quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Obituário da TROlhA...nº4

O articulista Bruno Lindolfo é um desses talentos raros...Não o conheço pessoalmente, mas suponho ter pouca idade, o que torna mais assombrosa sua percepção do mundo que o cerca...Essa percepção se expressa nos ótimos textos que publica no blog do Roberto Moraes...Não é pouca coisa participar de um blog que é referência para todos nós, da blogosfera e fora dela...

Por isso, muito nos honra publicar suas palavras para o Obituário da TrOLha...

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E já se vão quase dois anos do surgimento de um personagem marcante na blogosfera. Inicialmente nos comentários dos blogs, o Xacal aparecia com o nome do que, posteriormente, viria a batizar seu blog: atrolha. As postagens já traziam a sátira habitual e o furor ferino analítico que compõe dissecar os mais variados assuntos com agudeza ímpar. Lembro que, à época, sugestionei ao Xacal que transformasse aquilo tudo em blog. Ainda reticente com a idéia, porém, certamente, já fervilhante, o editor da Trolha reafirmou o caráter independente e pouco afeito a regras e domesticação de seu personagem e veículo. Uma semana depois, porém, debutavam ATrolha e o Xacal na rede e no imaginário popular.

Hoje, passados dois anos, incumbe aos leitores, novamente, realizar um pedido ou uma sugestão. Agora pelo “não-fim” desse espaço ou, talvez, pelo não afastamento desse editor que nos brindou com o fino nesse biênio.

Por aqui já se fez conto, verso e se trocou um dedo de prosa. Já se trocaram farpas, também. Já se discutiu futebol, onde o esporte bretão foi tratado sem paixões clubísticas e com estilo de antigamente. Até meu tricolor foi reportado em crônicas que se curvavam sem cerimônias à beleza do futebol bem jogado, da devoção de uma torcida e das épicas campanhas, coincidentemente, dos últimos 2 anos, a despeito do rubro-negro editor. Já se falou de política com maestria, discutiu-se religião, boa música e filmes. Nas incursões quando o assunto foi segurança pública: uma aula a parte, digna de constar nos melhores manuais sobre o assunto.

As releituras do cotidiano fizeram abandonar a leitura dos jornais locais, esses que abusam do anacronismo, seja de seu formato, seja dos interesses conservadores que representam. E assim a Trolha se firmou como leitura diária e necessária, inclusive dos donos das mídias tradicionais que tripudiam, criticam, fazem proselitismo póstumo, mas já cortejaram e tentaram aprisionar A Trolha com seus apelidos infames e todo o pacote escatológico e pouco politicamente correto que se produz e sempre se produziu por aqui, outrora cobiçados, hoje rechaçados pelos novos vestais. Outra característica marcante desse espaço é que poucos dias de lapso e relapso em sua leitura e o leitor é obrigado a compulsar algumas páginas atrás, tamanha profusão textual. A própria estrutura do texto, onde pontos e vírgulas são substituídos por reticências, dá o tom de fluidez e irrequietude do editor. E se tal fato nos faz, leitores, reféns da Trolha, tornando esses momentos derradeiros tão sentidos e lacunosos, certamente e com alento, faz também seu editor, posto que difícil ou impossível que se desvencilhe de tudo isso que faz com tanto gosto.

Ora, mas se tudo que se debateu nesse blog poderia e pode, tranquilamente, ser transposto e continuado em outro espaço, porque então ainda se recente o fim do Xacal?

E talvez aí resida o dilema do Xacal e do que ele representa para cada um de seus leitores e admiradores desse espaço: mais que o alter ego de seu editor, talvez possa ser também desses últimos. Talvez seja o vingador mascarado que, sob o beneplácito do pseudônimo, elegemos para realizar o “trabalho sujo”, politicamente incorreto, o sujeito destinado ao combate mais corpóreo, visceral, anárquico que não podemos fazer ou dizer. Sim, porque não há dúvidas de que o pseudônimo confira uma instancia mais confortável de embate. As coisas da vida se dividem bem entre as dizíveis, as indizíveis e as que podem até ser ditas, porém de tal modo ou em tal contexto. E os motivos para tal coisa, dependendo do sujeito, vão desde os republicanos, aos pouco ou nada ortodoxos. Os papéis de Quixote, ressaltando-se pela nobreza, não pela ingenuidade, são sempre bem requisitados, o que não se observa, com certa razão, com relação aos mártires. E talvez esse papel de vingador, tanto para o editor quanto para “nós todos”, já esteja gasto. Não se critica aqui o uso de pseudônimo, o “Publius” da experiência Federalista está para a história como “anônimo” transformador, o que se diz aqui é tão somente que tal experiência tem alguns papéis a cumprir. Um dos quais o de provocar o debate com a difícil tarefa de que não se possa valorar, pessoalmente, seu interlocutor, o que bem demarca os canalhas que se esquivam das idéias e da crítica feita, posto que anônima. Bom que se frise que, embora não se saiba quem assina, todas as opções da Trolha sempre foram honestas, francas e transparentes, o que permite delimitar o quê e com quem se debate, o que não ocorre com outros tantos que defendem interesses inconfessáveis escamoteados e subscritos preto no branco.

E essa fase de transição da Trolha parece ser uma problemática da blogosfera: como transpor essa cara de rede eminentemente virtual para algo que possa transmudar em protagonismo social? Aqui, com humildade, discordo dos doutores que vêem nessa problemática uma falha. Trata-se, a meu ver, tão somente de uma questão de procedimento, de como proceder diante de um veículo de multiplicidade de possibilidades, porém novo. Não difere em nada do hermetismo acadêmico. A rede que, embora rede, se esbarra nos desalinhos das especificidades de cada um de seus blogueiros componentes, pouco se distancia do rigorismo habermasiano da academia.

Esses dois “aquários de peixinhos autofágicos”, cuja vida não encontra muita experiência no mundo da vida, porém, ainda se posiciona em patamar superior daqueles que só sobrevivem vendendo e alugando o verbo. De um lado a problemática do proceder, de outro o problema de caráter. E esse cardume incomoda. É como dizem, ninguém gasta vela com defunto barato, quiçá advogados, demandas milionárias, dons espíritas, muita tinta preta no branco e insônia, muitas noites insones.

Que o Xacal e a rede não se furtem de incomodar, pensar e repensar essa cidade e suas potencialidades. Que a Trolha descanse em paz, porque cumprido o seu papel, e que seu fim seja marco de um recomeço. De cara limpa. Até breve.

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4 comentários:

Anônimo disse...

Parabéns Bruno, excelente análise!
Acho que Chacal é um ser humano realmente preocupado com os problemas sociais, e isso o torna uma pessoa especial!
Mariana

Anônimo disse...

Realmente o Xacal é uma pessoa de necessidades especiais.

Comentarista especializado em mongoloides

Anônimo disse...

Xacal... acho que voce nao deveria liberar comentarios discriminatorios de pessoas ignorantes como o anonimo acima.

Valeu !!

Bruna disse...

Belo texto!
Parabéns Bruno!