeia...Mas isso não o livrava de ter que saber por onde e com quem andava...Os territórios, os hábitos e a convivência naquele mundo são bem demarcados...e a punição, por incrível que pareça, parece mais rápida e eficiente do que a Justiça...

Com o passar do tempo, começou a entender como funcionava aquele delicado ecossistema...Qual o papel dos agentes, dos outros presos, das visitas, etc, etc...

Estava ali, isolado, sem ninguém do lado de fora por quem chamar...E pensava, pensava, e mais a raiva de seu irmão e de sua mãe aumentava...Tinha ido por ela, e se estrepado por isso...A sua vida pensando bem, podia ser resumida assim, nunca fizera escolhas em seu nome, mas sempre para agradar os outros...Pagava um preço alto por isso agora...
Seu irmão, uma assassino, ladrão, ao menos contava com sua mãe...Ele não contava com nada...

Estabeleceu uma meta para si mesmo...Haveria de sobreviver até que pudesse sair, resolver o "mal-entendido", mas para isso não era necessário sucumbir, ou seja, não poderia se tornar um presidiário...Não cometera crime algum, portanto, era preciso manter essa distinção, ao menos, para sua sanidade...

Logo foi apresentado a uma nova realidade...

Foi chamado por um dos guardas para ter uma conversa com o Diretor...
Enfim, pensava, alguém decidiu corrigir as coisas, ou melhor: descobriram e prenderam seu irmão Cosme, o verdadeiro presidiário...
Não era bem assim...
O Diretor até prometera lhe "ajudar", mas naquele mundo, cada coisa tem um "valor"...Dentro da cadeia, a informação é um dos bens mais preciosos...Por issos, os "cachorrinhos", ou delatores, eram tratados sem misericórdia...

Não tinha nada a perder, e nenhum laço de "solidariedade" que o vinculasse aquela "escória"...
Aceitou vigiar os "colegas de cela", em troca, o Diretor abriria uma sindicância interna para apurar a possível troca de identidades...

Fez a sua parte, e ganhou a liberdade...

Hoje, cumpre 23 anos por homicídio...Dias depois que saiu, conseguiu achar seu irmão, e o matou...!

3 comentários:

Blog Vitor Longo disse...

Xacal,

Penso que você está perdendo uma oportunidade. Com esse talento para a escrita desse genero, você é CAMPEÃO.

Pode acreditar! Não é confete que estou lhe jogando. Leio esses dramas com prazer.

Se fizer uma coletânea de seus escritos, ou até mesmo, escrever um livro, acredito que não faltará editores interessados em publicá-los.

Parabéns!

Anônimo disse...

Xacal, cada dia melhor!
Não para, não para não...

Cláudia disse...

Como sempre, você consegue despertar com suas histórias, contos, um misto de dois sentimentos antagônicos. A anterior que li sobre o 'anjo" me fez sentir raiva e ao mesmo tempo doçura. O óbvio, e ao mesmo tempo o inesperado. Você não é só um gênio nas suas leituras críticas sobre os assuntos áridos do dia-a-dia, mas também um doce na sua literatura.