segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Obituário da TROlhA...nº 1

Essa nova seção, o obituário da TrOlHA destina-se a recolher relatos daqueles que, direta ou indiretamente, contribuíram para que esse espaço permanecesse ativo por dois anos, que serão completados em 29.12, data de seu sepultamento...

Primeiro, solicitei aos companheiros do Outros Campos(outroscampos.blogspot.com), que escrevessem algo sobre a TrOLha, e o seu fim iminente...Digamos que nesse primeiro instante, privilegiamos um olhar "acadêmico", mas sem perdermos de vista que se tratam de "camaradas de jornada", ou seja, não se trata de um olhar "neutro"(impossível), nem tão pouco destinado a mera adulação estética e estéril...No decorrer dos derradeiros dias, outros "camaradas", blogueiros, amigos, leitores/comentaristas, serão chamados(se quiserem, é claro)a essa tarefa...

O texto você lê aqui:

Título: Xacal Morreu. Viva o Xacal!

George Gomes Coutinho

Quando Xacal, “o homem que eles amam odiar”, me fez o convite para escrever algo para “A Trolha” em seus aparentemente derradeiros dias me vi em uma desafiante sinuca.
Afinal eu escrevo na chamada “blogosfera” a partir de um lugar específico. Este lugar específico é o da sociologia, obsessão em forma de ciência que me persegue em meu cotidiano, sendo motivo de tantas muitas alegrias quanto de inquietantes angustias. Mas é meu lugar, meu ponto de partida. E o convite me soou como “fale do seu lugar”.
Quando aceitei de pronto o convite, portanto, imaginei que eu deveria me lançar em um exercício ao menos com algum verniz sociológico. Ensaisticamente pensar em breves linhas o que é o Xacal, sua contribuição em uma esfera pública sempre subnutrida como a de Campos e os não poucos limites do personagem.
Afinal, a sociologia deve ser tudo. Menos auto-indulgente quanto ao que se propõe a fazer.
Tampouco deve participar de mistificações. O ofício do sociólogo deve se dar ante o enfrentamento da doxa, do senso comum, visando expor a ossatura que subjaz a este complexo e interdependente arranjo que costumamos chamar de “sociedade”.


Assim devemos pensar porque o Xacal causou tamanho impacto na esfera pública local.
O personagem é uma resposta, contra-hegemônica e ácida, a uma esfera pública pouco acostumada ao dissenso.
Na verdade, como sustento já há algum tempo, se há um ponto irrefutável e capaz de aglutinar algo próximo de um “garotismo” enquanto tipo-ideal é a busca pela anulação dos dissensos e, por outro lado, a construção pouco convincente de consensos artificialmente sustentados (vide coerção via capital econômico ou político).
O “garotismo” causou uma devastadora conseqüência na esfera pública local com a sua busca desenfreada por ocupar todos os espaços que tenham correlação direta com a vida em coletividade. Sem discurso ou projeto. Capilarizando-se em entidades de classe, imprensa, agrupamentos políticos do movimento estudantil, etc., o grupo vinculado a esta ação personalista eliminou o convencimento discursivo, próprio da política e da construção de consensos legítimos, e de forma truculenta cooptou objetivamente grupos e indivíduos. Quando não foi possível criou seus próprios aparelhos privados de hegemonia.

O recado sempre foi só um: sigam-me ou lhes devoro.

A ameaça, pautada no argumento objetivo do capital econômico ou do capital político (perda de empregos, verbas, influência, prestígio, etc..), gerou a desmobilização e o medo enquanto sentimento compartilhável. Além das fissuras políticas visto que até mesmo estruturas partidárias e discursivas são absolutamente descartáveis ante uma noção de fazer política tão moderna e egoisticamente informada.
A instrumentalização dos partidos e a efemeridade destes é o exemplo mais auto-evidente disto (nota 1).


Isto provocou todos os problemas que já ventilamos alhures na política e na vida local.
As dificuldades de um discurso republicano se impor, uma outra concepção de esfera pública, uma imprensa amordaçada, grupelhos de “intelectuais” cúmplices e geradores de uma legitimidade medíocre, a recusa peremptória do mérito enquanto gramática moralmente relevante, etc..
Ainda simbolicamente criou-se uma carapaça de hipocrisia que torna difícil qualquer embate discursivo paramentado pela busca da verdade. Em uma sociedade em que a moeda política não tem diferenciação com outras esferas da vida construímos uma cidade refém de si mesma, onde todos sabem o que, onde, como ocorre..
Mas, com informações circulando em âmbito privado, covardemente escondidas, onde todos sabem quem anda enriquecendo ilicitamente, quem ameaça quem, quais os preços cobrados por tal apoio “X” ou “Y”. Desconheço nome de operação policial mais adequado do que “Telhado de Vidro” dado que se trata da uma estrutura nada virtuosa sistemicamente apresentada, transpassando os grupos. Há apenas exceções. Nada mais do que exceções.


Nestes termos, em um cenário político complexo, o Xacal e a “Trolha” vocalizaram estes elementos.

Na verdade, os blogs como um todo ventilaram, publicizaram, quebraram a barreira, em maior ou menor grau, entre informações que circulavam privadamente sobre o péssimo uso da coisa pública em Campos dos Goytacazes tanto dentro quanto fora da prefeitura.
Há colegas processados na justiça por terem apresentado algo próximo da idéia de “verdade” onde o enfrentamento franco foi substituído por cooptação simbólica, econômica ou política. O problema é que a busca de “verdade” é o fundamento da esfera pública. Sem “verdade”, sem a formação de consensos legítimos temos esse arremedo de esfera pública. Os blogs fizeram isso tentando, de forma limitada, reabilita-la. E “A Trolha” potencializou isso.


Ora, o Xacal possivelmente tornou-se uma espécie de “eminência parda” da esfera pública local.

Tanto entre seus admiradores quanto, pasmem, entre seus detratores. Na verdade os blogs tornaram-se uma ferramenta fundamental de monitoramento reflexivo da ação em âmbito local, justamente por apresentar elementos que a sempre cooptável imprensa tradicional desistiu de explorar.
Mas, seu estilo e sua opção política, mesmo tendo adquirido gradações em escalas de maior ou menor virulência, causou impacto justamente por apresentar golpes enfurecidos contra a carapaça de hipocrisia que paira sobre Campos dos Goytacazes. Não se trata de uma carapaça que torna intransparente as relações sórdidas ocorridas entre seus agentes. Isto todos sabem. O problema é a recusa de vocalizar isso na esfera pública.


O Xacal, portanto, representou este elemento. Um “grilo falante”, uma espécie de inconsciente da sociedade local, a representação de forças do fundo do eu humano que desembocam em energia. Esta energia sempre fundamental para tornar as utopias acesas novamente. Há muito li uma frase no meio punk que me marcou profundamente: “Vandalismo: tão bonito quanto a pedra na cara de um guarda”.
Xacal é essa pedra, odiada justamente por quebrar a carapaça da hipocrisia. Porém é igualmente admirado pela sua ruptura do modus operandi da esfera pública local trazendo a tona qualidade discursiva, inteligência e um argumento sempre honesto. Como deve ser a esfera pública que algum dia precisamos construir, tendo devassado inclusive os “falsos ídolos”, os intelectuais orgânicos dos agrupamentos políticos locais que se sentem paradoxalmente tão ameaçados quanto irremediavelmente atraídos.


Mas, há o reverso da medalha.

Justamente a esfera pública, discursivamente informada, espaço de tratamento dos dissensos, necessita de um tipo de interação específica onde ação seja interpretada enquanto legítima.
As interações face-a-face. Este é um ponto de legitimação da ação, onde a intervenção no espaço público é valorada positivamente. É nas interações face-a-face, no “olho no olho”, que os debates decisivos são travados mediante competência discursiva. Este é o ponto mais frágil da blogosfera em geral e no caso do Xacal isto atinge o apogeu do paroxismo.
Afinal, a política fática se dá ante poder desigualmente distribuído, onde há relações assimétricas e a escassez deste elemento em disputa. Política é gerar efeitos vinculantes ante decisões voltadas para a coletividade. A capacidade dos agentes fazerem isto relaciona-se ao quantum de poder em disputa sob determinadas regras do jogo claras.


A blogosfera não o fez. A blogosfera resulta em monitoramento reflexivo da ação. Há conseqüências políticas mas, não há efeitos políticos diretos desta. Creio que não é necessário um amontoado de dados empíricos para entendermos os baixos efeitos da blogosfera na política formal local. O discurso não penetra a carapaça. Isto no caso de agentes que assumem um posicionamento de potencialidade de interações face-a-face. Há nomes, endereços, ocupações profissionais. Sujeitos concretos que são bem quistos pelas regras do jogo.

Mas, e o Xacal enquanto personagem? Qual sua capacidade de mobilização real, para além do belo trabalho de monitoramento reflexivo da ação e da quebra da carapaça hipócrita local? Eis sua debilidade mais evidente: o problema do déficit de legitimação onde as regras do jogo contam e exigem interações face-a-face.


Nestes termos a morte do Xacal é bem vinda. Seu trabalho cumpriu uma importante tarefa de incremento de reflexividade e inteligência onde justamente há a escassez de ambas. Mas, que o personagem morra para que o autor contribua de forma ainda mais efetiva com a sua notável e arguta capacidade analítica. Reconhecendo inclusive um paradoxo na hipocrisia: esta detém um ganho civilizatório ante quem joga nas regras do jogo. Em determinados momentos a hipocrisia evita o cenário da guerra de todos contra todos. Amém.

* Nota 1: Quando me refiro a algo chamado “garotismo” não estou me restringindo somente à figura do seu criador. Refiro-me a um conjunto de práticas, mais ou menos homogêneas, onde há a preocupação última com a instrumentalização das relações em um sentido bastante pragmático: a ação política deve consolidar as alianças a qualquer custo e punir severamente os desafetos. Isto se dá sem o invólucro de legitimação de um projeto político que consubstancia este tipo de ação. Quando um projeto surge o faz de forma postiça, vide a participação do economista César Benjamin na confecção de um projeto político deste grupo no governo do estado do Rio de Janeiro em tempos passados. De toda forma, A prefeitura nos últimos anos não tem servido a algo além do que uma prática de aliancismo para fins pessoalizados e isto vai além do próprio Garotinho enquanto agente.




10 comentários:

Axel disse...

Interações "face-a-face" como critério de legitimação intervenção na esfera pública?

Ok, ok. Se considerarmos a esfera pública não somente como um espaço de embate e de formação de consensos, mas sobretudo como um espaço identitário, essa conclusão me parece válida. Afinal, o interlocutor desconhecido é aquele que se subtrai à crítica.

Entretanto, ainda resta a sensação de que ao endossarmos a crítica do suposto "anonimato", terminamos por estabelecer uma precedência à pessoa em detrimento dos seus argumentos, quando, na verdade, estes últimos são, de regra, mais importantes que a "cara" do interlocutor.

Afinal, que valerá mais: O argumento da autoridade ou autoridade do argumento?

Anônimo disse...

Vou sentir saudadesss...
Muitas...
Mariana
:)
:***

Anônimo disse...

Sugiro aos leitores acessarem http://www.elpais.com, edição de 12/12/2009. Nele há uma matéria intitulada: El hombre que asombra al mundo, escrita pelo primeiro ministro espanhol José Luiz Eodríguez Zapatero.
Trata de dados biográficos, da carreira política de Lula e, principalmente, da sua administração (de Lula), que miminuiu as desigualdades sociais e o considera um dos maiores líderes mundiais, que elevou o país no cenário mundial, dialogando de igual para igual com todos os chefes de nações. Num parágrafo ele diz: “Nesse objetivo segue o homem honesto, íntegro, voluntarioso e admirável, convertido em uma referência indiscutível para a esquerda do continente americano ao sul RioGrande. Tem uma visão do socialismo democrático que visa a inclusão social e a justiça do meio ambiente para tornar possível uma sociedade mais justa, decente, fraterna e solidária”.

Anônimo disse...

Ótima análise, principalmente quando identifica que o papel do Xacal já chegou ao fim, mas não o do homem que está por trás dele...
Se esse cara que se diz Xacal, se coloca como candidato, eu largo até o meu emprego para lutar em sua campanha...
Vou pedir voto como muito gosto, consciente de que estarei fazendo o melhor para o meu país.

George Gomes Coutinho disse...

Caro Axel,

Antes, obrigado pela observação.

Mas, veja que eu parto de uma ótica de legitimação por procedimentos. Nestes procedimentos são processados os dissensos. Procedimentos estes que são tidos por legítimos pelos diferentes agentes em interação na esfera pública. Não digo nem se estes são bons ou ruins. São legítimos na ótica dos agentes.. E as interações face-a-face, em embates discursivamente informados, me parecem fundamentais sim para entendermos como se constróem os novos consensos. O convencimento não é jamais um exercício etéreo entre "razões" desencarnadas...

Portanto eu abdico de uma noção substancialista de "argumento" ou de "verdade" para compreendermos que as mesmas são contextuais.

Respondendo a sua pergunta: o que vale mais é uma esfera pública oxigenada onde as regras sejam aceitas e modificadas pelos agentes mediante novos consensos (caso exista esta demanda). E esta, a esfera pública, só é legítima se os agentes puderem construir a mesma...Não há "o argumento". Há critérios de legitimação para os argumentos.

Isto em uma ótica habermasiana. Que é de onde eu parto.

Abçs

George

Herval Junior disse...

Xacal, o "Reinaldo Azevedo" da esquerda brasileira.Ops! Desculpe-me pela comparação.
Não se vá,Xacal!
Ainda não!

Anônimo disse...

Imaginem Xacal na câmara de vereadores de Campos!!!!

Claudio Kezen disse...

Alguém pode traduzir para o português a resposta do George?

Brincadeirinha, George...

Xacal, mesmo sendo um pé no seu saco, gostaria dizer aqui o seguinte:

Você é um soco no estômago da canalhice/caretice predominante na mídia, na classe política e na famigerada classe média emergente nesta cloaca chamada Campos.

Fique, primo. Com outro nome, outro pseudonimo, como vc quiser, mas fique.

Alah salam aleikum.

Xacal disse...

Obrigado ao Herval e ao Cláudio...Bom, eu acho que isso foram elogios...hummm. será....???

rsrsrsrs...

Alah salam aleikum...

George Gomes Coutinho disse...

pô Claudio! O pior é q eu me esforcei!