sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Obituário da TROlhA...nº5

Agora é a vez do outro "alemão", o Roberto Torres...Se no "dialeto" da violência urbana, "alemão" é inimigo, aqui, essa condição se inverte...Companheiro do blog outroscampos.blogspot.com/, Roberto esteve junto com a TrOlha na trincheira virtual de resistência...Algo como "brothers in arms"......Leia aí o seu texto para o nosso obituário:

A política do Xacal


Quero escrever "autenticamente" algo sobre o Xacal, e para mim isso só pode significar escrever de modo artificial, usando os "artifícios de comunicação" que aprendi em minha experiência profissional como sociólogo. Portanto, que me perdoem os leitores que não nutrem nenhum interesse pela "visão de mundo" da sociologia... mas não consigo fazer de outro jeito.

Acredito que no blog "A Trolha" Xacal poem em prática uma concepção de fazer política que também compartilho. Xacal desempenha simultaneamente duas funções complementares da política: a busca do convencimento através de argumentos e o recurso explícito ao conflito, ao embate, à denuncia da situação em que a força do argumento apenas referenda o argumento da força. Com isso Xacal quer nos fazer lembrar que não existe argumento imparcial, isento. Por isso explicita uma posição toda vez que fala, sempre contrária ao discurso cínico, falso, que postula ser isento, limpo de interesses. Xacal sempre busca comunicar e tematizar o que o move a escrever, embora, creio eu, nenhuma pessoa seja a melhor posição para observar a si mesma.
Ele não esconde que gosta de ser elogiado, como todo mundo gosta. De modo que, ao entrar no jogo dos argumentos, ele se mostra, é honesto intelectualmente.

Exatamente o contrário, por exemplo, do recurso à (impossível e falsa) posição de isenção que uma gente ridícula, desonesta intelectualmente e movida a algo que ninguém pode saber bem o que é, covardes que nunca tomam posição clara sobre o que realmente está em jogo, gente que hoje domina a imprensa e o discurso e a prática do direito a fim de perpetuar as coisas como estão.


Xacal ataca a hipocrisia do discurso dominante, a fim de mostrar como nos assuntos mais diversos sempre existe a ocultação de fatos, através de uma seleção sempre arbitrária do que deve ou não ser tematizado.
Mas qual é afinal o interesse e a posição de Xacal? O que ele, mesmo não podendo esgotar todo o leque de sentidos de sua prática como nenhum dos mortais pode, tem de melhor em comparação com tantos outros que escondem sua posição no suposto "interesse pela isenção"?

A meu ver, o que ele deixa claro para todos nós é o interesse de ser reconhecido como alguém capaz de desafiar o acordo de covardes que buscam ou algum privilégio material com o "garotismo" ou algum privilégio profissional nas corporações autoritárias da imprensa e do direito. Xacal, claro, faz isso porque pode, ele tem a escolha, a decisão de não ficar em silencio. Muitos não tem essa opção.


Mas o fato é que movido por este interesse Xacal busca vencer o adversário no terreno dos argumentos, dos melhores argumentos. E para isso sua primeira arma é expor o seu interesse e mostrar quando o oponente não expõe os seus.
Sempre sabemos de que lado Xacal está, porque ele é honesto intelectualmente para assumir que as disputas no campo da razão sempre se movem por razoes que a razão desconhece. Justamente por essa dinâmica, por este modo de fazer política minuciosamente cultivado por Xacal, ele pode fazer valer, em algumas situações e ao longo do tempo, a que o melhor argumento prevaleça de algum modo, ainda que o melhor sempre seja provisório. E isto não significa que o melhor argumento precise ser o do Xacal. Pode não ser. Mas a dinâmica que ele instaura leva a que os oponentes, sabendo que Xacal é assistido (nos dois sentidos do termo) por um público, busquem argumentos mais universalistas do que os originais. Mais universalista aqui é um argumento que resulta da consideração de mais perspectivas de mundo e pontos de vista, que seja menos escravo da ignorância de um ponto de vista inicial, embora nunca poderá existir um argumento livre de um determinado ponto de vista.
Mas para isso Xacal sabe que precisa abandonar com enfase a pretensão odiosa da isenção, pois esta, ao anunciar uma posição que não pende para nenhum lado, se recusa ao aprendizado, ao alargamento da perspectiva, tanto em termos cognitivos, quanto em termos efetivos.


No meu interesse de ser reconhecido como alguém capaz de, com meus recursos profissionais, dizer algo relevante para o entendimento da sociedade, para esta tematizacao da sociedade que levamos a cabo todos os dias em nossos lares e em nossos blogs, vejo o Xacal como um exemplo para tentar praticar honestidade intelectual no dia a dia. A mensagem deste exemplo é a seguinte: não existe discurso, fala ou texto que não represente uma hierarquia de posições e interesses e o único consenso verdadeiro possível só pode começar pela tematizável do conflito.

Nenhum comentário: