sábado, 14 de maio de 2011

TroLhAdas culturais...

Segue a nossa maratona cinematográfica...

Nessa sexta-feira foram "digeridos" dois clássicos...Um verdaderio "banquete"...

Como "entrada", Easy Rider (Sem Destino), escrito por Peter Fonda e dirigido por Dennis Hopper, que são também, e não por acaso, os dois protagonistas, do roadie-movie, junto com Jack Nicholson...

Fiel ao velho costume, o blogueiro revisita os filmes, para contextualizar suas referências com o passar do tempo...
Essa mania já foi dita aqui, outras vezes...
Já falamos isso, mas não custa repetir...Alguns filmes trazem na essência uma idéia, ou uma proposta que não se esgota com o tempo...Isso não desmerece filmes datados, que têm seus roteiros e argumentos vinculados a eventos específicos...
De certa forma, não é errado supor que todos os filmes, ou obras literárias, ou qualquer outras manifestações artísticas, carreguem em alguma parte, uma visão atemporal sobre algum valor ou tema caro à Humanidade...Uma "moral" atemporal...No entanto, em certas obras, esse ingrediente é princípio, meio e fim, e não apenas um incidente...

No filme de Peter Fonda/Dennis Hopper, por exemplo, o debate fundamental é perene, e talvez eterno, sobre liberdade, sobre tolerância e visões distintas da realidades que se chocam, e como esses conflitos são resolvidos em determinadas sociedades...

Quem ouve o diálogo entre Nicholson, Fonda e Hopper, acampados à beira de estrada, no caminho para Mardi Gras(festa tradicional de rua, em New Orleans), após serem "expulsos" de uma cidade típica do sul estadunidense, habitadas pelo homem rural típico(conhecidos como "red necks"), intolerantes, racistas, e patriotas(é lógico), tem a impressão de que a conversa deles é sobre a situação atual dos EEUU, atolados em guerras "injustas e sujas", encurrlados por dilemas morais que ameaçam a sua própria idéia de nação livre, que reagem com mais e mais violência para defender liberdades, que soam cada vez mais como slogans, pendurados em alguma parede, ou cantados em alguma propaganda qualquer...
É como se o o filme tivesse sido rodado em alguma cidade do Arkansas, Alaska, ou do Texas, nos dias de hoje...
O desfecho do filme também simboliza fim da idéia funadamental que fundou o país, e torna toda luta em nome desses valores inútil e falsa...ilegítima...

Some tudo isso com uma trilha sonora fantástica, belas tomadas em plano aberto, que revelam uma paisagem de um país exuberante, algumas referências da (contra)cultura beat, e as maravilhosas motocicletas usadas pelos dois easy riders...Fatntástico filme...


Já o outro filme, digerido como prato principal, dada a sua densidade, coincidentemente, de de forma aleatória, trata dos mesmos temas caros a maior democracia do mundo, como eles se autodenominam...
Aqui, no filme de Alan J. Pakula, o ambiente é outro, e também tão tipico do imaginário estadunidense, quanto a estrada ou o far west: A redação de um grande jornal, nesse caso, o Washington Post, na década de 70...Onde se gestou e nasceu o Watergate, o escândalo que derrubou Nixon, e inspirou o livro e filme, All The President's Men, ou Todos Os Homens Do Presidente...

Dustin Hoffman e Robert Redfordo encarnam Carl Bernstein e Bob Woodward, respectivamente, que na vida real viveram a dupla de jornalistas que realizou a mitica missão que todo jornalista sonha: Derrubar um presidente com uma reportagem investigativa...
O filme é baseado no livro de ambos, que conta o roteiro dessa trama clássica de conspiração...

Visto hoje, o problema abordado vai além dos conflitos éticos do jornalismo, e desse enfrentamento entre o poder midiático, que mistura uma ética privada da empresa com a missão pública da informação, e o poder político constituído pelo voto, e o poder da burocracia que cerca essas duas esferas anteriores...

Na trama, essa promiscuidade de interesses(políticos, "de Estado", jornalísticos), nem sempre visíveis, mas sempre realçada na contradição da conduta correta(ou quase sempre)dos profissionais e seus superiores, que de certa forma, mitifica ou procura dar certo heroísmo ao personagens...Compreensível, ainda mais se olharmos para o que se transformou o jornalismo naquele país, e por miséria nossa e do nosso atávico mimetismo, o nosso jornalismo brasileiro...

É quase como se, ao assistirmos o filme, desejássemos jornalistas com a ambição auto-suficiente e arrogante de Bernstein, com o instinto e determinação caipira e galante de Woodward, um quase ingênuo...Diante de mercenários de redação e toda sorte de jornalistas de coleira, no dias atuais, o filme torna-se anacrônico, de um lado, pela superação de um tempo onde jornalismo investigativo tinha uma utilidade e um viés calcado no interesse do público a ter informação FACTUAL de qualidade, ainda que mediada por interesses, é lógico...
Por outro lado, é atual o debate pelo intenso grau de partidarização a aparelhamento da mídia, a corrupção de seus valores pela necessidade de sobreviver atada ao poder que lhe "alimenta", mas limita quanta liberdade e de que forma essa liberdade se expressará...Como a defesa da liberdade de imprensa por esses órgãos é, então, hipócrita e falsa...

Ao término do filme, é possível enxergar como a sociedade estadunidense e seu jornalismo "evoluíram" desse estágio para o atual, onde diversas crises e escolhas políticas trouxeram para dentro da mídia a tarefa de fazer o trabalho "sujo",  de atacar, difamar e manipular a visão que a sociedade têm dos adversários do poder, onde antes, na época do filme, quem praticava, prioritariamente, essa "sabotagem" eram arapongas do governo, pagos com dinheiro público e verbas de caixa dois, agora "legalizados" em licitações de "contas publicitárias governamentais"...

Um belo filme....Cinema de baixo custo e altíssima qualidade...Ao contrário de nosso jornalismo, de altíssimo custo para os cofre públicos, e sempre de baixíssima qualidade...

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